janela crítica
Quem tem medo de Cris Negão?

Brasil 1: História oral

15/11/2012 06:51

por Elilson Duarte

“Vivemos num mundo decididamente grafocêntrico”. A fala do linguista Luiz Antônio Marcuschi reflete um (ainda) paradigma numa sociedade que foi se constituindo pelo valor conferido à palavra, enquanto modalidade escrita. Por meio da escrita que o mundo cientificou ou seus passos. A arte cinematográfica surge como uma quebra dessa lógica na medida em que, ampliando os feitos da fotografia, reproduz o mundo por meio de imagens que não necessariamente estão subordinadas ao verbal, mas como uma arte em que o produto final, visual, antecede a palavra e comunica na sua ausência. Por outro lado, esse mesmo cinema cria suas imagens a partir do verbo, seja pela origem roteirizada, seja pela construção ficcional de diálogos. Muitas vezes, seguindo essa herança grafocentrista que nos rege, o cinema mais ligado à palavra, o ficcional, pode assumir um status diferenciado em relação àquele cinema documental, que flerta de modo mais particular com a oralidade – desde que estejamos tratando da relação do cinema com a grande massa, em que, ainda hoje, as ficções conseguem atingir uma maior quantidade de público que os documentários, excetuando-se grandes bilheterias como A Marcha dos Pinguins. Nesse contexto, o primeiro programa da Mostra Competitiva Brasileira, História oral, une quatro filmes que têm seu universo de realização centrado na oralidade, passeando pelo ficcional e pelo documental, através de temas inerentes ao oral, que vão desde o depoimento e memória até a construção do imaginário, chegando a refletir a própria ausência da fala.

In (Bruno Oliveira, 2012) é o relato da atriz Débora Vecchi sobre um fato ocorrido nos seus onze anos de idade, em 1997, quando foi abusada sexualmente por rapazes que invadiram sua casa no meio da madrugada. Ilustrando o depoimento, aparecem imagens de arquivo (e do domínio virtual, como revelou o diretor) que, em sua maioria, travam um contraste com o que está sendo dito, como a utilização de fotografias de família numa lembrança que não é agradável. In consegue representar, simultaneamente, uma invasão, pelo contexto bastante pessoal do que aborda e um inexorável diálogo da atriz com a câmera, com os espectadores e, porque não, com ela mesma. 

A vida noturna das igrejas de Olinda (Mariana Lacerda, 2012) brinca com o imaginário urbano ao explorar as igrejas da mãe de Recife como personas na madrugada. Para tal, utiliza-se um contínuo jogo entre tomadas mais abertas, as quais mostram desde as fachadas, numa relação mais exterior, até tomadas mais “minimalistas” que focalizam detalhes interiores em pequena ou em grande escala como os monumentais pés-direitos. Esse percurso do macro ao micro modifica nossa visão das igrejas como monumentos arquitetônicos a verdadeiros personagens carregados de historicidade – aspecto auxiliado pela sobreposição de narrativas, que trazem fragmentos de pensamentos sobre a criação das igrejas, sobre a cidade de Olinda e sobre a historiografia de Pernambuco, textos extraídos dos viajantes naturalistas do período colonial, aqueles responsáveis pelas primeiras manifestações de uma literatura que ainda não era brasileira. A utilização desse recurso sonoro cria uma relação com as igrejas como se lhes conferisse uma voz, ou várias vozes, porém, em alguns momentos, as imagens parecem existir por conta da narração e não o contrário. Nesse caminho, a diretora, guiada pela vontade de contar a memória dos lugares, como ressaltou no debate ocorrido após a exibição da mostra, nos guia até um desfecho alegórico em que as igrejas se desprendem do solo, ascendem ao céu, como a Virgem Maria, e caem no mar. Submersas, na madrugada, suas memórias ficam ainda mais distantes de um público que, às claras do dia, parece não notá-las.

Quem tem medo de Cris Negão? (René Guerra, 2012) reconstrói a identidade de Cris Negão, uma travesti do centro de São Paulo que, antes de ser assassinada com dois tiros na cabeça, era conhecida pelo jeito violento que arquitetou para conseguir sobreviver. O diretor René Guerra, multipremiado com o anterior Os sapatos de Aristeu (2008), embarca novamente nas camadas do “submundo” das travestis, só que dessa vez pela “quebra do formalismo” a partir do documentário. Aqui, recruta um casting de travestis que concedem entrevistas sobre as memórias que aproximam suas vidas à vida de Cristiane Jordan (Cris Negão), lembrando de conversas, revelando episódios de violência e retratando como a sua morte alterou a vida noturna do centro de São Paulo. Sendo “exímias contadoras de estórias”, como bem ressaltou o diretor, as entrevistadas oferecem distintos pontos de vista sobre Cris Negão, vista como uma amiga, uma heroína, uma criminosa, mas sempre uma personagem essencial desse imaginário do travesti paulista. O mais inteligente nisso tudo é que em momento algum Guerra tenta formalizar a imagem dessa personagem com a presença de fotografias ou objetos que a personifiquem, pelo contrário, esses índices são apenas mencionados. Assim, permite que Cris Negão passe a fazer parte, também, do imaginário do espectador e o modo sensível com que capta as imagens consegue ampliar a identidade das entrevistadas e recriar o próprio cenário urbano de São Paulo, filmado a partir da evocação de memórias pela oralidade. Em resumo, unindo uma técnica arguta a uma discursividade tão honesta quanto os depoimentos coletados, René Guerra nos entrega mais um filme maravilhoso.

Sensivelmente maravilhoso também é A onda traz, o vento leva (Gabriel Mascaro, 2012), ficção que conta a vida de Rodrigo, um recifense de classe baixa, surdo, que trabalha como instalador de som para carros. Nessa rápida sinopse já se constata um discurso habilidoso escolhido pelo realizador: a dicotomia que faz entre o personagem ser surdo e a audição ser o sentido mais explorado do filme. Cada ruído é destacado por Mascaro, que monta um filme dissecando a questão da incomunicabilidade, levantando uma língua que existe na inexistência de som, provando, cinematograficamente, o que já se atesta linguisticamente: os gestos são palavras, o corpo performa essas palavras sem som, a comunicação humana se dá, integralmente, pelos múltiplos sentidos, pois como afirma o personagem numa passagem do filme: “é difícil entender as pessoas em outra língua”. Ainda bem que Mascaro redimensiona essa noção de língua em 25 minutos. Ainda bem que seu filme retrata o deficiente auditivo tal qual ele é, um ser humano, vivendo em sociedade, como aqueles que podem ouvir. Aliás, ele ainda prova que ser personagem ouve, com os olhos de ver, com a pele de sentir, com os gestos de falar. E, quanto a Rodrigo, fica a certeza de que se o Janela tivesse uma premiação para atores, Márcio Campelo seria um candidato quase imbatível.