janela crítica
The mass of men

Internacional 1: Vamos à luta

15/11/2012 05:43

por Elilson Duarte

Luta, polissêmica

Luta sf. 1. Combate corpo a corpo, sem armas, entre dois atletas. 2. Qualquer combate corpo a corpo. 3. Peleja; guerra. 4. Antagonismo entre forças contrárias; conflito. 5. Esforço.

O programa 1 da Mostra Competitiva Internacional lança o convite “Vamos à Luta”, cabeçalho que agrupa cinco curtas-metragens díspares entre si, da língua de origem à proposta, mas que podem suscitar os cinco contextos particulares ao vocábulo luta.

Hermeunetics (Alexei Dmitriev, 2012) funcionou, dentro da sessão, como um grande prólogo. No princípio, apenas uma natureza branda modificada com um inofensivo fogo de artifício. Depois, uma sucessão de imagens de guerra, um sequenciamento de espasmos para os olhos e para os ouvidos. Em três minutos de preto e branco, as imagens nos mostram o poder de aniquilamento de uma guerra, na ideia mais genérica, consensual, de luta. Somos levados a praticar a filosofia da interpretação-hermenêutica- deduzindo que estamos, ali, a partir daquela discursividade sonoro-visual, assistindo à fotocópia de uma típica Guerra, com suas famigeradas explosões que, na obra, soam como uma grande sinfonia da destruição. O que o diretor russo arquiteta nessa hermenêutica ultrapassa a representação bélica, pois, na verdade, se apropria de imagens reais da Segunda Grande Guerra, fator já assinalado na abertura do título, o qual é ilustrado pela imagem de uma águia em cima do globo terrestre, um dos grandes símbolos do nazifascismo, alegoria de poder no Terceiro Reich. Assim, assistimos, por meio da reconstrução fílmica, à ressignificação de um episódio decisivo na memória sócio-discursiva do espectador de cinema, de qualquer parte do mundo.

Em The mass of men (Gabriel Gauchet, 2012), as imagens iniciais são retiradas de uma câmera de segurança. Nessa perspectiva um pouco distante, identificamos o cenário como uma repartição, um escritório, que tem o seu funcionamento alterado por algum ato de violência, um homem munido de uma arma atirando numa mulher. Uma sequência de abertura integralmente acompanhada por uma música épica, por um canto lírico que aguçam a nossa expectativa quanto ao reaparecimento daquelas imagens no decorrer do filme. Em seguida, somos apresentados a um homem de meia idade, despenteado e esbaforido, a caminho de um prédio, que inferimos se tratar da mesma repartição e que propicia a especulação se é esse o homem que vai matar alguém nos minutos seguintes. Há um foco numa câmera de segurança externa e em seguida um prédio espelhado que reproduz (que filma?) o céu e a avenida. Parece que o filme está reafirmando que vivemos num mundo onde as coisas estão, naturalmente, sendo reproduzidas, vigiadas, registradas, como se fizesse uma leve referência ao Grande Irmão de George Orwell, que tudo observa. Como se ressaltasse que somos vários Winston. Seu enredo de desenvolve a partir do conflito, da luta entre um homem de meia idade desempregado (o que estava a caminho do prédio) e a analista do sistema de empregos que, seguindo à risca suas atribuições, resolve adverti-lo por conta do (recorrente) atraso, abatendo o incentivo financeiro que ele recebe do governo. Tal atitude gera um embate entre os dois personagens que só é interrompido por um disparo. É quando um terceiro homem invade o escritório portando uma pistola de pregos que dispara incessantemente contra a analista. Agora, tem-se a repetição da cena inicial, sendo que numa perspectiva próxima. O que chama atenção na cena de extrema violência, cuja sonoplastia reforça um efeito catártico, não é o assassinato em si, mas a atitude das outras pessoas presentes na repartição: cada um simplesmente salva a própria pele. Inclusive o homem advertido que vê na situação a oportunidade de apagar os dados do computador e continuar recebendo o seu incentivo integralmente. Um retrato da seleção natural contemporânea, cuja força cinética encontra habitat preciso na violência urbana, algo que pode ser contextualizado pelo que antecede os créditos finais, a famosa citação de Henry David Thoreau, escritor estadunidense: “the mass of men lead lives of quiet desperation”, ou seja, a humanidade vive num desespero silencioso suscetível a criar voz na mais feroz das violências. E até mesmo a violência se faz genial nas lentes britânicas de Gauchet.

O português Rafa (de João Salaviza, 2011), por sua vez, aparece como um “realismo episódico”, isto é, o espectador não tem (e nem terá) todas as informações a respeito do enredo e das personagens. Sim, em certa medida, isso também acontece no filme anterior, bem como é um fator comum em grande parte dos filmes integrantes das mostras competitivas, mas, centralizando tal aspecto no programa analisado, ele se dá por uma via diferente. Aqui, ocorre mais como um “recorte”, porque as personagens apresentadas, ou simplesmente citadas têm uma relação mais direta, mais complexa, mesmo que isso esteja apenas nas entrelinhas. Rafa é um adolescente que numa certa manhã recebe a notícia de que a mãe foi presa em Lisboa, para onde segue determinado a aguardar a liberação e trazê-la de volta. O filme tem a narrativa centralizada nesse dia, nessa vida, nesse personagem. Não sabemos ao certo o motivo da prisão de sua mãe, qual a realidade das relações familiares, mas temos uma série de pistas que vão desde a provável relação conturbada com um padrasto a certa solidão que paira a vida do protagonista. Tais indícios, salientados por diálogos fragmentados, pelo silêncio provocado por cortes rápidos nas cenas, podem nos levar tanto a querer continuar a estória, caso embarquemos na proposta do roteiro, como deixar uma “insatisfação” pairando no ar, caso o filme chegue a parecer cansativo. As chances são equivalentes.

Seguindo essa lógica narrativa do “episódio”, o francês Konigsberg (Philipp Mayrhoter, 2012) mostra um dia da vida de seu personagem-título, um homem que é, ao mesmo tempo, proprietário de um pequeno negócio, péssimo caçador, melancólico e, aparentemente, recluso das coisas e das pessoas que o cercam. Essa distância é justificada pelas descobertas que o Sr. Konigsberg faz de coisas cotidianas e, nesse ponto, o filme aposta num humor sagaz, que se apóia no absurdo. Já no início, um papel de parede florido e um homem sentado ao chão afinando seu longo instrumento de sopro, que se assemelha a um bambu (uma rápida busca pelo termo “didgeridoo” pode trazer uma imagem mais clara), no meio da papelaria, prática que acontece todos os dias, porém Konigsberg só descobre nesse instante, juntamente ao espectador. E, assim como no trabalho, onde o som peculiar do didgeridoo acompanha toda a cena, ao chegar a sua casa, uma música pop, vinda do quarto da filha, ambienta a nova cena. É quando ele é apresentado ao suposto namorado da filha mais velha, com a boca inteiramente machada de batom. Tais acontecimentos só são “absurdos” aos olhos do protagonista, pois são completamente naturais pela ótica das demais personagens. Para nós, enquanto audiência, chegam como um artifício de humor que nos deixa aguardando pelo próximo ponto de estranheza, que sempre chega. Inclusive no desfecho, quando há uma engraçada (clichê, mas engraçada) tentativa de suicídio e uma motivação de desistência ainda mais jocosa. Some-se a esse humor a utilização de planos muito abertos que nos permitem a visão panorâmica desse homem, que nos permitem sentir as dimensões de sua solidão quase ofuscada pelo enfoque dado ao humor.

Finalizando o programa, O amor gago (Jan Czarlewski, 2012) apresenta a problemática de Thimothy (Tim), um jovem suíço de vinte e três anos, gênio em física, mas que esbarra sua vida sentimental no seu problema de fala. A – demasiada, diga-se de passagem – gagueira se transforma numa força contrária cada vez que ele tenta se aproximar de uma garota, já que suas cantadas nunca conseguem ser completadas sem que ele se sinta um inconveniente ou que vire motivo de risada. Praticando boxe, Tim encontra uma maneira de libertar as palavras e investe na colega de treinamento, Victoria, que consegue “compreendê-lo”. O curta utiliza a questão da gagueira como uma metáfora da incomunicabilidade, num esforço contínuo da personagem em conseguir se expressar. Há uma sensível analogia entre Thimothy e seus peixes, que têm a “voz” inaudível, sufocada, submersa e que mexem os lábios de forma parecida aos dele, quando não consegue trazer palavras à superfície. Entretanto, essa analogia ganha um contorno impreciso quando inteiramente explicada via texto. Assim como a construção da personagem, que é um tanto estereotipada, pela própria aparência física do intérprete, o que pode reduzir a questão da incomunicabilidade a um humor inocente demais.