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abertura. foto-Tiago Calazans

Janela Internacional de Cinema do Recife encerra sua quinta edição anunciando premiados

19/11/2012 18:51
O  Janela Internacional de Cinema do Recife conclui neste domingo sua 5ª edição anunciando os curtas-metragens vencedores das mostras competitivas internacional e nacional, celebrando neste décimo dia de programação um festival memorável para os mais de 12 mil espectadores que lotaram sessões nos cinemas São Luiz e Cinema da Fundação Joaquim Nabuco. Sobre o Abismo, de André Brasil (Minas Gerais), que teve premiere mundial no Janela, foi o vencedor de melhor filme da mostra nacional e Rodri, de Franco Lolli (França) é o grande vencedor da competitiva internacional. Uma das elogiadas vinhetas do Janela esse ano, que defende o São Luiz e o centro da cidade como espaços de cultura, está sendo compartilhada milhares de vezes na internet, ilustrando questões importantes que o festival defende no Recife.

O Janela encerra sua quinta edição consolidado no calendário cinéfilo da cidade como a grande vitrine do cinema ao dispor mais de uma centena de filmes de todo o mundo, do Brasil e de Pernambuco, com a melhor projeção de imagem e som oferecida atualmente num festival brasileiro em equipamento especialmente instalado no Cinema São Luiz. O festival transcorreu sem nenhuma sessão cancelada, projeção digital e som perfeitos, num ano que viu apenas 20% dos filmes exibidos passarem no tradicional formato 35mm. “É um momento histórico curioso, o fim de uma era, o digital através do DCP parece estar tomando totalmente o espaço de exibição, diz Emilie Lesclaux, uma das criadoras do Janela”.

O Cinema São Luiz se consagrou como a “casa” dessa janela. O palácio, um dos raros antigos cinema de rua ativos no país, celebrou em 2012 seus 60 anos e recebeu do festival uma homenagem com títulos absolutos dentro do consagrado programa “Clássicos do Janela”. Pelo segundo ano consecutivo, foi especialmente equipado com um projetor Christie de 30 000 Ansilumens (o projetor padrão usado no Festival de Cannes) e sistema de som digital Dolby.

“Uma coisa que não economizamos é nos equipamentos, pois um festival de cinema precisa deixar os realizadores que exibem seus filmes e o público que vai assistir de queixo caído. Sem esses dois, nós não temos um festival, e os filmes merecem todo o respeito. Além disso, com equipamentos excelentes, tudo funciona”, diz Kleber Mendonça Filho.

Em seu terceiro ano – embalado pelos sucessos anteriores da Trilogia dos Dólares, de Sérgio Leone e mostra da cinematografia de Stanley Kubrick, no ano passado -, a seleção emplacou uma sequência impressionante de sessões lotadas que farão parte da memória afetiva dos milhares de espectadores que foram (re)ver Tubarão, de Steven Spielberg, Taxi Driver, de Martin Scorsese, A Noviça Rebelde, de Robert Wise, e Psicose, de Alfred Hitchcock, em cópias novas de altíssima qualidade de imagem e som, exibidos em DCP via sofisticado equipamento de projeção.

“A mostra de clássicos ilustra nosso amor pelo passado do cinema, que funde-se perfeitamente com o São Luiz como espaço afetivo para o festival e para a cidade. Apresentamos novos filmes e autores, fazemos parcerias com importantes festivais pelo mundo e não esquecemos os filmes que ajudaram a dar sentido ao próprio cinema ao longo das décadas. E o São Luiz se encaixa perfeitamente nessa idéia, um cinema onde os filmes e a tela se complementam”, comenta Kleber Mendonça Filho, diretor artístico do festival.

VINHETAS – A vinheta “NINGUÉM!” (http://www.youtube.com/watch?v=JT9-hQv3yGc&feature=youtu.be), veiculada no festival antes de algumas sessões, foi postada na internet e tem sido muito discutida. Mostra que, ao contrário do que muitos acreditam, o ato de ir ao cinema pode não estar totalmente restrito aos shoppings, e o São Luiz, no centro da cidade, pode ser uma alternativa importante para uma reconstrução da idéia de utilizar os espaços públicos.

Além desta vinheta em especial, o festival ofereceu um leque de curtos filmes realizados por cineastas como Daniel Bandeira, Chico Lacerda, Leonardo Lacca e o próprio Kleber Mendonça Filho, que diz “as vinhetas do Janela já são conhecidas por definirem o tom do festival antes de cada sessão, mas também ao serem postadas na internet. Creio que esse ano, tivemos uma grande safra de vinhetas, filmes curtos ovacionados antes mesmo da atração principal começar. São a cara do Janela. “

Links para as vinhetas:
http://youtu.be/yWbiQaIChqY
http://youtu.be/2OvwD0hjOUc
https://vimeo.com/53247788
http://vimeo.com/52981604
http://vimeo.com/53021625

O Janela também estampou um momento especial da produção local, promovendo um frutífero encontro entre o novo cinema pernambucano e o seu público com sessões de ótima recepção: Boa sorte,  Meu amor, de Daniel Aragão (vencedor do Festival de Brasília na categoria Melhor Diretor), filme de abertura, seguido de ótimos trabalhos como Eles Voltam (que dividiu o Candango de Melhor Filme com Era Uma Vez Eu, Verônica, em Brasília), primeiro longa metragem de ficção de Marcelo Lordello, e Doméstica, de Gabriel Mascaro, que representa o Brasil na competição do maior festival de documentários do mundo, o IDFA (International Documentary Film Festival Amsterdam, que acontece simultaneamente ao Janela.

O festival ainda sedimentou os programas especiais com parcerias internacionais, cujos representantes vieram ao Recife conhecer realizadores brasileiros e também o cenário local de cinema.  Esse ano: o Panorama Alemão, a Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes, França, e o Festival de Curtas de Vila do Conde, Portugal. E ainda foi fortalecida a promoção de debates sobre cinema, com encontros sobre Câmera Cidadã e Preservação na era digital. Assim, foi uma realização de amplo sucesso, atingindo cerca de 12 mil espectadores ao longo dos dez dias de cronograma.

“Atingimos em mais um ano o limite das possibilidades de programação, até de público. Gostaríamos de no próximo ano poder contar com mais salas e assim garantir mais espaço na nossa grade, atualmente precisando crescer”, avalia Kleber Mendonça Filho, que pondera ainda que o São Luiz no próximo ano será ainda mais adequado ao Janela, já que a Fundarpe deve prepará-lo a tempo com equipamentos próprios.

PREMIAÇÃO – V JANELA INTERNACIONAL DE CINEMA DO RECIFE

1. PRÊMIO DA FEPEC – Federação Pernambucana de Cineclubes

Formado por: Carlos Silva, Ludimilla Wanderley e Pietro Félix

Competição nacional: A onda traz, o vento leva, de Gabriel Mascaro (Pernambuco)
Competição internacional: Dag (Adeus), de Tamar Van den Dop (Holanda)

2. PRÊMIO DA ABD/PE – Associação Brasileira de Documentaristas

Formado por: Iomana Rocha, Germano Rabello e Felipe André.

” Distintos olhares sobre como o sistema – em suas relações sociais e de trabalho – afetam incisivamente a subjetividade humana, gerando reações e catarses por vezes surpreendentes. Dois personagens em crise. corpos diluidos, oprimidos pelas misérias ( reais e simbolicas) que o sistema lhes proporciona. Por explorar sensivelmente estas relações, cada um a sua maneira, de como o sistema afeta e é afetado pela subjetividade humana, o Júri da ABD/PE, no V Janela de Cinema, concede os prêmios de melhor curta internacional à The Mass of Men, de Gabriel Gauchet, e de melhor curta nacional à Animador, de Cainan Baladez e Fernanda Chicolet.”
Internacional: The Mass of Men, de Gabriel Gauchet  (Reino Unido)
Nacional: Animador, de Cainan Baladez e Fernanda Chicolet (São Paulo)

3. PRÊMIO DA OFICINA JANELA CRÍTICA

Formado por: Bruno Alves Ferreira, Elilson Gomes do Nascimento, Luciano Viegas da Silveira, Mário Rolim, Maria Olivia Silva de Souza, Rodrigo Silva Pereira e Mariana Vieira Gregorio

Melhor curta brasileiro: Quem tem medo de Cris Negão? de René Guerra (São Paulo)
Sem nunca chegar a ter certeza sobre a existência de Cris Negão, somos envolvidos nos relatos performáticos que transignificam a personagem e também o discurso em que se inscreve. René Guerra é sensível tanto como cineasta quanto como ouvinte, a imaginação dele e a nossa brincando juntas, inebriados como estamos pelas palavras das maiores contadoras de histórias da noite de São Paulo.

Melhor curta estrangeiro: The Mass of Men de Gabriel Gauchet (Reino Unido)
Ao desnudar as circunstâncias estruturais da organização do trabalho, Gabriel Gauchet relembra que permanecemos uma massa humana em desespero silencioso, suscetível a dar voz à mais feroz das violências. The mass of men nos arrebata com discurso, argumento e imagem, cuja força cinética deixa uma sensação de único filme, como se não houvesse equivalência emocional possível.

4. JURI INTERNACIONAL

Formado por:  Moacir dos Anjos (pesquisador e coordenador de artes visuais da Fundação Joaquim Nabuco); o cineasta Marcelo Caetano, vencedor de Melhor Curta Brasileiro no Janela do ano passado;  e a cineasta Renata Pinheiro.

Melhor Som: Rafa, de João Salaviza (Portugal)
Por definir a decupagem a partir da tomada de pontos de vistas sonoros essenciais para a narrativa; pelo uso do extra-campo para estabelecer relações de poder entre personagens; pela construção de uma ambiência de cidade que preenche a jornada solitária do protagonista. O prêmio de melhor som vai para “Rafa” de João Salaviza.

Melhor Montagem: O Que Arde Cura, de João Rui Guerra da Mata (Portugal)
Por executar com ritmo e sensualidade a difícil tarefa de montar um monólogo; por articular memória histórica e lembranças pessoais em camadas que se sobrepõe em uma narrativa de exuberante teatralidade; o prêmio de melhor montagem vai para “O que arde cura” de João Rui Guerra da Mata

Melhor Imagem: Manhã de Santo Antônio, de João Pedro Rodrigues (Portugal)
Pela rigorosa construção de planos em enquadramentos pouco óbvios, pelo equilíbrio da luz que transforma uma manhã de sonhos românticos em uma melancólica marcha de mortos-vivos.  O prêmio de melhor imagem vai para “Manhã de Santo Antônio” de João Pedro Rodrigues.

Premio especial do júri: Les Cheveux Courts, Ronde (Cabelo Curto, Gordinha e Baixinha), Petite Taille, de Robin Harsch (Suíça)
Por utilizar a linguagem cinematográfica para superar o luto da perda da mãe, em uma narrativa extremamente pessoal e ao mesmo tempo de potente universalidade, o júri concede uma menção honrosa ao emocionante filme “Cabelo Curto, Gordinha e Baixinha” de Robin Harsch.

Melhor filme: Rodri, de Franco Lolli (França)
Pela construção ambígua das relações de uma família de classe média; por não esbarrar em pudores ao explorar os conflitos entre personagens; pela impecável direção de atores que provoca os corpos a interpretarem com intensidade a história de um personagem deslocado dentro da ordem burguesa; o prêmio de melhor filme vai para “Rodri” de Franco Lolli.

5. JURI NACIONAL
Formado por: André Dib, jornalista, pesquisador e crítico de cinema; o cineasta Sérgio Borges; e o cineasta Marcelo Lordello

O júri reconhece o alto nível da seleção apresentada pelo Janela Internacional de Cinema do Recife. Em sua maioria, são filmes fortes, o que tornou nosso trabalho ainda mais desafiador. Deste conjunto, elegemos filmes cujo mérito é maior do que suas premiações específicas.
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI -  O Duplo, de Juliana Rojas (São Paulo)
Pelo exímio controle e rigor no uso da linguagem cinematográfica, por respeitar o mistério como posicionamento contra a banalização do gênero e por criar uma analogia formal com o tema e assim, se abrir para o seu duplo, o júri concede o prêmio especial para “O Duplo”, de Juliana Rojas.

MELHOR SOM – A Onda Traz, O Vento Leva, de Gabriel Mascaro (Pernambuco)
Por expandir o uso do som enquanto objeto da matéria fílmica a partir da experiência de transfiguração sonora conduzida pelo personagem e assim propor ao espectador outras possibilidades de se relacionar com os seus sentidos, o júri concede o prêmio de Melhor Som para “A onda traz o vento leva”, de Gabriel Mascaro.

MONTAGEM – Sobre o Abismo, de André Brasil (Minas Gerais)
A partir de um olhar pessoal, a obra se apropria de imagens alheias e as  rege por um fluxo de pensamento com liberdade de criação que constrói um discurso íntimo sobre sentir o cinema. Ao concatenar filmes, estabelece ideias, tom e ritmo próprios, e se torna um. O júri concede o prêmio de Melhor Montagem para “Sobre o Abismo”, de André Brasil.

MELHOR IMAGEM – Porcos Raivosos, de Isabel Penoni e Leonardo Sette (Pernambuco)
Oca em construção, espaço ocupado por processos de criação conjunta.  Reinvenção estética da potência de uma cultura. Consciência coletiva da representação e da autoria no jogo do cinema. O júri concede o prêmio de Melhor Imagem para “Porcos Raivosos”, de Isabel Peroni e Leonardo Sette.

MELHOR FILME – Sobre o Abismo, de André Brasil (Minas Gerais)

Por traduzir com maestria o risco da crença na potência da arte que escolhemos como vida, pelo elogio às imagens que inquietam e aprofundam nossa experiência no mundo e pelo ato incondicional de amor ao cinema, o júri concede o prêmio de Melhor Filme para “Sobre o Abismo”, de André Brasil. Porque, alguém disse, acreditamos que as imagens podem nos salvar, mesmo que aqui do lado de fora, a catástrofe seja iminente.