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Nossos traços (Rafael Spínola, 2013)

Lembranças do cinema entre nós (‘Nossos traços’, ‘Os filmes estão vivos’)

15/10/2013 01:30

por Cesar Castanha

Fui capaz de reconhecer a festa de aniversário enquanto o vídeo tomava a tela. Reconheci sua época, um pouco anterior a minha, pelas memórias emprestadas da minha infância. Aquela era a festa de meus irmãos mais velhos, de alguns tios mais jovens. “Essas crianças devem ter hoje uns 30 anos”, me confirma uma doce voz da plateia. A seu pedido, o vídeo é adiantado diante dos nossos olhos. Seu interlocutor tem voz de garoto, fascinado com as observações feitas diante do filme. “Que festa chata”, diz ela em tom de saudade jocosa. “Pronto, aí”. O filme para. “Volta. Aí, é ele. Nossa!”. Já entendi, eu sei o que estamos olhando. “Nossa…”

Segue uma experiência. Fabiano de Souza e Milton do Prado decidem filmar as aventuras de Enéas, pai de Fabiano, em Paris, para onde viaja “todos os anos para se certificar de que os filmes estão vivos.” As filmagens encondidas em sessões de cinema casam com as observações de Enéas em um testemunho de cinefilia.

Esses foram Nossos traços (Rafael Spínola, 2013) e Os filmes estão vivos (Fabiano de Souza e Milton do Prado, 2013). Duas grandes reflexões sobre o ato crítico. Lembranças de que o cinema está em contato com alguém, um leitor capaz de moldá-lo, distanciando-o das intenções de criação, jogando sobre ele luzes não percebidas.

São formas distintas de ver um filme. Nossos traços nos convida a uma experiência de crítica coletiva, colocando as observações de seus personagens ao lado das nossas: fora da tela. Somos incluídos num momento muito íntimo de uma família que recupera sua memória na observação conjunta de um filme caseiro.

Já em Os filmes estão vivos, Enéas usufrui do poder monólogo a ele permitido pela câmera em close. O curta também nos convida à experiência crítica, mas o diálogo estabelecido é hierárquico. Temos o nosso lugar, Enéas tem o dele. Os diretores tentam participar da conversa, mas sem sucesso. O crítico impõe sua palavra e não permite que modifiquem sua leitura, se contentando em modificar as dos que não tem câmera no rosto.