janela crítica
O ato de matar (Joshua Oppenheimer, 2012)

No embalo de sábado (‘O ato de matar’, ‘Gatinha estranha’)

14/10/2013 15:33

por Cesar Castanha

Deve-se celebrar um festival que já começa o seu segundo dia com uma generalizada sensação de ressaca. As pessoas que circulavam pelo lounge do Cinema São Luiz poucos minutos antes da sessão de O ato de matar (Joshua Oppenheimer, 2012) eram poucas e silenciosas. Gente que acompanhou dois filmes em uma noite anterior cheia (de pessoas, sons e imagens) e que acordou a poucas horas da primeira sessão de sábado, disposta a ficar no cinema até o último movimento pélvico de John Travolta.

Dando início à segunda sessão competitiva do Janela, Kleber anuncia O ato de matar como um filme controverso e o associa a Tatuagem, da noite de sexta, no uso da arte na busca por liberdade. O filme de Oppenheimer é visto em silêncio, interrompido por alguns poucos risos nervosos. Na tradução literal em português, a dubiedade do título original se perde. A performance dos genocídios, o act, cede ao evento em si. Na Indonésia, em 1965, milhões de pessoas (na maioria, comunistas e chineses) foram assassinadas. Os assassinos e mandantes detêm poder político e ideológico no país até os dias de hoje. Há um receio ao definir o filme como documentário que firmemente descarto. O cinema documentário não está preso a padrões narrativos, ele se abre às várias possibilidades do contato com a História, seja a de uma sociedade ou de um indivíduo. O ato de matar busca a verdade de ambas através do cinema e do espetáculo cênico. A culpa e o orgulho são sentimentos fortes e de constante conflito nos personagens. Oppenheimer permite que eles tragam o conflito à câmera com a naturalidade que convivem com ele por todos esses anos.

O segundo longa do dia, Gatinha estranha (Ramon Zürcher, 2013), é uma daquelas pérolas escondidas em festivais de cinema. Apresentado humildemente pelo seu simpático e jovem realizador, o filme tem a força da surpresa das manifestações contidas de todos os seus personagens. Um dia que se confunde em batalhas individuais por atenção, microuniversos que se chocam com as lembranças e manias do vizinho. A câmera transita entre todos os mundos desse apartamento em constância abrupta, subindo e descendo à altura de seus personagens.

Foi ainda confuso pelas vozes sedentas dos dois primeiros filmes que encontrei a expectativa externa por Os embalos de Sábado à Noite (John Badham, 1978). Os que estavam prontos para rever o filme no cinema faziam exigências de uma sessão pontual. O tumulto dentro e fora faz mais uma fez jus ao Janela, e animados, cansados e ansiosos batemos os pés levemente no chão da sala para nos sincronizarmos aos passos da ingenuidade cruel da juventude do Brooklyn. É Bee Gees que expurga de uma vez por todas a exaustão presente desde o início do dia e nos deixa prontos pra outra.