janela crítica
Antigo Cinema Boa Vista, no Recife

O fim que abre o início (‘Censura livre’, ‘Tatuagem’)

13/10/2013 04:40

por Cesar Castanha

O que vejo como o grande diferencial do Janela em relação aos outros festivais de cinema que circulam anualmente pelo Recife é o diálogo que estabelece com a cidade. Como foi dito na abertura, e está explícito nos materiais de divulgação do evento, os clássicos exibidos nesta edição têm como ponto comum a ampla variação da palavra manifestação. O político Faça a coisa certa (Spike Lee, 1989), será um dos mais fáceis de associar ao termo. Nas sessões de clássicos ainda teremos filmes como A mosca (David Cronenberg, 1986) e Monty Python: o sentido da vida (1983), os quais espero com ansiedade serem apresentados sob um viés que, até o momento, ignoro.

No que depende da primeira sessão competitiva do festival, a noção de manifestação não está restrita aos clássicos. Os outros dois filmes apresentados na noite de sexta-feira, o curta-metragem Censura livre (Ivan Cordeiro, 1980), e o longa Tatuagem (Hilton Lacerda, 2013), desviam a palavra para um tempo e lugar determinados, o Recife do fim da década de 1970. Mas este é o Janela Internacional de Cinema, e o desvio logo explode em atemporalidade para refletir o hoje, o aqui.

Da união desses dois filmes, há mais que tempo e lugar. São duas obras preocupadas com a preservação da cultura em um momento de repressão política e econômica. O fechamento do cinema Boa Vista, de projeção precária e mal climatizado, por um confortável e lucrativo supermercado é registrado como um sinal do apocalipse pelos criadores de Censura livre. Que os cinemas que fiquem reproduzam a cultura da pornochanchada parece irritá-los profundamente. “Estamos aqui filmando contra a ditadura da pornochanchada”, dizem suas camisetas, num momento de super 8 documentando a atuação social da própria Super 8.

O registro cinematográfico que anuncia o fim do cinema (um fim físico que serve de prenúncio para o fim artístico, criativo) encontra também uma ligação com o lado de fora do Janela. O filme The Canyons, de Paul Schrader, que há poucos meses estreou nos EUA, simultaneamente no cinema e na internet, compartilha da angústia de um cinema que morre nas mãos da perversão financeira e cultural daqueles que poderiam mantê-lo vivo.

A noção de morte cultural é saudavelmente contrariada pelo amoroso Tatuagem. Os personagens do filme agem em construção de algo novo. Ao invés de testemunhas do fim dos tempos, são contempladores entusiasmados da possibilidade de reinvenção cultural. São a geração que começa, não a que termina, ainda que nos dois filmes sejam a mesma geração. O Chão de Estrelas é formado por artistas que querem transformar a arte performática, elevá-la. O futurístico A ficção e a filosofia, apresentado no epílogo por um dos personagens, quebra harmonicamente com o saudosismo do filme e confirma um otimismo com as gerações seguintes, que se fazem presentes no filme em Tuca, filho de Clécio. Tatuagem confia na capacidade da cultura de se desviar da opressão e de sobreviver a si mesma.

Sessão de 'Censura livre' no Cinema São Luiz (Foto: Victor Jucá)

Sessão de Censura livre no Cinema São Luiz (Foto: Victor Jucá/Divulgação)