janela crítica
Prometo um dia deixar essa cidade (Daniel Aragão, 2014)

A forma da porralouquice (‘Prometo um dia deixar essa cidade’)

06/11/2014 01:59

colaboração de Mário Rolim, participante da Janela Crítica em 2012

Blog: Assim Não Esqueço

Antes de mais nada, cheguei à conclusão de que é quase impossível obter uma experiência prazerosa dos filmes de Daniel Aragão sem o desprendimento ou disposição suficientes para aceitar sua visão de mundo bastante particular, onde sensos de realismo são esquecidos ou ignorados a seu bel prazer, os personagens às vezes conversam de um jeito que faz parecer que eles são obrigados a falar de seus sentimentos e motivações como se fala num discurso, de forma tão aberta (ou honesta?) que parece falsa, onde tudo é exagerado em algum nível, e se dá mais importância ao exercício de estilo e à estética que ao conteúdo. E aceitar tudo isso não é fácil.

De certa forma, o filme se aproveita ou se inspira na estrutura e em vários dos elementos – e até algumas composições – de Laranja mecânica (Stanley Kubrick, 1971), colocando em evidência a hipocrisia, perversão e corrupção dos controladores de mentes ou de poderes para criticá-los. Além disso, nos dois filmes o personagem principal estabelece uma série de encontros com outros personagens que é posteriormente repetida de forma trágica e perversa, com a diferença de que pode-se dizer que Joli passa por duas “curas” – a primeira quando sai da clínica, no início do filme, e a segunda quando é submetida ao tratamento de choque –, enquanto Alex só passa por uma. No entanto, em Prometo um dia deixar essa cidade (Daniel Aragão, 2014), a derradeira cooptação de Joli pelos agentes controladores (no caso, o namorado e o pai) fica menos convincente ao ser misturada com fatores relacionados a traumas psicológicos da infância que tornam a crítica aos controladores menos precisa e importante. E enquanto Kubrick usa a violência dos controladores contra Alex para defender o livre-arbítrio e a capacidade de escolher entre o bem e o mal essenciais a Alex (com propensão maior ao mal), o que Aragão parece defender em Joli é sua capacidade de escolher entre um comportamento “normal”, regrado (ou seja, falso) e outro subversivo e impulsivo (ao qual Joli parece mais propensa), movido por traumas e sentimentos infantis – o que é uma defesa, por consequência, do próprio caráter subversivo do diretor.

Ao contrário de Boa sorte, meu amor (2012), que já tinha uma forma rigorosa mas parecia seguir cursos diferentes devido a uma discordância entre forma e conteúdo, em Prometo um dia… o lado “porralouca” e subversivo de Aragão finalmente se equivale e é refletido na forma, numa clara evolução por parte do diretor. Isso resulta num filme cuja estética é excessiva, quase attention whore, com luzes estouradas, filtros coloridos, ângulos de câmera arrojados, longos zoom-ins e composições rebuscadas se aproveitando de uma grande angular. Apesar dessas explorações estéticas serem frequentemente impressionantes e belas, dando ao filme um quê de psicodelia dos anos 1960/1970 – mas muito over-the-top – que corresponde até certo nível à personalidade louca de Joli, em certos momentos elas chamam tanto a atenção para si (e consequentemente para a figura de Aragão como auteur) que acabam distraindo ou tornando a ação em si menos em interessante. Sem falar que não dá para estabelecer uma relação fechada entre a expressão da personalidade de Joli e a estética, já que Joli varia muito ao longo do filme e a estética se mantém quase sempre excessiva.

Mas é uma pena que a subversão de Aragão não signifique também uma atitude contra o machismo que a própria Joli condena no filme, em discurso. A única personagem feminina de destaque, com a exceção da própria Joli, é a amiga da protagonista, a portuguesa Manoela, com quem Joli só consegue conversar sobre drogas, ou… homens (no estilo “quem é pegador mesmo” e etc.). Isso quando Joli não está atacando Manoela com um discurso hipócrita e moralista, que condena a portuguesa pelo mesmo estilo “descolado porém sem muita profundidade” que o diretor parece emanar. Já a mãe de Joli é reduzida a uma razão para o pai sentir atração pela filha e nada mais. Além disso, a sexualidade de Joli parece sempre passiva, dependente ou do pai ou do namorado, quando não é uma expressão da loucura e do distúrbio psicológico da personagem, como na cena de masturbação, que perde seu potencial libertário e é usada quase como amostra de “mulher louca e histérica”. A única cena que não se encaixa nisso é uma em que Joli expressa toda a sua “porralouquice” ao beijar à força um estereótipo de mecânico negro e pobre, numa cena em que o senso de ridículo ganha contornos até preconceituosos – Joli pareceria tão louca se beijasse um branco rico e amigo do seu namorado? A visão fetichista de Aragão sobre o corpo de Joli também fica evidente na cena em que ela dispensa a empregada e passa a encerar/limpar o chão completamente nua, numa cena que poderia ser de empoderamento da personagem se a ação não fosse ridicularizada.

Alex vs. Joli

Alex vs. Joli

Não que esses excessos não acabem rendendo algumas cenas realmente boas. A cena de Joli posando em harmonia para a câmera com o padre e o PM, por exemplo, é hilária. Também chamam a atenção algumas cenas onde a realidade absurda se transforma em delírio (de tão absurda que é), como na cena em que a protagonista entra na favela e vê uma multidão de crianças mortas pelo crack. Esta cena mostra também uma crítica sociopolítica que, apesar de estar absolutamente em segundo plano e não ser aprofundada, é válida até certo ponto por mostrar a perversão e hipocrisia por trás das grandes famílias e figuras da política nacional/local, e sua responsabilidade em problemas graves da sociedade – especificamente os relacionados ao tráfico de drogas. Os sonhos que tentam explicar a relação de Joli com o pai desde a infância também são interessantes, apesar dos esquemas freudianos da relação dos dois a partir da segunda “cura” parecerem às vezes absurdos demais. De qualquer modo, esse segmento do filme mostra um diretor assumindo seu lado subversivo e tomando mais liberdades do que nunca, de maneira até admirável, de certa forma.

O final também coloca em destaque, mais do que nunca, a capacidade da atriz Bianca Joy Porte, que justifica a fascinação da câmera por seu rosto – que rende alguns closes lindos – com muita entrega. Apesar dos problemas na construção da personagem, ela se mantém na defesa dela do início ao fim, mesmo nas falas mais absurdas, como “o que eu preciso é reconquistar minha vida!” e etc.

Outro nome que se mantém digno de aplausos é o do tecladista Bernie Worrell, que assina a trilha sonora, alternando entre o melancólico, o onírico e o esquizofrênico (com diferentes camadas de teclado indo em direções diferentes ao mesmo tempo). A trilha é essencial em dar ao filme seu clima psicodélico, ou em representar através de sons a confusão dentro da cabeça de Joli em alguns momentos. Enxergando por certo ângulo, o filme de Aragão pode até parecer com uma daquelas canções mais ambiciosas e cheias de excessos da Funkadelic, antiga banda de Bernie, como Promentalshitbackwashpsychosis enema squad (The doodoo chasers) e Good thoughts bad thoughts. Elas são divertidas, tem a forma instigante, ousada e excêntrica, mas de um jeito em que não dá para se levar muito a sério os comentários sociais que seu autor (no caso, George Clinton) expressa de forma quase jocosa – não que essa seja a parte mais importante do filme de Aragão ou das canções citadas, mas é algo a se considerar, naturalmente. Mesmo com todos esses problemas e ambivalências, tenho certeza de que o cinema seria mais chato sem Daniel Aragão.