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Rio-me porque és da aldeia e vieste burro ao baile (Stealing Orchestra e Rafael Dionísio, 2014)

A narrativa vive de outras formas (Inter 2: A narrativa morreu)

06/11/2014 01:37

por Rafael Mello

Nos final do século 19, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche professava a máxima “Deus está morto”. O pensador dizia que a ideia de deus se mostrou necessária durante a história humana, mas, na modernidade, o homem não precisaria mais dessa entidade para explicar o funcionamento das coisas. Deus teria morrido, e os seres humanos que o mataram.

Décadas mais tarde surgia o cinema. Criava-se uma narrativa própria dotada de particularidades e semelhanças com outras mídias. Sendo o cinema baseado no conceito de ação, a narrativa parece estar intrínseca à arte. Parecia. Seria possível construir um filme sem uma linha narrativa? Seria possível construir uma humanidade sem a presença um deus? A primeira pergunta nos leva a, se não a ruir a noção de narrativa, pelo menos desafiá-la.

É isso que faz o programa de curtas internacionais A narrativa morreu. O nome audacioso chamaria o olhar de vários janeleiros sobre que tipo de produções que se encaixariam numa premissa tão excêntrica.

Ponto morto (André Godinho, 2014) beira os conceitos niilistas ao categorizar: “O cinema está morto”. O filme português foi um dos mais irregulares entre os curtas competitivos. Um começo morno é revolucionado numa metalinguagem fílmica autocrítica surpreendente. Toda tensão até então dissipada pelo filme é reconquistada num plot twist em que descobrimos que o que estávamos vendo era propositalmente chato, pois “o cinema está morto e a narrativa morreu”.

Lamentavelmente, o curta montanha-russa se perde ao entrar em metáforas forçadas sobre morte, repetitividade e cinema, criando uma resolução cansativa.

Uma narrativa posta em cheque pode resultar numa enfadonha falta do que dizer, como no caso de Ponto morto, assim como numa saturação do dizer. O defeito de Washigtonia (Konstatina Kotzamani, 2014) é o mérito de Rio-me porque és da aldeia e vieste burro ao baile (Stealing Orchestra e Rafael Dionísio, 2014). O primeiro nos lança inúmeras informações supostamente interligadas que facilmente se dispersam, numa linguagem rebuscada que parece não ir muito longe. Rio utiliza dessa mesma estratégia de saturação do discurso de maneira bem mais evidente, e diferente, que o primeiro curta. Somos jogados em seu universo anárquico. As imagens de pikachus e sonics que nos são atiradas criam uma viagem coloridamente alucinante de uma cultura pop pixelizada e dadaísta. Ironicamente, o filme toma consciência de seu papel da subversão de, entre outros elementos, a narrativa.

O efeito humorístico brotado em Rio aparece de formas bem peculiares em Eu Tube: Augusto Canta Habanera (Daniel Moshel, 2014) e The dark Krystle (Michael Robinson, 2013). Ambos utilizam a montagem de forma a perverter as noções tradicionais de narrativa. Eu Tube usa de um falso plano sequência para nos mostrar diferentes possibilidades de criação de sentido por meio de estímulos visuais derivados de uma mesma base sonora, enquanto Krystle cria uma paródia bem humorada a partir da repetição de discursos clichês em gêneros televisivos. Robinson propõe uma releitura crítica de arquétipos narrativos, suscitando, após a sessão, a vontade de uma versão brasileira da sátira.

Como o deus-cadáver niilista, a narrativa pode ter recebido uma sentença de morte. Mas o veredito possui consequências contrárias. Afinal, quando cria-se um filme que contesta modelos narrativos tradicionais, adquire-se um outro tipo de narrativa que, mais arriscada, expande os limites convencionais. A narrativa pode ter morrido, mas continua viva.

Ponto morto (André Godinho, 2014)
Ponto morto (André Godinho, 2014)