janela crítica
Prometo um dia deixar essa cidade (Daniel Aragão, 2014)

Free your mind… and your ass will follow (‘Prometo um dia deixar essa cidade’)

06/11/2014 02:06

por Alan Campos

Acho que a parte mais fantástica em se acompanhar um festival como parte dele, no meu caso, assistindo a diversos filmes diariamente, escrevendo e discutindo sobre eles é notar a quantidade de cinéfilos, críticos, curiosos que invadem os cinemas bastante entusiasmados. A recepção dos filmes nem sempre corresponde à emoção das filas e o choque entre plateia e imagem pode resultar em experiências decepcionantes. Estranhamente o único filme da competição oficial em que presenciei agitadas ambas as expectativas e recepções foi Prometo um dia deixar essa cidade (Daniel Aragão, 2014). A recepção calorosa teve de tudo: pessoas saindo no meio do filme, pessoas eufóricas em seus xingamentos, outras rindo (do filme) no meio da sessão – e alguns adoraram tanto a defesa de outros sobre o filme quanto o próprio filme. Existem posicionamentos claros que repercutiram, possivelmente, mais que qualquer outro filme do Janela 2014. Curiosamente, esse amor cinéfilo é igualmente percebido em Aragão, que permite à sua bagagem cinematográfica tomar de ataque seu filme.

A vontade de expor uma cinefilia por parte de sua direção preza por planos elaborados e por uma encenação marcada pelo excesso. Correndo o risco de extravasar além da conta, Prometo um dia… carrega em si uma jovialidade bastante particular que inexiste em boa parte do cinema nacional. Um filme vigoroso, cujas situações grotescas extasiantes lembram o melhor da Boca do Lixo dos anos 1960/70.

Este mundo cinéfilo é especialmente exposto por meio de sua protagonista Joli (Bianca Joy Porte) – recém-saída do sanatório que regressa a sociedade em meio à campanha política de seu pai. O filme é sobre ela, evidenciado logo no primeiro plano sua condição frágil, ao mesmo tempo de não conformismo, onde aparece nua lutando contra guardas no hospital. De forma semelhante a O exorcista (William Friedkin, 1973), Prometo um dia… recorre diversas vezes a uma agonia física, aqui fruto de constantes agressões hospitalares sofridas por sua protagonista. Joli-Regan são de natureza incompreendida (para espectador e personagens), sofrem baterias de testes médicos que se utilizam de agulhas, choques e remédios como uma maneira de normalizá-las. Esse aspecto evoca não somente uma atmosfera bizarra e confusa (no melhor sentido) que permeia todo o filme, como também empatia por aquelas mulheres. Diferentemente de Friedkin, porém, Aragão observa o bizarro no seio familiar da classe média, bem como suas reverberações sociais.

Existe uma autocrítica por parte de Aragão em meio a esses assuntos. Percebi uma necessidade de incorporar temas que o cineasta se posiciona como incapaz (assim como Joli) de entender melhor, tais como o choque entre classes sociais. Porém, esse “anacronismo” no olhar para o Recife de luta de classes (tão inserido na obra de outros cineastas pernambucanos) não se configura como algo prejudicial à narrativa, pois o Recife de Aragão, assim como o de sua personagem, é um estado de espírito. Recife como manicômio, Joli como loucura. A questão atravessa situações (Joli beija o mecânico, Joli entra na favela) lançadas de maneira caótica e rápida, revelando-se parte intrínseca de um personagem-filme amedrontado e acuado, que atira para vários lados como forma de se mover e “achar a porra da luz” que Joli narra no início. Ser bagunçado é parte de seu projeto estético e ele absorve cada momento isolado como uma vontade de chegar o mais próximo da mente de sua personagem.

Nessa jornada rumo ao interior de Joli, a imagem se liberta em servir a uma narrativa mastigadinha e sem furos de roteiro. A saúde mental de Joli se fragiliza a ponto de que o filme priorize flashes e delírios da personagem como forma de encontrar um clímax. A necessidade de deixar a imagem fluir por cenas que provoquem sensações é enfatizada pelo uso marcante da trilha sonora de Bernie Worrell, membro do grupo Funkadelic. Aragão deixa o funk caótico imagético se conectar ao espectador e filma imagens sem aprisioná-las, fazendo com que seus momentos finais passem quase como uma colagem de imagens descontextualizadas e situações estranhas que resultam numa trip cinematográfica divertida. Prometo um dia deixar essa cidade é punk ao libertar sua estética chapada de tantos filmes para formar uma identidade própria e convidativa de “free your mind… and your ass will follow”, nome que leva uma das brincadeiras igualmente divertidas do Funkadelic.