À beira do abismo (Não é um Filme Caseiro)

07/11/2015 às 15:04

nao e um filme caseiro, no home movie

— por Felipe Leal —

Traduzido para o português, o último filme de Chantal Akerman abre lugar para dupla significação. Não é um Filme Caseiro (No Home Movie, 2015): caseiro por tomar como “espaço cênico” o ambiente de um lar ou por aquilo que existe de amador, pouco trajado de um excesso de tecnologia? A cineasta – e em sua filmografia esta palavra talvez nunca tenha sido tão apropriada – indiretamente responde que, ao menos na língua em que ajudou a traduzir o próprio filme, ele não é da casa, embora a maior parte de sua duração se estabeleça dentro de uma.

Mas há quem questione: por que um filme aparentemente tão simples merece ser aplaudido? Não há dezenas de cineastas fazendo o mesmo? E eu respondo: não. O que o diferencia de todos os outros cujo material sensível é o real mais cotidiano é um fator feliz e infeliz ao mesmo tempo.
Semelhante ao Quarto da Vanda de Pedro Costa, ou mesmo ao Café Lumière de Hou Hsiao-Hsien, naquilo que possui de pureza, de deixar a câmera fixa e permitir que ela apreenda a quase impalatabilidade dos eventos banais, o filme de Akerman tem um gesto que o diferenciaria de todos estes e dos seus próprios filmes: a proximidade, ou melhor, o atestado de sua própria morte, quase como numa carta de suicídio. “Não é mais comum que eu esteja de bom humor”, diz à própria mãe, a quem filma “para mostrar que não existem mais distâncias no mundo”. E já não interessa se sua justificativa tenha se assemelhado mais a um gracejo com a mãe. A tecnologia pode, sim, ter diminuído nossas distâncias globais: a questão é que Chantal, ou ao menos aquela que se deixou ser capturada, parece conviver perante um abismo com esse mundo.

Toda a breve aparição da cineasta no próprio filme é marcada pelos movimentos bruscos e desleixados de alguém que agora atribui pouca importância às mais pequenas ações. Para quem recebeu a notícia da morte da cineasta com choque, eis aqui a dureza de assistir seu próprio apagamento como humana. Mas se estamos falando de gestos, estes talvez não tenham sido os últimos de Chantal. Naquilo que tenta extrair da mãe durante quase o tempo inteiro, Não é um Filme Caseiro está mais próximo de um último sopro de memória. Ao agenciar a mãe em perguntas que parecem mais afirmações, ela nos deixa claro que só lhe resta lembrar. Lembrar de sua mãezinha, tão bela na juventude, lembrar da presença da guerra e do judaísmo na estruturação de sua família, lembrar dos pequenos gostos, das simples graças que a tia fazia. Ou seja: perto de sua morte decidida, voltar ao princípio. O último filme de Chantal é um de fins e inícios.