por Nuno Aymar

Estado Itinerante, curta de Ana Carolina Soares, traz a densidade própria de um cinema que está além de puros desenvolvimentos narrativos. Somos capazes de lidar abertamente não com o problema, mas sobretudo com as marcas que são deixadas. E se a grande matéria do cinema é o tempo, há no filme uma grande preocupação com a forma de demarcar essa temporalidade em sentidos óticos e sonoros que não precisam ser embasados por tramas ou reviravoltas.

Em sua primeira cena, a protagonista descobre uma mudança de itinerário, impossibilitando o retorno à casa. O quadro está focado em Vivi, ao receber a notícia sua expressão é bastante diferente, parece haver algo além da própria notícia. Ela pega seu celular e começa a ligar para alguém que nos é desconhecido, mas devido a conversa (na qual só nos é permitido escutá-la), intui-se que deva ser seu esposo ou namorado. Desta conversa sobra para Vivi o silêncio e a violência, cristalizadas no olhar perdido, amedrontado e que parece procurar algo que está fora do quadro, e realmente está. Incapaz de voltar pra casa, ela espera até seu próximo horário de trabalho. Durante seu turno (que se repete duas vezes no filme) o conflito com a figura masculina do cobrador é evidenciado, não o vemos como imagem, apenas som, contudo seu discurso invade a cena da mesma forma que invade a protagonista. É impressionante a economia de recursos que o filme proporciona, um vez que é adotada a perspectiva da protagonista – muito bem interpretada. Seu jogo formal não implica não só num protagonismo da personagem, mas em sua experiência enquanto mulher que sobretudo sente.

Uma das cenas de maior impacto do filme é quando Vivi dança em um bar junto a um personagem cuja a sexualidade não se define, a tensão se prolonga em plano-sequência onde nunca se vê este personagem de frente, ao contrário da protagonista, que durante a cena cai em lágrimas pelos seus sentimentos e angústias guardadas até então. A grande reviravolta não se dá por explosões dramatúrgicas, não é necessário. Pois não há ação de confronto: este é interno e está ligado a uma superação de estado a outro, o que torna evidentemente o nome do filme muito próprio e coeso.

Para sua conclusão, não há sugestão direta da ruptura da protagonista com seu namorado. Há todavia, uma cena fortíssima de significados e que proporciona uma síntese da forma e do discurso no filme, quando Vivi volta para seu apartamento, mas a câmera permanece em frente ao prédio num quadro quase fixo: vemos a personagem entrando, mas nada se sabe do que ocorre dentro. A câmera espera até o momento de sua volta, onde se vê ela com seus pertences. Ela saiu e nunca mais voltará.

O curta apresenta o masculino como um universo à parte, fora de campo. Se por um lado o homem é eclipsado da narrativa, ou seja, na forma do filme, algo que é externo ao corpo de Vivi, as mulheres ganham um recorte discursivo na própria forma do filme, uma revanche histórica se lembrarmos o quanto o cinema eclipsou o feminino tanto na forma quanto no discurso. Este distanciamento reflete o estranhamento que a cada segundo expõe as tensões inconstantes de uma violência que é contínua. Tal aspecto formal do filme não é inocente para o espectador, pois quando deixamos de ver o masculino, sua ausência enquanto imagem é capaz de devolver para o cinema uma mulher emancipada, cujo destino enquanto história e narrativa não se pauta mais pela agência de personagens masculinos. Se há esse elemento, ele é completamente estranho, invasor e de certa maneira desestabilizador, como na cena em que Vivi conversa com suas colegas e um grupo de motoqueiros passam pela rua para uma exibição de performances com suas motos. Não se consegue distinguir essas figuras, são objetos completamente estranhos à cena, que ao mesmo tempo provocam tensão com o som, mesmo não havendo contato direto. A relação aqui é mais sutil, pois reflete um estado psicológico da personagem.

Nos confrontamos sempre com o olhar de Vivi e não adianta virarmos o rosto, o filme é uma provocação para um universo masculino que é incapaz de assumir sua responsabilidade e olhar nos olhos de uma mulher, pois neles está a verdade que não pode ser dita. Mesmo não havendo homens em cena, aquele olho reflete para muito além do filme e reflete aqueles que o assistem.

Se o olho é a janela da alma, seria mais certo dizer que para o filme sua personagem se manifesta como um hiper espelho, uma imagem constantemente ressignificada, não por estar à deriva de algum condicionamento narrativo, mas por ser capaz de responder às forças que constantemente são metamorfoseadas ao longo do filme. Está na imagem, mas não pode ser visto. Nós como espectadores somos expostos para um série de índices deixados na Vivi, ou melhor, na imagem da protagonista. Pouco sabemos dela, nada de seu passado, seu personagem vive intensamente o fluxo do presente, e nós espectadores não precisamos de encadeamentos narrativos ou tramas para perceber que aquilo que o filme nos dá é a imagem real deste fluxo.

Estado Itinerante é a expressão dos segundos de silêncio, do choque cujo o fim é indeterminado e seu dissolver na itinerância dos corpos, ora vítimas de uma constância que os assombra, ora agraciados por emoções que os preenche em cena, o movimento aberto onde a vida reconfigura seus corpos e toda sua matéria, e o resultado disso é sobretudo o próprio ato de ser e estar no mundo.