Por Narciso Faustino Mendes

“Isto está chato, me deixe contar a história do jumento”

Pior do que uma propaganda estatal. Uma locução de Fabiana Moraes entrecortada por alguns momentos desconfortantes. O plano fluido, que por vezes tem a função de revelar uma organicidade nos relatos, também pode reformular estigmas. “Isto está chato, me deixe contar a história do jumento” é o texto que a senhorinha dona do jumento golpeado por uma pedra em sua cabeça, não consegue dizer em erros sequenciais com planos tão fluidos quanto os risos. Risos de quem? Será que os personagens de Dia de Pagamento gostaram de sua representação?

A presença de controle tão rígido da narrativa, que se assemelha a Ilha das Flores, é fruto de uma direção engessada, que pretende discursar algo pré-estabelecido com o contato das pessoas; não se deixa mudar, o processo não é transformador. Parece que o roteiro virou bíblia.

A partir de uma aproximação ao método sociológico que também se avizinha da estética de propaganda governamental, pretende-se dizer com imagens o que já está sendo gritado. Os moradores de Rio da Barra, distrito do município de Sertânia (PE), são o objeto do olhar distante de Fabiana Moraes. Enquanto pauta a situação de consumo dos moradores de Rio da Barra, os situa como produtores do lixo o qual estão mergulhados. Não quer resolver o problema, só os aponta.

A rigidez da mão da realizadora acaba que por sufocar aqueles que nunca tiveram direito de contarem suas narrativas. Os planos fluxos que parecem dar liberdade aos personagens, na verdade só os oprime.