por Kátia Macedo

Jovens são mão-de-obra em uma reforma de um apartamento. A força física é o instrumento de trabalho, durante o dia. À noite, reunidos no alto do prédio, o instrumento não é mais a marreta, mas a palavra, tão transformadora quanto cimento e tijolo. Reside na dinâmica das filmagens uma sutil dicotomia no tocante ao espaço e à iluminação. A cobertura do prédio, onde são filmadas as elucubrações, sugere a ideia de liberdade, ao mesmo tempo em que a penumbra nos quais os personagens são expostos, incita a ideia de utopia e sufocamento, já que aquelas ideias jamais serão iluminadas e, portanto, jamais desemparedadas.

Manodopera, curta-metragem grego de Loukianos Moshonas, inicia com um plano fechado, mostrando uma delimitação retangular, feita por furadeira, numa parede de apartamento; logo após, marretadas harmônicas são ritmadas, contribuindo para a construção de uma atmosfera claustrofóbica. No final há uma inversão das representações. Os personagens são filmados em silêncio, ao amanhecer, enquanto a construção é mostrada do entardecer ao anoitecer. Ambas as composições estão quase estáticas, como se caminhassem para um estado letárgico. Entretanto, essa espécie de hipérbato imagético pode sugerir dúvida ou intensificar o entendimento sobre os lugares que aqueles agentes ocupam em relação ao discurso dos quais se apropriam.

Durante o dia estão confinados, presos pelas amarras da situação caótica da Grécia. Interessante de se notar é o fato de que a situação político-econômica do país europeu não é exatamente o pano de fundo para o filme, funciona mais como moldura, como acabamento para aqueles embates. É certo que essas questões estão presentes nos diálogos dos personagens. Entretanto, a força do filme habita justamente nessa desconstrução dessa pauta de militância, e isso pode novamente ser observado na forma e no conteúdo. Os diálogos tem vida própria, criticam a situação, mas não se pretendem esgotados.

Construção, palavra, demolição, pensamento. Para não se murarem em si mesmos e se deixarem levar pelas correntezas do abstracionismo exagerado, para suportarem a própria existência e, assim, questionar e transgredir valores e dogmas, os jovens vivem na penumbra e durante o dia apenas existem, quem amanhece são eles, o prédio entardece.