por Nuno Aymar

Há uma inversão irônica do olhar ocidental. The Beast começa com uma cena cotidiana que, apesar de algumas particularidades como o sonho de um dos personagens, tem toda uma relação com a sociedade capitalista, na qual temas como trabalho, dinheiro, apostas e vida privada são diretrizes daquele cotidiano que normalmente é visto pelo mundo ocidental por uma alteridade simulada (leia-se imposta). Essa relação muitas vezes fetichista, é em vários momentos é ironizada no curta.

“Quem é você? Um leopardo que devora um hiena ou uma hiena que devora um leopardo?” Antigos provérbios são levados ao presente para a problematização de um novo momento histórico. O presente se torna a afirmação do negro, do povo africano enquanto força de ruptura, para além da tradição e que na verdade busca um lugar de ressignificação de um processo que o coloca como vítima. A falácia que apenas impõe novamente um determinado lugar e imagem desses povos é posta em crise, é a vez dos próprios personagens dizerem quem são.

A forma do filme nos oferece um olhar distanciado de um observador. O quadro é aberto e estático. Tal característica implica um lugar de subjetividade dos realizadores, que como brancos estrangeiros não se inocentam de sua identidade, e há por isso um tensionamento entre esses polos sem a fetichização documental, que normalmente se colocaria atrás da câmera como um personagem passivo. Esse tensionamento ocorre com destaque em uma cena onde o Shaka (o dançarino Zulu) conversa com sua namorada e são invadidos por flashes de câmeras que estão fora de quadro.

A encenação compõe uma série de camadas dentro e fora do filme, uma vez que seus personagens são reais. Dançarinos Zulu vivem uma vida de eterna reencenação do passado, mas o presente vive seu próprio tempo: para o personagem do Shaka há o desejo de superação dessa cultura que já não mais existe propriamente e a questão passa a ser de ele, um homem negro, resignificar o seu lugar histórico, e só no presente isso é possível. Sim, um negro pode interpretar papeis de Shakespeare além de Othelo. O negro que se diz no direito de interpretar qualquer papel de Shakespeare representa um grande ataque à tradição ocidental, trata-se de contra-invadir a cultura colonizadora e capturá-la, por isso o elemento ficcional é bem-vindo por trazer na imagem do filme essa ruptura que se transforma em ação.

The Beast tensiona imaginários numa crise que passa tanto pela imagem quanto representação de uma passado histórico que já não mais existe. A transformação cultural dos povos africanos é a realidade do presente, e o filme se propõe a colocar esse problema sem a arrogância documental, pois uma vez utilizando-se esses personagens que vem desta realidade, a imagem ganha potência do presente e se lança para o futuro.