martirio

“Martírio”, do franco-brasileiro Vincent Carelli, e “O Auge do Humano”, do argentino Eduardo Williams, foram os eleitos entre os longas. Na categoria de curtas, os prêmios principais foram para o mineiro “Estado Itinerante”, de Ana Carolina Soares, e o colombiano “Cilaos”, de Camilo Restrepo

O Janela Internacional de Cinema do Recife chega ao último dia de sua nona edição. Durante dez dias, o festival abrigou uma intensa programação com sessões de curtas e longas, lançamento de livros, mesas no 1º andar do Cine São Luiz e reuniões do Janela Crítica no Portomídia. Para o encerramento, neste domingo (06), às 14h, foi realizada a cerimônia de premiação na cobertura do Plaza Hotel (Centro do Recife).

Na competição de longas, o prêmio principal foi para “Martírio” (Brasil, 2016), do documentarista franco-brasileiro Vincent Carelli. “Por sua habilidade em reconstruir a história de um país que evita uma parte da sua própria história e que tem abusado de uma minoria desde muito tempo, após 25 anos de acúmulo de um material valioso de arquivo dos indígenas Guarani-Kaiowá, é importante para nós reconhecer a perpetuação da resistência e clamar, nos dias de hoje, por desobediência”, diz a justificativa do júri, formado por Fabienne Morris (produtora, curadora), Irandhir Santos (ator) e Paulo de Carvalho (diretor artístico do Festival Cinelatino na Alemanha).

O longa de Carelli também levou na categoria de melhor imagem pelo júri oficial do Janela, dividindo a premiação com “O Auge do Humano” (Argentina/Portugal/Brasil, 2016), de Eduardo Williams. “O júri de longa-metragem decide premiar duas diferentes imagens de dois filmes: jovens nus que se vendem, se tocam, se seduzem e se submetem a uma certa dependência tecnológica no filme ‘O Auge do Humano’. E a outra imagem, o protesto dos índios Guarani-Kaiowá, no Congresso Nacional, captada através da câmera de TV do próprio congresso. Carelli utiliza essa forte imagem preexistente que contém elementos que resumem temas presentes no decorrer do filme, como a casa do poder, a figura do político, a dança, o canto dos índios e o medo de uma suposta ameaça”.

Ainda entre os longas, o filme de Eduardo Williams foi laureado na categoria de melhor montagem. “Por nos guiar e explorar com sensibilidade diferentes países e a juventude de hoje, por sua capacidade de nos transportar num filme orgânico onde os conceitos de tempo e espaço são encarnados”, argumenta o júri sobre “O Auge do Humano”. O melhor som ficou com “O Ornitólogo” (Portugal, França e Brasil, 2016), do cineasta português João Pedro Rodrigues. “Pela utilização primorosa dos sons naturais, humanos e daqueles posteriormente criados que contribuem de forma expressiva na construção do grande mosaico humano, místico e simbólico apresentado no filme”, justifica o júri.

Para o júri especial Janela Crítica, composto por nove jovens críticos, “O Ornitólogo” também foi eleito o melhor longa do festival. O curta franco-sul-africano “The Beast” (2016), de Michael Wahrmann e Samantha Nell, saiu com a premiação de melhor curta internacional pelo júri do Janela Crítica. Pela primeira vez este ano, os textos produzidos e publicados pelo Janela Crítica foram compilados pelo realizador e crítico Felipe André Silva na Revista Barbatana (https://issuu.com/felipeandresilva/docs/untitled-1_e3668a5b998254), por meio de uma seleta de críticas de filmes que geraram boas discussões. “A revista é uma criação de Felipe e parte de uma vontade do Janela de valorizar a produção crítica que ocorre todo ano durante o festival”, afirma o coordenador de programação do IX Janela, Luís Fernando Moura.

Instituído pelo Janela em 2014, em homenagem ao amigo e crítico baiano João Sampaio, falecido em 2014, o Prêmio João Sampaio para Filmes Finíssimos que Celebram a Vida foi concedido nesta edição ao longa português “O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu”, de João Botelho, aprendiz e amigo do mestre do cinema Manoel Oliveira, com quem conviveu por 40 anos.

Curtas – Formado pela jornalista e crítica de cinema Carol Almeida, pelo produtor e curador Pedro Marum (integrante do coletivo português Rabbit Hole) e pelo jornalista Nathan Reneaud (programador do Festival International du Film Indépendant de Bordeaux, na França), o júri de curtas nacionais elegeu o mineiro “Estado Itinerante” (MG), de Ana Carolina Soares, o melhor curta nacional. O júri especial do Janela Crítica também escolheu o trabalho de Ana Carolina como o melhor curta brasileiro. Além disso, o curta foi o preferido pela Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas de Pernambuco (ABD/PE), totalizando três prêmios no festival.

“Numa história cujo tema central é a violência doméstica contra as mulheres, esse filme trabalha com uma mise-en-scène que nos conta sobre como essa violência é algo que pode ser sentido no espaço público, seja ele a rua, um ônibus ou um bar. Ao escolher representar a presença masculina ora fora do quadro ora sem rosto – presença oculta mas manifesta na forma de uma voz ou inscrita nos sons, e ao usar a própria câmera como um corpo que, gradual e afetivamente se aproxima da personagem, a libertando em um memorável plano-sequência, ‘Estado Itinerante’ consegue lidar com um assunto delicado e poderoso, usando muitas vezes o que não é visto em cena para desvelar um tipo de violência que é, historicamente, inviabilizado”, diz o comunicado do júri de curtas nacionais do Janela.

Também foram concedidos prêmios, ainda de acordo com o júri de curtas nacionais, para “Quando os dias eram eternos” (São Paulo, 2016), de Marcus Vinicius Vasconcelos (melhor som); “Na Missão, com Kadu” (Pernambuco/Minas Gerais, 2016), de Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia de Brito (melhor imagem), “Se por Acaso” (Rio de Janeiro, 2016), de Pedro Freire (melhor montagem), e “A Moça Que Dançou com o Diabo” (São Paulo, 2016), de João Paulo Miranda (menção honrosa/especial). O curta “Na Missão, com Kadu” foi agraciado, ainda, com o Prêmio Fepec (Federação Pernambucana de Cineclubes).

Na competição internacional de curtas, o júri formado por Marisa Merlo (idealizadora, diretora, programadora e produtora da Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba), pelo crítico Victor Guimarães e pela documentarista Mariana Lacerda premiou o colombiano “Cilaos” (2016), de Camilo Restrepo, como o melhor do festival. Ano passado, Restrepo já havia ganho o prêmio de melhor imagem com o curta “La impresión de una Guerra”.

Na justifica sobre “Cilaos”, o júri menciona: “por forjar um território imaginativo instigante que está na frontalidade dos olhares, na espessura dos cantos e vozes, e na materialidade das imagens”. A melhor imagem foi para “Yolo” (África do Sul/EUA, 2015), de Ben Russell; o melhor som para o grego “Manodopera” (2016), de Loukianos Moshonas; a melhor montagem para o estadunidense “Scales in the Spectrum of Space”, de Fern Silva; e, ainda, menção especial para “The Beast” (África do Sul/França), de Michael Wahrmann e Samantha Nell.

Escolhido pelo júri da ABD-PE, o prêmio oferecido pelo Portomídia, que concede 120h de estúdio para finalização de imagem e/ou som ao melhor filme pernambucano do festival, dentro ou fora de competição, foi este ano para o diretor Fábio Leal e o seu curta “O Porteiro do Dia”.

A nona edição do festival Janela Internacional de Cinema do Recife é organizada pela CinemaScópio Produções Cinematográficas e Artísticas, tem patrocínio da Petrobras e incentivo do Funcultura / Fundarpe, Secretaria de Cultura do Governo do Estado de Pernambuco.

 

Lista completa dos premiados do IX Janela Internacional de Cinema do Recife

MOSTRA COMPETITIVA DE LONGAS-METRAGENS:

Melhor Longa: “Martírio” (Brasil), de Vincent Carelli

Melhor Montagem: “O Auge do Humano” (Argentina/Portugal/Brasil), de Eduardo Williams

Melhor Som: “O Ornitólogo” (Portugal/França/Brasil), de João Pedro Rodrigues

Melhor Imagem: prêmio dividido entre “O Auge do Humano” (Argentina/Portugal/Brasil), de Eduardo Williams e “Martírio” (Brasil), de Vincent Carelli

 

MOSTRA COMPETITIVA DE CURTA-METRAGEM INTERNACIONAL:

Melhor curta internacional: “Cilaos” (Colômbia), de Camilo Restrepo

Melhor Imagem: “Yolo” (África do Sul/EUA), de Ben Russell

Melhor Som: “Manodopera” (Grécia), de Loukianos Moshonas

Melhor Montagem: “Scales in the Spectrum of Space” (EUA), de Fern Silva

Menção especial: “The Beast” (África do Sul/França), de Michael Wahrmann e Samantha Nell

 

MOSTRA COMPETITIVA DE CURTA-METRAGEM NACIONAL:

Melhor curta nacional: “Estado Itinerante” (MG), de Ana Carolina Soares

Melhor imagem: “Na Missão, com Kadu” (PE/MG), de Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia de Brito

Melhor montagem: “Se por Acaso” (RJ), de Pedro Freire

Melhor Som: “Quando os dias eram eternos” (SP), de Marcus Vinicius Vasconcelos

Menção Honrosa/Especial do Júri: “A Moça Que Dançou com o Diabo” (SP), de João Paulo Miranda

 

PRÊMIO JANELA CRÍTICA:

Melhor curta nacional: “Estado Itinerante” (MG), de Ana Carolina Soares

Melhor curta internacional: “The Beast” (África do Sul/França), de Michael Wahrmann e Samantha Nell

Melhor Longa: “O Ornitólogo” (Portugal/França/Brasil), de João Pedro Rodrigues

 

PRÊMIO ABD (Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas de Pernambuco – ABD/PE):

“Estado Itinerante” (MG), de Ana Carolina Soares

 

PRÊMIO OFERECIDO PELO PORTOMÍDIA (120h de estúdio para finalização de imagem e/ou som concedido para o melhor filme pernambucano do festival):

“O Porteiro do Dia” (PE), de Fábio Leal

 

PRÊMIO FEPEC (Federação Pernambucana de Cineclubes)

Curta “Na Missão, com Kadu” (PE/MG), de Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia de Brito

 

PRÊMIO JOÃO SAMPAIO PARA FILMES FINÍSSIMOS QUE CELEBRAM A VIDA

“O Cinema, Manoel de Oliveira e eu” (Portugal), de João Botelho