JÁ PODEM DESATAR OS NÓS

O Janela, como todo organismo, tem suas normas e convenções. Mas como em todo exercício de curadoria, as leis de um festival de cinema são feitas, de empréstimo, pelas imagens, ano a ano. É como um nó atrás do outro, numa rede de nós mais ou menos cegos: o festival enlaça um filme, que enlaça o próprio festival, que enlaça outros filmes, o festival que já fizemos e o que faremos no ano que vem. E aí os filmes vão dando nós com a história, com o presente, com a cidade e com aquilo que faz suas experiências.

A inspiração de uma curadoria é justo a de distribuir pistas para um infiltrado, talvez rebelde, ir desatando tudo, ir desfiando a cena montada na sequência de filmes. É só quando os filmes chegam até o público de um festival, como um conjunto de prescrições, que o segredo por trás da teia começa a ser revelado, como num jogo que só faz sentido porque jogado, e que deseja também ele jogar. É preciso seguir as pistas. E é porque os nós que os filmes atam com o festival já vieram enlaçados ao sórdido estado das coisas que este jogo de tecelagem já vai se desamarrando ansioso, implorando para ser descoberto. Os nós com um misterioso Brasil que se insinua, com os vícios de um tempo dos opressores que parece virar mais e mais status quo. Precisam ser arrancados à força. Desfeitos com pressa, com eloquência, com barulho.

Não é à toa que batizamos as pistas do Janela 9 com o tema-conceito de desobediência. A palavra indica um caminho (entre tantos, inumeráveis) para trilhar nossa nobre faixa Clássicos do Janela. Se ano passado nossos filmes miravam o horizonte confusos com as estradas futuras, este ano eles vêm povoar nossos cinemas com certeza de insurgência. Hair, alegoria popular celebradora da transgressão. Eles vivem, hipérbole-constatação de um mundo de poderosos que vieram para dominar o planeta, feita para vibrarmos juntos como subversivos. Se atirar da escada, por teimosia, em O tambor. Dar um golpe no patrão em O criado.

Não é tão simples como pode parecer, e o elogio à desobediência põe em suspeita nossas próprias regras – como espectadores, como festivais. É preciso autocrítica, é preciso desconfiança tanto quanto segurança: diante dos assaltantes a banco feito anti-heróis em Um dia de cão, do policial feito ciborgue em Robocop, do outsider histórico em Memórias do subdesenvolvimento, exibido no Janela em cópia recém-restaurada e reestreada em Cannes último. Diante do mentiroso Pinóquio, que sabe o que quer. Diante desse 35mm redescoberto no Festival de Berlim e encontrado na Cinemateca Alemã: 1 Berlin-Harlem é, desde já, um problema feito filme, profunda experiência de maldição iconoclasta e anárquica. É um testemunho sobre a inquietude – das imagens, das vidas e do bom gosto – , vindo do passado para atrapalhar o presente com brilho nos olhos. Poucas vezes exibimos um filme tão errado.

Precisávamos, claro, de um tema-conceito de artigo feminino. Num ano como 2016, diante de reações dos machos, surge um impulso incontido de desobedecer alto e forte às violências contra estes corpos e sujeitos outros. Enquanto a costureira de Sedução e vingança leva a cabo a derrocada dos homens, Liliana Cavani ressurge com esta luxuriosa estratégia de desconcerto que é O porteiro da noite. Uma sede de ser corpo de desejo transborda e inunda a grade de programação, como um trançado mais ou menos visível feito por meio de gestos de mulheres.

Assombrosa, Isabelle Huppert encarna corpo inadequado em dupla matiz: na sensação Cannes Elle, é a nova anti-heroína de Paul Verhoeven. Também inquieta, mas de alma mais agridoce, no bonito O que está por vir de Mia Hansen-Love, premiada melhor diretora em Berlim. As mulheres fazem perguntas. A garota de Wild, première brasileira, responde ela mesma via negação de uma sociedade de normais, sob revigorante iluminação pop. Veremos cenas de violência, é verdade. Mas veremos mulheres se reafirmarem no mundo – por meio da doçura e da crença no trânsito e no encontro, como em A cidade onde envelheço, ou da bravura direta e instrumental de Câmara de espelhos. Tantos curtas marcam territórios, que boa surpresa: Dia de pagamento, Balada de um batráquio, Estado itinerante, Heterônimo. Estás vendo coisas.

É preciso descobrir Martírio. É mesmo preciso ver coisas, redirecionar a visão e, vindo de Lisboa, o coletivo Rabbit Hole corrompe as telas do festival com corpos não normativos em um instigante acontecimento de pedagogia queer do olhar, via intercâmbio entre formas de cinema, artes visuais e cultura pop. É preciso redirecionar olhar e corpo do Recife até a beira-mar de Olinda e ver o que acontece agora mesmo nas instalações do mítico cinema de rua em centro olindense, fechado há 50 anos. Ficamos orgulhosos de poder conversar intimamente com o movimento Ocupe Cine Olinda, que chega ao Janela 9 como grupo parceiro e apresenta programação de filmes na ocupação. Recomendamos fortemente visita e frequência, e endossamos o desejo de que o Cine Olinda viva. Mais uma vez, nossos amigos curadores nos guiam por outras visões, seguimos a viagem. O Cineclube Toca o Terror, que faz sessão de assombro na Noite das Bruxas. O Cachaça Cinema Clube, que tem trazido longas brasileiros a se redescobrir em ambiente coletivo. O Janela 9 tem um festival correndo à parte, soltando faíscas no resto da programação: em nova e preciosa parceria com o British Council, 400 anos de Shakespeare ressurgem em algumas das mais fantásticas adaptações dos textos do autor para o cinema. O Cinema São Luiz é um portal no tempo em potencial e terá real remake da Sessão Bossa Jovem com o Romeu de Julieta de Zeffirelli, exibido na mesma faixa matinal quando alguns de nós não tínhamos nascido. Polanski volta ao Janela com seu Macbeth. Filmes curtos da virada do século 20, restaurados no Reino Unido, ganham sessão com música ao vivo do RUMOR, projeto pernambucano de arte sonora. Vai ser bonito. O Sofilm Summercamp, festival amigo em Nantes, França, nos empresta ideia e material para um cine-karaokê, com cenas recuperadas em ambiente para cantar. Vai ser curiosa véspera de feriado.

Francamente orgulhosos com esta constelação de nós, convidamos todos para, mais uma vez, se debruçar não só sobre o palco, mas sobre as bordas do Janela. Esmiuçar trançado e linhas. Convidamos para ver João Botelho, que vem de Portugal ao Recife, apresentar seu filme-homenagem a Manoel de Oliveira. Para ver Jim Jarmusch, Maren Ade e Eryk Rocha, mas quem sabe investigar Lucas Ferraço Nassif, Leon Sampaio e Miguel Antunes Ramos. Os curtas de Lola Quivoron, Ben Russell, Gabriel Abrantes, Camilo Restrepo, Filipe Marcena, Rodrigo de Oliveira. O lindo Solon, de Clarissa Campolina. Que venham, claro, habitar o palco, que é uma estrada. Quisemos deixar o início da via bem claro, livre para circular sem dúvida, e resolvemos trazer esta peça vermelha de Ken Loach para a sessão de abertura, ao lado da bonita crônica sobre deslocamento e convicção que é o premiado filme de Fellipe Fernandes, O delírio é a redenção dos aflitos. É feliz que a Abbracine, parceira, tenha nos procurado para exibir Eles não usam black-tie. O filme de Leon Hirszman nos parece justamente seminal para inspirar o primeiro de todos os respiros.

Muito obrigado a todos os aventureiros que ajudam a desmontar o Janela. E obrigado, finalmente, àqueles que nos ajudam a montá-lo. A Petrobras, parceira inestimável. O Funcultura, do Governo de Pernambuco, que nos incentiva pela nona vez. O Janela é uma máquina feita com as mãos de muita gente, alguns sequer percebem. Que seja também desfeita e refeita livremente, sem timidez, por aqueles que nos acompanham, e que seja assim um espaço permanente de trocas, de grandes sessões e de histórias duradouras. Que prazer que é receber no Janela Lucrecia Martel, já podemos começar a aprender.

Luis Fernando Moura – Coordenador de Programação

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