por Anthony Ribeiro

O Janela Internacional de Cinema, este ano, resolveu abraçar a temática da negritude. Não somente exibindo a mostra L.A. Rebellion, mas também em diversos filmes presentes nas sessões de curtas e longas. É importantíssimo apontar, no entanto, a predominância de obras em que a representação preta é retratada sob o olhar de realizadores brancos, obedecendo quase sempre às mesmas estratégias de representação. Além de um problema sério de representatividade – uma vez que se utiliza da imagem dos pretos, mas não lhes dá visibilidade de discurso ou oportunidade de ganhar dinheiro a partir disso – vários destes filmes revelam-se totalmente insensíveis à imagem da negra e do negro, um sintoma comum de quando se fala sobre o que não se vive. Açúcar é um destes filmes: apoiado na perspectiva histórica da decadência da indústria da cana-de-açúcar e de sua relação perpétua com a escravidão moderna. O enredo parece não se importar em utilizar o estranhamento do público pelas religiões de matriz africana para promover um entretenimento vazio. A impressão que dá é a de que os pretos estão sempre sendo observados pelos olhos da patroa branca, a uma confortável distância, são vistos a dançar, a praticar ritos religiosos, mas nunca lhes é dado espaço para romper a aura de exotismo que é construída a sua volta. Tratando-se de uma audiência altamente embranquecida e elitizada como a do Janela e dos festivais de cinema em geral, é quase automático perceber como essa aversão à cultura de matriz africana é facilmente transformada em espetacularização.

Dirigida por Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, a diegese parte do ponto em que Bethania (Maeve Jinkings) retorna ao engenho onde nasceu para impedir que os trabalhadores que lá permaneceram tomem conta da terra. A partir daí, uma aura de tensão se estabelece entre a personagem principal – aburguesada e apegada ao seu lugar de privilégio – e os seus vizinhos pretos, que pertencem a uma associação e propõem comprar as terras da primeira. É no contato entre essas duas realidades que a história se baseia para engatilhar o conturbado conflito interno de Bethania à medida em que se torna inevitável negar a sua ascendência africana. Ao assumir a perspectiva desta personagem como ponto de partida para nortear a narrativa, Açúcar acaba caindo no repetido erro de perpetuar a visão da Casa Grande sobre a Senzala. As personagens negras da história, cruelmente observadas a partir deste olhar colonizador, têm os seus corpos e personalidades banalizados, reduzidos a caricaturas ridiculamente mistificadas. Em um certo ponto da história, enquanto conserta uma lâmpada da casa, Zé (José Maria Alves), personagem preto que parece colocado para atiçar o fetiche das mulheres brancas, tem a sua bunda delineada por uma câmera que, de perto, acompanha Bethania percorrer o seu corpo vagarosamente com a luz de uma lanterna. Em nenhum momento da trama há um contraponto a esta lógica objetificadora, e este personagem segue sendo significado a partir do fetiche.

A inserção da religião de matriz africana no contexto do filme se dá sempre sob o manto do obscurantismo. As danças e ritos próprios de matriz africana são, em diversos momentos, encenados de forma irresponsável e estereotipada, relegando a prática à esfera do esotérico. Em uma das cenas iniciais, a personagem de Maeve observa escondida o que seria um ritual africano. A silhueta de Alessandra (Dandara de Morais) dança no centro da roda, em meio ao fogo, embalada pelo som de tambores, enquanto a observadora – literalmente – se mija de medo. Em uma das sequências mais importantes do filme, uma discussão acalorada sobre as origens de Bethania termina num constrangedor episódio de incorporação que parece ter sido colocado para reforçar o descontrole quase animalesco que a personagem de Dandara teria em relação a sua própria espiritualidade. O discurso de demonização da cultura africana mostra-se ainda mais latente nas sequências em que uma aparição fantasmagórica à la O Exorcista (William Fiedkin, 1973) contorce-se ao redor do engenho, assombrando a personagem principal. A construção dessa atmosfera é repetida diversas vezes ao retratar a personagem Alessandra, estabelecendo uma relação de paralelismo incômoda entre os ritos de matriz africana e uma imagem impregnada pela ideia de maligno. Claramente perdido em suas próprias referências, Açúcar em nada renova o papel historicamente delegado à pessoa preta – pelo contrário, a obra parece retroceder aos primórdios do discurso colonialista que, por sua vez, relaciona a negritude diretamente a símbolos representativos da bruxaria, da maldição e da bestialidade.

É bastante sintomático ver o Cinema São Luiz inteiro irromper em aplausos ao fim de Açúcar. No entanto, não é impressionante. Observar a insensibilidade do público de elite dos circuitos de festivais ao final da sessão é também constatar que este é um filme feito por pessoas brancas para entreter pessoas brancas às custas da apropriação da imagem e da cultura negra – uma reutilização da opressão histórica. Ao tentar simploriamente fabular referências e dores que não são suas, a direção acabou concebendo exatamente aquilo que pensava ser capaz de denunciar. Num momento histórico onde a representação da africanidade é impulsionada não só no cinema, mas no campo das artes em geral, este não foi o primeiro e nem será o último filme a jogar no lixo a importância da representatividade para se beneficiar da audiência. Apesar de tudo, no entanto, considerando a cor da produção e essa tendência a se aproveitar de pautas sociais marginalizadas para o próprio lucro, Açúcar e o Janela de Cinema até que combinam muito bem.