por Matheus Araujo dos Santos

A experiência da injúria é um dos modos pelos quais nos damos conta de nós mesmos. Por mais violenta que seja, ela pode nos levar a movimentos de posse e retomada das nossas vidas. As imagens de Pele Suja, Minha Carne, primeiro filme de Bruno Ribeiro, levam-nos diretamente a esta questão.

No curta-metragem acompanhamos João, jovem preto imerso em um mundo branco. Na escola ou no campo de futebol, logo nos damos conta de que ele é o único personagem negro na história que assistimos. Enquanto seus amigos se divertem após o jogo, a câmera nos aproxima do seu corpo, quase tocando a suas costas quando ele, sozinho, olha para os colegas que gargalham distantes. O filme trata em grande parte desta solidão.

Na sequência seguinte, quando chega em casa, ele ensaboa o corpo insistentemente como quem busca se livrar de uma sujeira que não lhe abandona. A pele retinta é coberta pela espuma branca que se propaga pelo seu corpo para logo escorrer pelo ralo com o fluxo da água. Por mais que esteja imerso na branquitude, João não é um deles; sua pele negra resiste à máscara branca.

Embora a tensão racial se apresente imageticamente, durante a maior parte do filme ela parece não chegar ao discurso verbal. João é tolerado pelos colegas e amigos que o tratam como se entre eles não houvesse diferença alguma. Mas ele sabe que não está em território seguro. E nós, como espectadorxs, estamos com ele e sabemos (ou deveríamos saber) que a qualquer momento o teatro da democracia racial pode deixar de ser encenado e o racismo se apresente de maneira mais explícita.

Enquanto estes aspectos são evidenciados no decorrer da história, uma outra tensão se arma. A maioria dos planos nos apresenta exclusivamente corpos masculinos e muitas das cenas trazem à tona esses ambientes monossexuais onde há uma densa dimensão erótica; como as partidas de futebol e suas expressões de virilidade coletiva ou nos momentos em que João está com seu melhor amigo jogando videogame em casa.

É justamente quando estão disputando a bola que João dá o passo decisivo tentando beijar o colega, que reage com repulsa se afastando dele. O gesto radical de João põe em jogo não apenas a sua sexualidade, mas também sua raça. A sua pseudo-inserção no mundo branco vai por água a baixo quando seu desejo aparece na cena.

A esta altura o filme já se aproxima do fim. João volta à escola e o vemos novamente de costas, como em muitos planos anteriores. A insistência de mostrá-lo deste ponto de vista nos aponta para uma espécie de vulnerabilidade, que se materializa quando um colega que não vemos joga nele uma bola de papel. A cena é cortada e vamos para o último plano, quando em frente ao espelho embaçado ele escreve em letras maiúsculas “PRETO VIADO”.

À medida em que seu dedo desenha estas palavras, vai retirando também o vapor que impede o seu reflexo nítido no espelho. Em seu último gesto João toma para si as palavras de injúria, toma posse de sua carne. Torna-se “viado-e-preto”, por assim dizer, e coloca-se em uma posição onde a assimilação não é mais possível. A violência da nominação pelo outro é revertida na escrita de si mesmo.

Um dos grandes méritos de Pele Suja, Minha Carne é evidenciar em suas imagens os mecanismos de opressão que agem a partir do cruzamento dos marcadores sociais da diferença, operando através da sexualização da raça ou da racialização do sexo. Após assistir ao filme, as imagens que resistem em nosso corpo nos fazem pensar em como este cruzamento acaba apontando também para possibilidades de coalizão. O lugar da injúria é então subvertido em um espaço de encontros e possibilidades de alianças políticas, afetivas e sexuais.