por Vitória Liz

Terça-feira.

Rua da Aurora.

Olho aflita pela janela. Já passou das cinco. Estou dentro do horário, mas ainda não almocei e não posso perder a sessão.

O carro está na faixa do meio e eu quero descer na calçada do cinema.

Olho aflita pela janela.

A criança do outro lado da rua me dá pausa. Duvido que tenha mais de dez anos. É o único do grupo que está em pé. Sem camisa, posso ver sua barriguinha pronunciada, mas seu corpo magrinho e minguado.

Não consigo desviar os olhos.

O motorista logo os vê, também. O trânsito que não anda oferece a oportunidade. “Vidão, né? Ficam aí o dia inteiro, cheirando cola, em vez de trabalhar. Essa criança podia estar na escola.”

Dentro do carro, fazendo uma viagem que vai ser debitada no cartão de minha mãe lá em São Paulo, indo para o São Luís assistir os curtas dás 17h50, eu vejo o menino levar a garrafa junto ao rosto.

Quando eu era criança, eu tinha um medo irracional de filmes de terror, e se tivesse sequer um vislumbre da chamada da Globo para o filme de segunda a noite, tinha dificuldade para dormir por semanas. Do que aquele menino tem medo?

Vidão.

Minhas mão se curvam na bolsa que tenho no colo, e eu respiro devagar. Olho para o outro lado – aflita de novo. Pior. Não me escapa a ironia. Olho para o outro lado porque posso. Não respondo porque não consigo. O silêncio no carro é confuso.

Quando desço, esqueço da pressa.

O meu choque é caprichoso. O meu choque denuncia o meu privilégio. O meu choque é a dessensibilização – que não venceu ainda.

*

A sala já esta escura e todo mundo já está sentado quando eu entro, mas o primeiro curta ainda não começou. Não tem espaço na fileira dos meus amigos. Sento atrás. Encosto no ombro de Ray, pra mostrar que estou ali. O senhor ha duas cadeiras de mim não para de cochichar. Me concentro no ambiente. O zumbido na minha cabeça se confunde.

*

Filme de Rua (é o terceiro filme do programa). A atmosfera quebra. Que filme é esse? É filme mesmo? Outros sons na platéia além do senhorzinho cochilhão. Não dá pra ver de quem vem, mas faço a ligação. São sons felizes. Alguém se viu na tela. Ninguém pede para eles ficarem quietos, com o shiiiiiu que já fizeram pro tal senhor. Me pergunto da onde é o sotaque do pessoal do filme, o quão longe eles viajaram pra chegar aqui. Alguém se viu na tela do São Luís. Alguém preto e pobre. Fico feliz.

*

As pessoas que vão pra frente do platéia não são as mesmas do Filme de Rua. São de rua, logo ali do outro lado. Rayane olha pra trás, uma vez, apreensiva, pra ver se estou ali. Você está vendo isso também? Não reconheço o menino que vi mais cedo, não consigo exerga-lo, mas vejo a mulher que estava ha alguns passos dele. Os microfones passam de mão em mão. Quando chega na mão dela, admite o nome feminino mas prefere Gabriel. Ele fala sobre a resistência em estar dentro do São Luís. Existem duas. Ele fala sobre cheirar cola. A dificuldade na vida da rua. Ele fala sobre fazer um filme também. Fala. Fala? Mais alguém ouviu?

(“Como ela é articulada.”)

Com as luzes acesas, uma moça trançada lembra que eles dividem o mesmo espaço que a gente todos os dias. Tem um universo entre uma calçada e outra mas ninguém ali é alienígena, exótico. Com as luzes acesas, dá pra ver todas as caretas que rejeitam a fala dela. Um senhorzinho ao meu lado grava tudo, mas já não sei se é o que cochichava ou se é o que mandava o que cochichava ficar quieto. Não acho que alguém já tenha tirado o celular do bolso na frente de alguma dessas crianças de rua, na rua, com tanto entusiasmo antes. A fala da moça cutuca. São as mesmas crianças que fazem você apertar o passo, essas que se reconheceram no filme.

A sala não esvazia rápido, mas meus amigos são uns dos primeiros a sair. Faço o caminho inverso, meio incerta nos joelhos. Me seguro em pé abraçando todo mundo que chega perto o bastante. Bárbara, quem eu acompanho, conversa com Gabriel. Ha alguns passos de nós, flashes de câmeras. Rostos famosos pedindo foto com os rostos anônimos. (Será que já viram Aquarius?) Olha que coisa bonita que aconteceu no São Luís hoje! Hashtag Janela de Cinema.

*

Foi bonito?

*

Durante a primeira metade do festival, observei meus amigos na porta do São Luís no mais diversos estados. Se abraçando, sempre, sorriso cobrindo o rosto ou limpando lágrimas sorrateiramente. As mãos estão nas cinturas, nessa terça-feira. Olhos vermelhos, e confusos. Anthony fala rápido e baixo, furioso. Eu não sei, responde Bia, e nem é para ele, talvez para ninguém em particular, mas que acabei de chegar sei qual pergunta ela responde. O que aconteceu aqui? Também não sei.

*

Quarta-feira.

Rua da Aurora.

Olho pela janela. Estou no horário, e já almocei, mas sou ansiosa. Priscila, que divide comigo o Uber, também.

O carro está na faixa do meio e queremos descer na calçada do cinema.

Olho pela janela.

O grupo de pessoas de rua está um pouco mais longe da entrada do cinema hoje, mas não acho particularmente sintomático de nada muito mais grave do que já é autoexplicatório. Acontece que ontem eles estavam dentro do São Luís, e hoje eles estão passando a ponte de ferro. Dá pra fazer um texto só com esse argumento.

Não desvio os olhos, mas o trânsito anda.

Nem o motorista, nem Priscila tem a oportunidade os verem dessa vez.

*

Quando vejo que estão gravando o debate sobre o L.A. Rebellion, me pergunto o que será feito com os vídeos feito na noite anterior. Foram passados para o computador imeaditamente ou vão viver no celular até que espaço precise ser feito, excluídos ali mesmo ou transferidos para um cartão de memória. Alguém vai rever aquilo? Upar na YouTube?

Me pergunto se alguém já deu play no vídeo desde então, se alguma percepção mudou no dia seguinte, se a luz natural escureceu melhor as coisas. O vitrô do São Luís é deslumbrante. As luzes de entrada são vintage. A mágica do cinema e o cinema mágico.

Durante o debate, olho para trás e observo pessoas arriscando a vida para vender aguá e limpar vidros de carro enquanto escuto o cinema preto ser discutido numa roda sem mulheres pretas com autoridade. Sentar à janela é desconfortável, mas desconfortável é a norma. Entendo a importância de estar lá, eu tenho que estar lá, mas o glamour de ocupar esse espaço derrete debaixo do sol quente que eu evitei, dissolve no bafo quente que senta junto a gente e com as luzes apagadas não tem graça, não tem graça.

Não fiz vídeo algum na noite anterior, mas a cena toda fica rodando na minha cabeça, em replay, que nem os filmes de terror que me aterrorizavam quando eu era criança.