Por Lucas Reis

O cinema de Lucrécia Martel é demasiado grande. Este ano, a autora lança Zama, apenas seu quarto longa, mas já é digna de uma retrospectiva no X Janela Internacional de Cinema, além de uma ter feito uma palestra no mesmo festival, destacando alguns princípios de seu trabalho cinematográfico. À época, já havia uma enorme expectativa por A Menina Santa, por conta do sucesso de O Pântano (2001) no circuito de festivais e da produção de Pedro Almodóvar que havia se encantado com o primeiro longa de Martel.

As expectativas foram cumpridas e a recepção de A Menina Santa fora positiva por grande parte da crítica e do público. Muito se falou que o filme abria leituras para diversas interpretações, mas chama a atenção a discussão de A Menina Santa na época, ser centrada em uma análise teológica. Faz muito sentido, afinal de contas, desde o título do filme, chama-se a atenção para essa relação celestial. O próprio início imerge o espectador em um coral de meninas cantando uma música religiosa na escola.

No entanto, há uma chave de leitura, a partir da luta de classes que parece que foi pouco explorada quinze anos atrás. É um pouco por aí que pretendo me ater. A Argentina é um país com uma população considerável de pessoas com ascendência indígena. Estes, porém, fazem parte da classe trabalhadora e explorada devido a um processo histórico violento. Caso lembremos da ascensão do “Nuevo Cine argentino” (do qual Martel faz parte), no início do século XXI, é difícil resgatar um filme com protagonistas de traços indígenas ou diretores que apresentassem características dos povos nativos da América.

Lucrécia Martel entende esse panorama e insere esses personagens em seu filme. São os únicos que aparecem vendendo a força de trabalho em profissões que, historicamente, não são dignas de grandes salários.  É necessário, entretanto, entender que o cinema de Martel utiliza o extracampo para ampliar a relação com o mundo. A princípio, qualquer filme amplia seu foco de ação no extracampo, a imagem, supostamente, se prolonga ao infinito. O que acontece em A Menina Santa, então, é que a possibilidade de pensar o mundo para além do que a câmera registra objetivamente cria uma separação importante narrativamente. Tal cisão é, essencialmente social.

O filme se passa quase inteiramente em um hotel. Lá vivem Amália – a “menina santa” do título – e sua mãe, Helena, que gerencia o espaço. Entretanto, também vive Mirta, uma espécie de governanta. Enquanto há uma narrativa em primeiro plano das relações entre Helena, Amália e o médico Jano, que está hospedado no mesmo hotel, pois lá está acontecendo um congresso de otorrinolaringologistas, Mirta fica quase invisível na narrativa. Em dado momento, em uma conversa com a patroa, a empregada está de costas e a câmera foca em Helena. Não há o imaginado contracampo, a figura de Mirta, quando surge em quadro, é relegada a ficar de costas. Muitas das vezes, mencionam Mirta, mas a empregada está distante, em seus afazeres, como se fizesse parte e, ao mesmo tempo, não fizesse parte do mesmo mundo dos hóspedes e gerentes do hotel.

Martel é hábil para dar uma imagem densa para Mirta em pílulas. É uma mulher dura: a todo momento exige que sua filha, que também trabalha no hotel como empregada, enxugue os olhos e que vá trabalhar na cozinha, mesmo ela sendo massoterapeura. É cínica: quando Helena lhe pede uma refeição dizendo que gostaria de algo leve e feito na hora, Mirta retruca que é melhor que se peça em outro hotel então. Apesar de se impor em alguns momentos, ela nunca escapa da condição servil que a acompanha por gerações e, provavelmente, não irá mudar (a filha de Helena tem uma segurança financeira em seu futuro, ao contrário da filha de Mirta).

Outros empregados também fazem parte do microcosmo composto por Lucrécia Martel em A Menina Santa. E, todos eles, também têm seus corpos circunscritos por áreas em que podem circular. A piscina do hotel, por exemplo, que aparece constantemente no filme, só pode ser usufruída por um grupo de pessoas, dos quais os empregados não fazem parte. A limpeza, contudo, fica por conta desses mesmos empregados e eles sempre surgem em segundo plano, limpando, enquanto um jogo cretino de desejos escusos, mentiras e pedofilia são temáticas das pessoas brancas que estão em primeiro plano. Não há direito de fala para os empregados, mas há um “spray” que não os deixa se contaminar pela sujeira que encobre a classe média e classe média alta argentinas. Pensar esse recorte em A Menina Santa é algo incomum, claro, outras chaves de leitura possíveis para o filme e, talvez, até mais explícitas na narrativa, foram feitas à época do lançamento. O cinema de Lucrécia Martel, porém, pede para escavarmos todos os momentos, reconsiderar nossas primeiras visões e percebermos que há muito mais em jogo do que se aparenta. O cinema de Martel, com certeza, é demasiado grande.