Por Antônio Souza

Ver o primeiro plano de O Olho e O Espírito (2017), na tela do cinema São Luiz, me deu um arrepio. Acompanhar a mirada da câmera Super 8 que parte de uma imensidão-nada-mar para uma paisagem que é a cara e cartão-postal do Recife contemporâneo, com aquela trilha ruidosa, é, no mínimo, hipnotizante. A sequência seguinte, de imagens das pontes, do tráfego, de partes do centro e do Recife Antigo me parece confusa e irônica. O Recife de O Olho… me parece uma moderna cidade futurista dos anos 1920. Curioso, como morador nascido em terras recifenses, estranhar e ao mesmo tempo reconhecer a cidade em que vivo ali naquela superfície anacronicamente granulada. Apesar da trilha e da montagem que instauram um certo desconforto próprio dessa velha cidade de arranha-céus, em constante crescimento vertical, vejo todas as imagens como vindas de uma construção afetiva. Recife é uma cidade estranha e o Olho… é sensível a isso.  Então, como essas imagens se constroem pra você e como elas renascem em Super 8? De onde vem essa ideia de enxergar essa superfície-espírito de Recife?

Amanda Beça: Pra responder tua primeira pergunta, preciso contextualizar o momento em que eu estava quando decidi fazer um filme em película: em 2011, o Janela ofereceu uma oficina de revelação de película 16mm com os artistas brasileiros Melissa Dullius e Gustavo Jahn. Desmistificar o uso do filme e, ainda por cima, aprender as técnicas para sua revelação foi fascinante. Foi como se todo um submundo de uma plataforma que estava cada vez mais tida como morta, depois da chegada do digital, se abrisse diante dos meus olhos. Quatro anos depois, eu precisava decidir meu projeto de conclusão no curso de Cinema da UFPE e tive a ideia de retomar os estudos em revelação que foram iniciados naquela oficina, mas que não avançaram depois dela. Apesar de minha maior instiga ser a revelação em si, eu queria fazer do resultado um curta-metragem que eu pudesse depois aproveitar como um primeiro filme, uma primeira obra. E aí me vi num dilema… por que fazer filme em película num cenário já totalmente digital? Fiquei ruminando a ideia do curta em cima dessa pergunta, afinal eu não queria cair num fetichismo gratuito da imagem pela imagem…

Ao mesmo tempo, estávamos (e ainda estamos) num momento em que discutir o nosso modelo de cidade se mostrava urgente para a classe média. A forma que Recife, e demais cidades do Brasil e do mundo, ainda encaminha seu desenvolvimento pautado em ideais caducos-racistas de modernidade e de futuro está enfim nos atingindo, asfixiando nosso modo de vida. Esse tema é inclusive muito bem representado na maioria dos filmes que saíram de Recife e que consolidam a grife do Cinema Pernambucano. De qualquer modo, foi determinante para mim entender que a legitimidade da luta pela cidade que desejamos só é possível para nós brancos da classe-média (-alta)… e que tememos, por exemplo, pela demolição de um Caiçara, dos armazéns de açúcar do Cais José Estelita ou de casas antigas principalmente por serem monumentos de nossa história branca burguesa, sustentada por racismo e violação de direitos humanos que hoje tanto nos horroriza, mas por qual nutrimos imenso afeto.

Meu filme não é exatamente sobre isso, mas parte desse entendimento para então provocar através de uma estética obsoleta a seguinte sensação-fabulação: e se daqui a 200 anos, serão esses arranha-céus, esses shoppings, hoje tão asfixiantes para nós, que a futura população irá defender a unhas e dentes contra alguma ameaça? Eles já fazem parte da nossa vida, irão fazer da nossa memória afetiva e, muito provalvemente, da História que se sobressairá. Como lidar com isso? E sinto que o que esse filme faz é teletransportar o espectador para esse 200 anos depois. Essa sensação de que viajamos para uma época por vir não está no conteúdo do filme, está na estética, na apropriação da “aparência” dos filmes do primeiro cinema. Cinema este que, inclusive, documentava a modernidade dos anos 10, 20 com um fascínio evidente. Também estamos nos anos 10, rumo aos 20… Cem anos depois, será que esse fascínio (do qual chamo atenção com o uso de uma personagem flaneur, identidade inventada também naquela época) faz sentido nos dias de hoje? Se na verdade estamos ressacados, qual a solução? Será que ela sequer existe…? E se existe, será que vamos querer abrir mão justamente das comodidades que este modo de vida nos oferece?

Falando em Recife e em estranhezas, estranho é também ver teu filme entre os demais curtas desta edição do Janela. Como você mesma comentou comigo na premiação, teu filme é um alienígena (no melhor dos sentidos de ser extraterrestre) no meio da programação. Me impressiona a sagacidade dos programadores conseguirem colocá-lo num programa lado a lado de curtas como A barca do Sol (2017), de Leonardo Amaral, um filme sobre adolescência, e do problemático Filme de Rua (2017), de Joanna Ladeira, Paula Kimo, Zi Reis, Ed Marte, Guilherme Fernandes e Daniel Carneiro. Como anunciado, o X Janela Internacional de Cinema foi a premiere de O Olho…. Como cineasta, academicamente cineasta, formada em Cinema e Audiovisual (UFPE), como você vislumbra a trajetória de O Olho… , enquanto filme, frente às produções hegemônicas que vemos nos festivais de cinema? E como você o vislumbra enquanto vídeo para o mundo das artes visuais? Para mim é uma grande estreia como artista visual, para além de cineasta.

AB: Sim, acredito que ele seja um alien na programação do Janela e que provavelmente também o será em demais festivais, se vier a ser selecionado. Estamos em tempos de crise, em que nos sentimos imóveis quanto ao que fazer, e também num momento em que minorias têm ocupado cada vez mais o espaço cinematográfico. O que é muito ótimo. Daí há filmes incríveis sendo feitos com narrativas que abordam as mais distintas problemáticas que atravessam essas subjetividades, e sempre trazem um debate bacana pra se ter em seguida. Os festivais de maneira geral têm se ligado na importância disso e estão cada vez mais pensando a programação para abarcar esses movimentos. E aí tem meu filme… que não necessariamente faz querer debater alguma coisa, que na verdade te oferece uma viagem interna, um filme-alucinógeno pra você brisar (e que pode tanto bater legal quanto errado…). Quando as pessoas vêm me dar um feedback sobre ele, é sempre de como elas se sentiram, de como viajaram… cada um tendo entendido uma coisa distinta (dentro do que foi oferecido, né), as vezes nem sabendo dizer o que as atingiu. Por ser uma mulher branca e lésbica, eu também me encaixo à minha maneira nessa minoria que agora ocupa as telas, mas meu filme não traz em seu conteúdo uma problemática a respeito do que passo por ser mulher, por ter a orientação sexual que tenho… E acho que os festivais de cinema têm dado mais prioridade a isso. Então te confesso que nem sei dizer o que será da trajetória do filme daqui pra frente. Fico muito feliz que o X Janela tenha aberto as portas para ele, acredito que isso ajudará na aceitação dele em outros festivais.

Sobre ser um vídeo para o mundo das artes visuais, também não tenho tanta confiança assim. Primeiro porque esse mundo específico é muito baseado em seus contatos prévios com curadores, e eu não sou inserida nesse meio. Segundo porque como o filme tem uma característica meio hibrida – meio obra artística, meio cinema narrativo  – acho que ele corre risco de ficar num limbo desse entre-mundo. Mas não estou tããão preocupada com isso, claro que o quanto mais ele conseguir repercutir, melhor. Vou tentar fazer com que isso aconteça. Mas se não acontecer, tudo bem. Eu não fiz esse curta-metragem a priori preocupada em traçar estratégias para agradar as tendências dos olhares dos curadores, seja dos festivais de cinema ou de exposições de arte.

Pra terminar, é inevitável não comentar a vinheta Deixa Ela em Paz que você montou pra essa décima edição do Janela que carrega a hashtag #Lembrançasdojanela. Um encadeamento de imagens que sensualizam e sexualizam o corpo feminino seguidas de imagens de maus-tratos, de homem para mulher, com uma trilha sonora de terror. “Nenhum desses filmes foi dirigido por uma mulher” e a vinheta se encerra. Me assustei com a vinheta e vi muitas amigas ao meu lado se contorcerem, é realmente um filme de terror. Também foi a vinheta menos exibida ou estou enganado? Pensando na vinheta, pra mim é também inevitável ressaltar a única personagem presente no O Olho…, uma mulher que vagueia por uma cidade e por tempos oscilantes, um presente-passado e um futuro do pretérito. Uma temporalidade ambígua, manchas coloridas de aquarela sobre a película em preto e branco. Quando a personagem aparece caminhando na paisagem rochosa, só me lembro de Ingrid Bergman na cena final de Stromboli (1950), de Roberto Rossellini. A personagem alienígena desaparece. Então, me conta um pouco como surgiu a ideia da vinheta, como o efeito dela te liberta (se é que liberta), e como você sentiu a recepção dela. Além disso, me conta também como você se enxerga,  enquanto mulher, inserida no mercado audiovisual que tem um cenário majoritariamente de homens ocupando as funções “principais”. Nesse ponto, acho curioso pensar no O Olho… e também no Travessia, de Safira Moreira, como produções de um viés pessoal, com equipes reduzidas e mulheres na direção. Você acha que é uma tendência e uma maneira das mulheres se apoderarem do cargo de direção, que é sempre tão masculino?

AB: A escolha de colocar uma personagem feminina no O Olho e O Espírito se deu unicamente porque eu só conseguia pensá-la como uma mulher. Não foi para ressaltar questões femininas da mulher na cidade (sei que dá para fazer essa leitura, afinal cada corpo sempre vai suscitar as problemáticas que atravessam suas subjetividades por terem o corpo que têm), acho que é porque é um filme bem pessoal e a personagem está ali apenas como o meu olhar sobre tudo isso. Tanto é que não é uma personagem com densidade psicológica, ela é uma guia para a experiência do espectador diante do filme.

Quanto a vinheta, ela foi o resultado de uma série de discussões, diálogos e debates que nós mulheres cinéfilas em Pernambuco, atuantes na área ou não, temos buscado pautar pensando a representatividade e a representação das mulheres no audiovisual. O objetivo com ela era questionar a reprodução de um olhar violento e objetificador sobre os nossos corpos e subjetividades e fazer isso através de um recorte de filmes que passaram pela programação do Janela Internacional de Cinema ao longo desses 10 anos. A vemos como uma forma de chamar atenção para essa história de violência, levantando um questionamento na nossa própria formação, no nosso próprio olhar. Sabemos que a vinheta não foi exibida nas mesmas condições de iluminação e horário que outras vinhetas parceiras do evento, mas não temos como afirmar com certeza se foi a menos exibida. De qualquer modo, independente das condições e quantidade de vezes que passou, ela inevitavelmente foi a que mais ressoou no mundo real. Num saldo geral, acreditamos que ela tenha conseguido cumprir o papel a que se propunha, o que foi de certa forma um alívio de se constatar porque quando ela explodiu nas telas e reverberou em cada um, os incômodos eram dos mais diversos e diziam mais respeito a cada pessoa do que à vinheta em si. E aí, sendo uma das responsáveis por ela, ouvi muitas opiniões diferentes, complexas e que faziam com que (pelo menos eu) perdesse a noção do efeito daquela vinheta, porque sempre eram depoimentos muito pessoais. Mas quando ela foi pra internet, seguida do texto publicado na pagina do Deixa Ela em Paz, ficou evidente que, afinal, era pra ser aquilo mesmo. Por sinal, não deixem de ler esse texto que comentei, dá pra acessar em: https://www.facebook.com/deixaelaempaz/posts/2005519179705274

Sobre a pergunta do modo de produção. Não posso falar por todas as mulheres que fazem filmes, mas é bem verdade que, por exemplo, há bem mais mulheres no cinema experimental porque justamente são modos de fazer filme que não exigem uma equipe modelo fordista de produção, que é esse do cinema hegêmonio, né. Ser diretora neste esquema nos coloca no topo de uma hierarquia de produção, mas que não corresponde à configuração da sociedade. E portanto, consigo imaginar que até uma mulher conseguir se sentir pronta/forte para ocupar esses cargos demora mais do que um homem. Quando rola uma situação para se expor publicamente, num trabalho, num debate etc, eu (e imagino que qualquer outra mulher) sou acometida diversas vezes por inseguranças e descrenças comigo mesma que funcionam como um auto-boicote, meio que já me adiantando às retaliações dos outros, então você vai lá e já faz isso em si mesma, para evitar a exposição… Sendo O Olho e O Espírito meu primeiro filme, assim como Travessia foi para Safira, é muito mais confortável (falando por mim) contar com uma equipe pequena de amigos intimos para fazer um filme pela primeira vez. Só assim eu conseguia não ativar o sistema de auto-boicote da insegurança. Porque nos amigos a gente confia, nos sentimos “em casa”. Não diria que é uma “tendência”, usar essa palavra faz parecer que é uma coisa que fazemos conscientemente, passa uma ideia de estratégia, mas não é. É na verdade como a vida se configura para nós. Tudo parece acontecer de maneira natural. De repente, queremos fazer filmes que pedem uma produção “menor”. E acreditamos ser natural que as coisas cheguem assim para nós porque “ah, nossa ideia exige uma equipe pequena mesmo…” ou porque “não acredito nesse modelo de se trabalhar com cinema”, mas no fundo só temos essa essa opinião e vontade porque o sistema nos diminui, nos intimida. É difícil ganhar legitimidade num meio ultra-masculino e conseguir com que te respeitem, que botem fé. E aí você vai tentando como dá. Enquanto isso, estou sim cheia de ideia solta para roteiros que pedem uma produção mais robusta… e imagino que outras diretoras também… só preciso(amos) aprender a desativar o sistema de auto-boicote. E chamar umas as outras pra fazer nossos filmes!