Por Priscila Nascimento

Como estudante de cinema e audiovisual, pude conversar com alguns realizadores e estudantes de outras partes do país durante o X Janela. Debatemos sobre o que é abordado nos nossos cursos e sobre o que nos deixa insatisfeitos neles. Cheguei à conclusão de que o estudo do que se denomina como “Cinema Mundial” nas universidades brasileiras se resume a filmografia européia, passando também por Hollywood e falando brevemente de algum cineasta japonês que pode variar entre Ozu e Akira Kurosawa –  talvez Mizoguchi. Se sobrar uma aula no final do semestre, fala-se sobre o senegalês Ousmane Sembene, mas não há garantia alguma.

Note: no “cinema mundial” só existem homens.

Se o interesse é ensinar sobre formas fílmicas, cinquenta aulas divididas entre Acossado (1960) e Cidadão Kane (1941) não serão suficientes. É urgente a importância de estudar os filmes fora dos eixos falocêntricos, eurocêntricos. Uma olhada superficial sobre as pessoas que ocupam e querem ocupar as salas de aula de cinema hoje pode ser bastante construtiva para essa concepção, são pessoas não só provenientes da chamada ”cena endogâmica”[1] . São pessoas que querem suas imagens e histórias nas telas. Se não houver possibilidade de diminuir as vinte e cinco aulas sobre “New Hollywood”, é possível começar a pensar nessa inclusão com cadeiras extras ou mudando o nome do que se estuda em “Cinema Mundial” para “O Cinema Europeu e outros.” Talvez assim seja mais fácil notar o buraco existente nessa programação. Ou simplesmente refletir sobre o que a denomina “Mundial”.

Me deparando com os filmes da L.A Rebellion exibidos no X Janela internacional do cinema, vários questionamentos surgiram. Por quê fomos afastados  desse material por tanto tempo e por que ele vem à tona agora?

Os filmes foram criados por estudantes negros da universidade UCLA. em Los Angeles, no começo dos anos 70, quando eles tinham entre vinte e trinta anos. O programa que deu oportunidade aos realizadores negros também dedicava-se aos asiáticos, indígenas e chicanos. O material dos realizadores negros fora o primeiro recuperado recentemente numa ação de restauração. Um dos membros desse movimento foi Charles Burnett, que como projeto de conclusão de curso criou o longa Matador de Ovelhas (1978). Este filme teve grande influência em reconhecidos cineastas negros americanos atuantes hoje como Ava DuVernay (13ª ementa) e Barry Jenkins (Moonlight). Burnett  foi recentemente nomeado ao Oscar honorário pelo conjunto da obra ao lado de Agnès Varda, entre outros.

L.A Rebellion é fruto de muitas influências, além claro das europeias e obviamente hollywoodianas.  Na UCLA, professores como Elyseo Taylor (afro-americano) e Basil Wright (europeu) levavam aos alunos filmes que fugiam do looping Europa-EUA, como a filmografia latino-americana, africana, entre outras. Sabendo desse relato fica ainda mais claro o quanto a sala de aula é um lugar importante para a desconstrução de um olhar que já cresce colonizado.

É 2017 e uma mulher negra periférica escreve esse texto. Não precisamos de filmografias fechadas em uma construção vertical e de exemplos milionários de produção. Queremos saber, por exemplo, como foi feito o trabalho de arte de Era uma vez em Brasília com mil reais.- como especificou Adirley Queirós em debate no X Janela. Pois é o mais próximo da nossa realidade e mais esperançoso para qualquer um que não se ampara em listas de contatos que garante vaga nos festivais. É preciso debater como os cineastas negros da UCLA faziam seus filmes no final de semana depois do trabalho – porque essa parece a única saída. Mesmo estando dentro do círculo produtivo do audiovisual brasileiro, Pernambuco cria uma panela tão fechada que não temos chances enquanto estudantes de audiovisual nem de presenciar produções.

Refletindo sobre os nomes nos créditos dos filmes, nas sessões especiais, que batiam com os nomes nos crachás da organização do X Janela. A pergunta sobre por que o L.A rebellion sumiu mesmo sendo algo hoje reconhecidamente importante, parece bastante próxima do momento aqui vivido onde as produções negras atuais correm o mesmo risco, já que os lugares de visibilidade nos circuitos de festivais, parecem à primeira vista reservados para a “cena endogâmica”.

Muito me interessa as aulas sobre Godard. É sempre bom se deleitar com as maravilhas fílmicas de Orson Welles. Mas existe um mundo já descoberto além da Europa e da encantadora Hollywood e que para nós, alunos constantemente sabotados, pode ser objeto de imensa motivação e aprendizado.

É 2017 e as universidades já não têm mais as mesmas cores. Estamos aqui e queremos na tela outras formas e histórias que nos mostrem outros caminhos para construir nossas formas e histórias.

[1]Modo de produção que se reproduz a partir da união de indivíduos semelhantes, dentro da mesma classe social, raça e privilégios.