por Matheus Araujo dos Santos

La Bouche é um filme que nos atiça os sentidos convocando nosso corpo a tomar parte da experiência cinematográfica. O atabaque do guineano Mohamed Bangoura, “Le Diable Rouge” (“o diabo vermelho”), soa vindo de um tempo distante que se faz presente em imagem e som. Bangoura, em cuja história real o filme é inspirado, é um pai diante da encruzilhada. Após o assassinato da filha, a pergunta se impõe: qual o tempo entre o luto e a vingança?

O que pode ser tomado como um problema individual se transforma em dor coletiva no filme dirigido pelo colombiano Camilo Restrepo. As palavras em Iorubá se juntam a movimentos de canto e dança anunciando chagas ancestrais que se reatualizam a cada corpo negro que tomba. A dor de Mohamed Bangoura é uma dor secular; o sangue derramado de sua filha é o sangue de todo um povo cujas feridas permanecem abertas.

O filme é composto por sequências musicais nas quais o pai desgostoso é chamado ao revide. Em muitos momentos as imagens adquirem uma potência quase hipnótica, seja através dos corpos borrados que dançam extáticos na tela, seja através de planos nos quais a câmera percorre lentamente o espaço vazio até voltar aos corpos dxs personagens.

O jogo de temporalidades cria imagens que a todo momento nos interpelam. Em muitos planos xs personagens nos olham diretamente, como se de nós ansiassem alguma resposta. A ação esperada do pai é também a ação esperada do público. La Bouche nos apresenta a chaga colonial de modo compartilhado; seja qual for o lugar espectatorial ocupado, o filme parece exigir alguma espécie de engajamento.

A boca – que dá título ao curta-metragem- traz consigo a possibilidade da fala. O controle sobre o que se diz e quem pode dizer sobre o quê é uma estratégia eficiente de controle e manutenção de poder. A hierarquização das vozes faz com que algumas sejam aceitas como razoáveis enquanto outras sejam reduzidas a grunhidos inaudíveis.

“Cuspa sua dor e raiva!”, dizem as duas mulheres que cantam e dançam ao som dos tambores, “Seus dentes são sua única defesa”. Falar, quando se é esmagado pelas estruturas, não se reduz aqui a repetir o vocabulário dos que detêm o poder. Sob a marca da violência, a fala virá como grito carregado de invenção.

As cenas que vemos em La Bouche parecem dar conta dessa voz que não pode mais ser abafada. A palavra cantada, a carne ritmada e o som extraído dos instrumentos de percussão se imbricam formando imagens/corpos que nos aproximam de um luto não-inerte, pois se faz justamente no movimento.

No primeiro plano, vemos folhas que tremem ao vento noturno, ventos de Oyá, sob os relâmpagos da tempestade que se anuncia. Ao final, lá estão elas novamente a fechar o ciclo. É do mato que vem a energia vital: “Sem folha não tem sonho / Sem folha não tem festa / Sem folha não tem vida / Sem folha não tem nada”, como cantou Gerônimo. Sem folha não há axé e é exatamente sobre essa qualidade de potência que nos fala La Bouche.

“Boca, boca, o que você vai fazer?

Boca, boca, por que você não fala?”

O “Diabo Vermelho” olha para a câmera e toca seu atabaque.