Por Lucas Reis

A produção dos filmes de humor no Brasil, sempre foram constantes. As chanchadas da década de 1940 e 1950, foram um momento de grande aproximação do cinema brasileiro com o público que lotava as salas para assistir as estripulias em tela características do gênero. Anos depois, as pornochanchadas que mesclavam o humor com temas picantes característicos da década de 1970 e 1980, também levaram grandes públicos aos cinemas. A crítica brasileira, por outro lado, rejeitava esses filmes, em geral. Atualmente, a partir de um olhar distanciado historicamente, muitas dessas fitas estão sendo redescobertas política e esteticamente. Em recente entrevista para revista Bravo!, a crítica e pesquisadora Andrea Ormond comentou sobre o interesse pelo cinema brasileiro: “Além do amor pelos filmes de qualquer nacionalidade, sempre achei que o cinema é um elemento muito subestimado na cultura brasileira. Através do cinema podemos traçar um panorama do que foi e continua sendo o país e os costumes da nossa gente. É possível pegar um filme dos anos 1980, por exemplo, e fazer várias pontes com outros acontecimentos da época: a música, a moda, a política. Então meu interesse sobrevive acompanhado de um fascínio maior, pela cultura brasileira, e passou a servir de poderoso instrumental na compreensão e no resgate dessa cultura.”. [1]

Resgatar os filmes é resgatar uma importante parcela cultural brasileira, além de entender os processos cinematográficos na produção nacional. Em uma sessão especial do cineclube Cachaça Cinema Clube durante o X Janela foi exibido Etéia – A extraterrestre em sua aventura no Rio (1983), que parodia E.T, dirigido por Steven Spielberg. É curioso notar essa relação com a ficção científica que se espalhava pelo cinema americano e fez muito sucesso de bilheteria: Star Wars (1977), de George Lucas; Contatos Imediatos de 3º Grau (1979), de Steven Spielberg; De Volta Para O Futuro (1985), de Robert Zemeckis; Mulher Nota 1000 (1985), de John Hughes, dentre vários outros, além do próprio E.T. Blockbusters que dominaram as salas de cinema no Brasil, especialmente por conta da queda de popularidade do cinema mexicano e italiano que também faziam muito sucesso no país. Essa relação entre seres humanos e máquina/seres de outros mundos é particularmente importante para o cinema da década de 1980. Não é por acaso que uma série como Stranger Things, que homenageia a produção oitentista, tenha a mesma temática de ficção científica.

Em Etéia, há uma aproximação e subversão da relação com seres humanóides, sejam robóticos, sejam de outros planetas, como é o caso. Por mais que a extraterrestre tenha vindo ao Brasil de um planeta que fica a três milhões de anos-luz, a tecnologia que ela usa é tosca, não se compara com a tecnologia das naves espaciais em E.T – O Extraterrestre, base para a paródia do filme brasileiro. O aparelho utilizado para se comunicar com o seu planeta, por exemplo, parece ter saído da lata de lixo. Aparenta-se uma união entre pedaços de máquinas quebradas de um lixão e esse objeto não identificado tornou-se um objeto cênico. Essa estética do lixo já estava presente nas chanchadas (e foi exaltada por Rogério Sganzerla e o cinema marginal como um todo) que, em geral, tinham um orçamento baixo e uma grande criatividade para se virar com os instrumentos disponíveis, Etéia é parte de uma continuidade de um cinema popular produzido no Brasil com baixos orçamentos e se utiliza dessa característica para produzir o humor.

Além disso, essa paródia desmistifica o cinema estrangeiro bem produzido e com efeitos especiais caros e entrega que tudo em tela, faz parte de uma construção, inclusive os objetos cênicos são angariados conforme o dinheiro disponível para a produção. A nave de Etéia também chama a atenção, lembra bastante a nave espacial de O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla que o diretor retirou de um filme B qualquer e enxertou em seu trabalho. Não há qualquer efeito de pós-produção, gerando um tom cômico inclusive, pela falsidade do vôo da nave. Contudo, esse é o efeito desejado, já que, desde o primeiro momento, provoca o riso e entrega as possibilidades de produção como uma forma outra de explorar o efeito cômico.

O tom da estética do lixo também se estabelece na própria narrativa. As situações vão acontecendo de forma um tanto atabalhoada, sem conexões amarradas entre as sequências. De uma hora para outra, Etéia que ainda parece ser um enigma para a polícia, já está famosa, participando de programas de entrevistas na televisão e chamando a atenção de toda a população. Há uma folia “chanchadesca” presente, as piadas não surgem do encadeamento narrativo, o fio condutor que avança os elementos da trama são frágeis, o que importa são as gags no interior do quadro, que permeiam todo o longa metragem. A corporalidade dos comediantes é muito importante para fazer graça, os movimentos espalhafatosos, quedas e outros exageros são motivo de piadas constantes. A gag não precisa trabalhar em um contexto preciso, “é uma perturbação do discurso ‘normal’, da lógica implícita do filme”[2] . Algo parecido com o cinema de atrações que convocava o espectador a participar das situações que surgiam no tableau. O primeiro cinema se estabeleceu muito mais pelas sequências cômicas que se concluíam em um mesmo espaço do que em uma linha narrativa visível.

A atrapalhada dupla de policiais que compõe o longa são um exemplo claro do humor físico explorado no trabalho de Roberto Mauro. Todos os trejeitos são excessivos, as roupas são chamativas demais e as piadas se repetem (o chefe de polícia recebe a torto e a direito trombadas involuntárias de seu subordinado, quase como Chaves recebendo “Seu” Barriga na vila). Os dois funcionam como uma espécie de releitura de Oscarito e Grande Otelo, maior dupla de cômicos das chanchadas e, consequentemente, do cinema brasileiro. A maior característica o humor físico de Grande Otelo e Oscarito era o humor físico, lembremos do primeiro carnavalizando uma releitura de uma tragédia grega com passos extremamente rápidos em Carnaval Atlântida (1952), de José Carlos Burle ou o segundo transformado em Melvis Prestes cantando e dançando Calipso Rock em De Vento em Popa (1958), de Carlos Manga, para não haver dúvidas da aptidão dos dois para o humor físico.

A dupla de policiais também remetem à clássica dupla de cômicos das chanchadas por um ser branco e outro negro. Há sempre uma subordinação dos negros em relação aos brancos nas comédias. Grande Otelo sempre foi escada de Oscarito, por exemplo. Por mais que esse racismo persista, em Etéia, o filme termina com o chefe de polícia, que se transformou em uma criança, levando palmadas na bunda de seu subordinado. Há uma inversão do jogo, como vira e mexe acontecia nas chanchadas. Outra relação estabelecida é a profissão dos personagens cômicos. Se para Oscarito e Grande Otelo eram destinadas profissões como serventes, barbeiros, cozinheiros e etc., em Etéia, a dupla de humoristas são policiais. Entre a década de 1950 e a década de 1980, houve uma virada no Brasil e a população passou a ter acesso a bens de consumo que antes não eram possíveis. A capital Brasília, fundada em 1960 está associada a entrada da indústria automobilística no país, por exemplo. Essa mudança social estabeleceu uma classe média no Brasil que não existia na década de 1950 e pode-se pensar na representação, a partir das profissões. Em Etéia, a dupla de cômicos, tem ocupações pertencentes à uma classe C, um tanto diferente de Oscarito e Grande Otelo que são os faxineiros do hotel em Carnaval no Fogo (1949), por exemplo.

O humor também sempre foi uma excelente forma de fazer críticas sociais. As chanchadas estavam cheias de comentários sobre a situação do país, por exemplo. Em Etéia, há piadas com a Light  que fornece energia para a cidade do Rio de Janeiro ou com hospital Cardoso Fontes que são bem rápidas, mas explicitavam a situação dos serviços na cidade do Rio de Janeiro para a população que não tem condições de pagar por eles. Especialmente, em relação ao hospital, em que a personagem de Etéia vai até lá, é curioso como nenhum médico tem um comportamento natural, todos parecem estar sob efeitos de lisérgicos, como se essa fosse a única possibilidade para continuar os trabalhos na saúde pública. Levando em consideração que o filme foi produzido ainda sob um contexto de ditadura (mesmo que no final), esses comentários tinham bastante coragem.

A relação direta que há em Etéia com as chanchadas, porém, é da atriz Zezé Macedo que interpreta a própria extraterrestre que chega no Rio de Janeiro em busca do seu namorado. A atriz realmente participou de várias chanchadas e, muitas das vezes, chamava a atenção por não se adequar aos padrões de beleza. Especialmente por seus lábios extremamente finos, Macedo sempre foi lembrada como “feia”. Até a sua personagem mais famosa, a Dona Bela na Escolinha do professor Raimundo, já tinha no nome uma ironia à sua suposta (falta de) beleza. O fato é que Macedo era uma grande atriz e, sempre conseguiu arrancar gargalhadas do público.

Como a Etéia, personagem do título, Macedo ressignifica a figura feminina dentro dos filmes de humor brasileiro na década de 1980. Nessa fase, em que já haviam fitas de sexo explícito produzidas no Brasil e uma queda de bilheteria das pornochanchadas menos intensas nas cenas eróticas, Etéia tem um tom leve, mas que não deixa de tocar em alguns pontos relevantes. A personagem que é rejeitada por suas formas, logo descobre que pode se transformar em uma mulher dentro dos padrões para ser aceita socialmente. Ela usa seu poder para chamar a atenção dos homens. Em dado momento, Cacau, o machão clássico das pornochanchadas, leva  Eteia, em sua forma humanóide, para casa. Ao descobrir que ela é uma extraterrestre, ele se assusta e sai correndo desesperado. Depois, ele aceita o poder dela, pois ela pode se transformar em uma mulher linda sempre que quiser, ou até, em várias mulheres lindas. E para o filme, essa beleza, está associada a padrões bem delimitados de cor, de medidas e etc.

A relação entre Cacau e Etéia se estabelece dessa forma, ele percebe que pode se dar bem com ela, além de ganhar dinheiro. A extraterrestre, aceita a amizade de Cacau, sem entender direito o que acontece e se divertindo pelas situações que passa. Entretanto, há uma virada na personalidade de Cacau que passa a defender a Etéia das pessoas que querem se aproveitar de seus poderes e da sua figura exótica. O machão da pornochanchada, logo se torna um sujeito sensível à personagem ingênua e aos acontecimentos que a cruzam. Algo um tanto incomum nas propostas das comédias naquela época, em que o homem, tentava se dar bem a todo o custo, até o final da narrativa, algumas vezes se saindo bem, outras não.

Atualmente, também há uma porção de comédias brasileiras entrando em cartaz, são as moneychanchadas (termo de Andrea Ormond) que fazem grandes bilheterias no país com frequência e recebendo um olhar negativo da crítica cinematográfica, em geral. É curioso notar que os gêneros “irmãos” mais antigos, a “chanchada” e a “pornochanchada” foram analisadas da mesma forma em suas épocas, mas já não são mais lembradas como um conjunto de filmes ruins como no passado, pelo contrário, a distância temporal ajuda a revelar qualidades específicas de obras desses gêneros. O que falta são os críticos se relacionarem de forma intensa com as obras atualmente e não negarem essa produção como se todos os filmes fossem, a priori, sem qualidades. O crítico de arte Clement Greenberg afirmava que a função da crítica é criar uma pressão atmosférica para que, desse ambiente, saíssem melhores obras. O melhor seria que existissem mais análises que mergulhassem nos filmes e menos indicações de fim de semana em textos que se esvaem tanto quanto acusam as comédias de algo menor. Caso contrário, as salas de cinema continuarão lotadas nas comédias nacionais e a crítica vai perder o bonde da história. Pela terceira vez.

[1] https://medium.com/revista-bravo/outra-hist%C3%B3ria-do-cinema-fccac6de5128

[2] Jaqueline Nacache. O cinema clássico de Hollywood.