Arqueólogos escavam o solo em busca de histórias do passado. Amanda Beça escava imagens: as risca, rabisca, esgarça em busca de outros tempos. O olho e o espírito poderia ser considerado um filme de ficção-cientifica minimalista de viagem no espaço-tempo.Filmado em película preto e branco, misturando suportes Super 8 e 16mm, nesse curta metragem passeamos por memórias do cinema, ouvindo ecos de Maya Deren, Buñuel e Dali, atravessamos memórias de uma cidade.

Em uma narrativa minimalista, vemos uma garota que anda pelas ruas da Recife contemporânea. Ela perambula pela cidade como uma fantasmagoria com seu vestido preto.  Ela senta em um bar e bebe um café, olha para a bebida que escorre e se derrama. As poças e líquidos que escapam dos bueiros da cidade começam a se iluminar em cores vibrantes. Quando ela passa por elas, as águas parecem querer conversar ou se comunicar com a personagem, em um crescendo. Ela olha para as mãos e vê um liquido pegajoso preto. Ela pisa em uma poça e de repente é transportada para outra paisagem. Submerge em outra dimensão.

A garota agora está em um cenário árido, no alto de uma montanha desértica com cactos. Ela olha para o horizonte e vê o mar ao fundo, que brilha em cores.  Parece ter sido transportada para tempos pre históricos, distópicos, pós utópicos, quando o Recife ainda era (ou vai voltar a ser) só mangue. As águas do mangue e do mar, submersas e beirando a cidade, são como os fluxos do tempo: vão e voltam na cadência das ondas. Em uma enxurrada plástica, a personagem vai sendo tomada pela matéria fílmica que “chove” pela tela em manchas de tinta pintada à mão sob a película. A matéria do filme nesse momento se torna a própria narrativa. O que fala é a própria plasticidade fílmica que vai contaminando tudo.

O filme se rasga, com um corte seco “literal’. A narrativa vai se desconstruindo enquanto estrutura e enquanto própria diégese, em uma grande confusão de cores e sons que vão tomando conta da tela. No meio da “ascese” da matéria, quadradinhos preto e brancos se apresentam em um stop motions, como se pixels ou grãos de prata virassem as personagens. Em um movimento duplo de reflexão metalinguística acerca da própria representação, as imagens se dobram sobre si mesmas.  Amanda nos convida para um mergulho no fílmico, explorando em seu filme um paradoxo imanente da imagem: se por um lado a película preserva um momento na eternidade, por outro seu próprio corpo ou pele se deteriora com o passar do tempo. Vislumbramos o próprio tempo em uma dialética entre visível e invisível.

O filme de Matthias Muller Vacancy, exibido antes da sessão de Era Uma Vez Brasília (2017) ,de Adirley Queirós, no Cinema São Luiz, estabelece uma conversa através dos tempos com o filme de Amanda Beça. A partir de material de arquivo em película da construção da cidade de Brasília, o filme se estrutura sob construção de paisagens atemporais. As imagens mostram homens trabalhando em desertos vermelhos, pequenos seres que cruzam uma imensidão espacial e mais parecem assombrações. Como a personagem do filme de Amanda eles também perambulam pelo espaço infinito. Com uma narração em off que lê trechos de livros de Beckett e Ítalo Calvino, vemos o esqueleto de uma cidade que já nasceu no futuro.

Brasília nas palavras de Clarice Lispector é uma cidade abstrata. E não há como concretizá-la. (…) é um passado esplendoroso que já não existe mais.  Brasília (cidade natal dessa quem fala) é cidade dos espaços e tempos dilatados. Quem cresce em Brasília sabe o tamanho dos horizontes e aprende a se tornar amigo do vazio.  Como diz a maga Clarice: “é o lugar onde o espaço mais se parece com o tempo, em Brasília o tempo é integral”. Em um trecho tirado do livro Cidades Invisíveis, o narrador de Vacancy fala: “A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. (…) Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios (…). Tanto Vacancy quanto O Olho e o espírito criam o retrato de cidades eternas, repletas de passados, aguardando para serem tocados e acessados, memórias que fluem como água esperando que alguém mergulhe nelas.

Andando pela cidade de Recife me chama a atenção um certo aspecto de limo de cor preta nos prédios antigos, como se a cidade há muito tempo tivesse sido submersa. Sinto que ando por uma espécie de Atlântida brasileira, saída diretamente do fundo do mar. Vejo prédios de muitos andares já abandonados em ruínas, como se o passado e o futuro convivessem no mesmo lugar.  Olho para o mar de Recife que é de um azul celeste, ao mesmo tempo convidativo e  ameaçador.  Placas nos lembram sempre da presença dos tubarões, animais pré-históricos que estão por lá a espera invisíveis, prontos para nos devorar desde tempos imemoriais. Talvez o filme de Amanda tenha captado essas atmosferas que o olhar “alien (que não passa de um estrangeiro) percebe com mais clareza.  E parece que ambos, Matthias e Amanda, em um diálogo telepático (ainda no espírito da ficção cientifica) conversam comigo através das linhas do tempo.

Para não ficar muito esotérica, me apego a mais uma frase de Clarice: A criação não é uma compreensão, é um novo mistério.