Que seja um texto de apresentação leve e feliz para marcar essas dez edições do nosso Janela, que é uma apresentação do Funcultura, através do Governo de Pernambuco, e da Petrobras. O Janela é também do público, algo entre 15 e 18 mil espectadores que já há alguns anos vêm ao nosso festival procurar filmes durante dez dias, procurar alguém e, no processo, talvez achar um tipo de abrigo na cidade. Para ver algo que tenha um certo impacto, para fazer uma descoberta, para gostar e concordar, ou para discordar de filmes e de ideias.

Os desafios de fazer um encontro de Cinema, de gente e de ideias continuam grandes, e no Centro do Recife. Nesses dez anos, começamos no Teatro do Parque, que hoje está fechado e sem data para reabrir, uma perda para o Cinema, para a Música, o Teatro e a Dança. Como será incrível poder contar com esse espaço num futuro que espero ser próximo, fazendo par com o São Luiz na nossa programação.

Em 2008, ano do primeiro Janela, era o São Luiz que estava fechado, mas desde 2010 tornou-se impossível pensar no Janela sem a grande sala de 1952, sem o senso de patrimônio coletivo que o São Luiz significa. Naquele primeiro ano, uma reação previsível de uma parcela do público que externou descrença na nossa primeira programação no São Luiz, com exclamações como “”Ninguém vai ver um filme no centro da cidade às dez da noite!””.

Pois bem, já naquele ano, a fila dava volta no quarteirão não apenas às 22 horas, mas também às 23. Até hoje, para os que fazem e participam do Janela, uma das grandes imagens desse festival é ver o São Luiz devolver à calçada e à rua – às vezes à uma e meia da manhã – mil pessoas eletrizadas por um filme brasileiro novo, por um filme estrangeiro em pré-estreia ou por um clássico.

A questão da ocupação da cidade tem sido muito discutida no Recife nos últimos anos, e o Janela sempre acreditou no São Luiz como um espaço fantástico. Isso numa sociedade totalmente dominada por lógicas de mercado onde produtos como automóveis, shopping centers e o medo puro e simples precisam ser vendidos e protegidos, e onde o centro da cidade é tratado com descaso e falta de visão.

Hoje, de maneira orgânica, fruto de uma certa força inegável da produção de cultura em Pernambuco, o São Luiz tem uma ocupação inteligente e democrática não apenas pelo Janela, mas por uma série constante de festivais que surgiram depois, ou que finalmente entenderam o valor do São Luiz como grande aliado. A maior parte desses festivais acontece no segundo semestre. Eles trazem vida e ideias para o centro da cidade.

Nesses dez anos, entendemos que é preciso que toda a classe do audiovisual esteja atenta para a manutenção do São Luiz como aparelho de cultura. A Fundarpe o mantém com muito respeito e alguma dificuldade, sua estrutura física é grande e exige desafios e um orçamento que ele não tem, e muitos desses desafios são assumidos pela fantástica equipe liderada por Geraldo Pinho e Gustavo Santos, um trabalho de enfermagem e amor para nossa grande sala.

Impossível montar esse festival, seus 120 filmes com nossas Heroínas protagonistas (Clássicos do Janela Volume 8), o L.A. Rebellion de um novo Cinema Negro nos EUA, do fortalecimento de um novo Cinema de Gênero brasileiro feito por mulheres e homens, de um sentido grande de diversidade canalizado da melhor forma que conseguimos enxergar nessa edição X sem, efetivamente, mencionar o Brasil de 2017.

Nosso país tem vivido solavancos de uma tomada sorrateira de poder, as repercussões são preocupantes no cotidiano, com atrasos na ideia de viver uma sociedade democrática, pensada coletivamente. A Cultura permanece um abrigo, mas já há temores de que a liberdade de expressão esteja sendo podada um pouco aqui, um pouco ali. A palavra “”Censura”” parece ter sido retomada como algo real, décadas depois de ter sido aposentada.

Contra tudo isso, podemos oferecer a projeção em 35mm de Pink Flamingos, filme de John Waters. Divine, me parece, simboliza muita coisa que vivemos hoje: Divine não se encaixa em critérios comuns estéticos, masculinos ou femininos, seu comportamento é selvagem. Que o Cinema seja sempre diverso, com mulheres fortes e com homens que façam sentido.

Para Divine, John Waters, Emilie Lesclaux, Lucrecia Martel, Laurent Cantet, Vania Catani, Fernando Weller, Dea Ferraz, Melinda Dillon, Helena Ignez, Paulo José, Julie Dash, Chantal Akerman, Gabriela Amaral Almeida, Maeve Jinkings, Sergio Oliveira, Elem Klimov, Charles Burnett, Débora Butruce, Julie Andrews, Clara Moreira, Blake Edwards, Sigourney Weaver, Marco Dutra, Geraldo Pinho, Lis Kogan, Adirley Queirós, Clebia Sousa, Renata Pinheiro, Rodrigo Teixeira, Marcelo Gomes, Karen Black, Agnès Varda, Ousmane Sembene, Mbissine Thérèse Diop, Harry Dean Stanton, Fellipe Barbosa, Juliana Rojas, Leonor Seraille, Bárbara Wagner, Larry Clark, Dora Amorim, Lesley Ann Warren, Isabella Raposo, Gustavo Vinagre, Barbara O. Jones, João Vieira Jr, Caroline Abras, Carol Ferreira, Clara Linhart, Juliana Antunes, Nele Wohlatz, Alexandre Barros, Helen Mirren.

Competição de Longas
Clássicos do X Janela
Janela Crítica
L.A. Rebellion
Competitiva de Curtas Brasileiros
Sessões Especiais
Lucrecia Martel
Competitiva de Curtas Internacionais
Aulas e mesas de debate
Cachaça Cinema Clube
Cinélatino Rencontres de Toulouse
Toca o Terror