Perguntam a natureza da competição de longas do Janela. É ainda uma competição jovem – entra agora em sua quinta edição –, que coleciona não mais que uma dezena de títulos a cada temporada (ou até menos), sem distinção entre brasileiros e estrangeiros, sem exigência de ineditismos (ainda que promova estreias no Brasil). Precisamos de cada safra para imaginar respostas possíveis e, mesmo que pareçam afinal se anunciar, costumam vir tarde. São tempos de conclusões improváveis, de desconfiança das vozes, de embrutecimento das forças, de urgência das vidas, de especulação de cobranças ao cinema e de crenças nele, em que as perguntas são ainda mais difíceis de fazer – todas elas – e não param de se desdobrar.

É como se as outras paisagens que exibimos no festival estivessem, neste conjunto específico, por acaso sob rubrica boa de mídia – “competição” –, contidas (ainda que do avesso). A competição de longas do Janela talvez seja o centro do festival e o seu exato oposto, no melhor sentido. Nem sempre da mesma maneira, filme a filme, é uma coisa ou outra em dinâmicas distintas. É um lugar para testar a importância da desimportância e também a desimportância da importância (e a pertinência de ambas) – de imagens, produtos de cinema e lógicas de curadoria.

Há os incríveis exercícios de direção em filme, em vinculação mais ou menos fiel a cânones do Grande Cinema, que mereceram holofotes em superfestivais: As boas maneiras e sua abordagem assombrosa (e francamente inédita) do cinema de gênero, Jovem mulher e a lapidação tão fina quanto eloquente de personagem fascinante, A fábrica de nada e o arrojamento de uma fábula de 2017 com o porte de um épico atual sobre existência e trabalho. Há os filmes de persistência no olhar para o presente, e daí uma maneira de frescor na história extraoficial, cuja relevância é já inconteste na dinâmica dos olhares no Brasil: Baronesa, Era uma vez Brasília, isso é possível de existir e filmar.

Há então os riscos, os lances, os abismos (e aqui tudo se confunde): O gênero, filme retirado de arquivo VHS soviético tardio impressionante que calha como contraespelho punk no país onde nos vimos, também nós, tentando narrar um golpe. O peixe, uma crônica da vida comum que vai se coreografando como meditação surrealista (ou hiper-realista?), numa evidência de que as vidas transbordam. Verão 1993 e o crédito na ficção simples e direta, sem deleites de autor, de coração apertado, que coisa linda. E o contrário, mas não menos apaixonante para o olhar que persevera: Que o verão nunca mais volte, uma história de amor abarcada com o tamanho do mundo (e com justiça aos mistérios do seu tempo, à abertura do cinema para ser e não ser o que sabemos que é, à deformidade do que o estado perpétuo de guerra faz entre nós). A noite: que personagem e que espírito, e que história de afeto inaudita para o semestre da cruzada fundamentalista contra os artistas e as curadorias no Brasil. Este filme, que exauriu fôlegos por onde passou, é um título de 2016 que desde ali estamos de olho, e agora pudemos trazê-lo pela primeira vez ao público brasileiro, fizemos questão.

Esta competição talvez seja um teste de acontecimentos que, para tanto, precisa pôr sob revisão também – muito modestamente – protocolos. Festivais costumam, muitas vezes, compartimentar suas mostras em nichos de mercado: os blockbusters de circuito de arte ou os avant-garde muito finos. Parece que os públicos estão presumidos, dirigidos de antemão a um ou outro espaço de descobertas possíveis, como se, maiores, os filmes não pudessem vazar entre suas distâncias e diferenças. Os filmes são maiores sim e, sigam ou não estatutos de uma ou outra cinefilia – alguns o fazem lindamente – vez ou outra, vistos de certo modo, não cabem em suas próprias expectativas. Creio e espero que filmes assim aqui estejam, e se desta maneira para algum de vocês puder ser, a natureza da competição de longas do Janela será feita por uma curta, mas profunda aventura.

Luís Fernando Moura

Competição de Longas
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Competitiva de Curtas Brasileiros
Sessões Especiais
Lucrecia Martel
Competitiva de Curtas Internacionais
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Cachaça Cinema Clube
Cinélatino Rencontres de Toulouse
Toca o Terror