(Bup, Dandara de Morais, 2018)

por Lorenna Rocha

Quantos universos cabem num corpo estático? Imobilidade é sinônimo de apatia? Ou de tumulto interno? Nessa dicotomia entre caos e quietude, Bup (2018), de Dandara de Morais, convida à espectadora a uma auto-consulta.

Pare por três minutos. Quais pensamentos ou canções passaram por sua mente, nesse intervalo de tempo? Memórias antigas, palavras não curadas, o grito de alguém do outro lado da rua: o corpo é afetado por todos os estímulos. E, ainda que se mostre imóvel, a confusão – ou o prazer – que cada um tem em si, é, de fato, único.

Bup: nome que faz alusão ao remédio antidepressivo “Bupropiona”, inicia-se com a personagem-diretora com os olhos fixados para a câmera. Na tentativa de concentrar-se em um único pensamento, a tarefa se mostra de tamanha complexidade. O esforço de lembrar-se da sinfonia que mais lhe emociona perpassa entre o rock, o pop, por conversas desconexas e bordões de internet vistos em algum momento.

É, então, traçado um caminho de dissidências de raciocínio, frente à necessidade do autocontrole, o qual não corresponde à mente preenchida de memórias evocadas e músicas que, de certa forma, imprimem território e gosto musical para a personagem. Ou seja, os pensamentos compartilhados através da tela permitem doses de interpretação sobre a própria identidade daquela que se está assistindo.

Distante de ser uma pílula que faça o espectador se sentir melhor, o curta produz efeito de um remédio que o corpo já tenha se acostumado. As sobreposições de canções e frases, sob a câmera que não se move, e o rosto rígido a encarar quem assiste, jogam para o público a dificuldade de se concentrar por inteiro no filme. Penetrar na lógica da projeção é assumir a si mesmo o fracasso de não conseguir sustentar com clareza os fluxos dos próprios pensamentos.

Entre os sons utilizados na montagem do curta, o discurso da ex-presidenta Dilma Rousseff, como o primeiro, faz anunciar, de maneira desapercebida, o caos que está por vir nos próximos sete minutos. Quando Dilma Roussef disse “todos irão perder”, parecia impensável para os brasileiros em 2016, uma guinada à extrema-direita tão aclamada.

Seja por descompassos ou por desatenções, se recompor pode funcionar como estratégia para reivindicar o próprio poder de decisão sobre o próximo ato. Nem que isso signifique, somente, poder escutar, com o corpo aliviado, a sinfonia que tanto lhe sensibiliza.