(Inconfissões, Ana Galizia, 2018)

Por Carol Lima

Surgem diante de mim fotografias granuladas. Uma textura analógica, com traços do passado que me puxam para uma imersão em tempos distantes, preenche a tela. Ouço uma voz em off que embala as fotografias. Ecoa em meus ouvidos uma síntese psicológica de Luiz, personagem o qual eu iria acompanhar nos próximos minutos. A voz dedilha sobre sua afeição com a literatura e com as artes em geral, mas soa firme quando afirma seus sentimentos de inferioridade. Uma opressão oriunda da problemática sexual que o rodeia. E quase que silenciosa, a mesma voz relata a busca por afeto da família. A partir dali, entrego-me ao filme de corpo e alma. Inconfissões tem sua construção baseada na reunião de fotografias e gravações em super 8 feitas por Luiz Galizia há trinta anos atrás e encontradas nos dias de hoje por sua sobrinha Ana Galizia. Entretanto, a cada revisitar dessas imagens, não só o senti cada vez mais presente como também pouco a pouco vi refletido em sua narrativa um contexto extremamente atual.

Nas cartas enviadas a família, Luiz relata alguns momentos de sua vivência em Berkeley, mas não fala tanto de si. Uma das leituras de suas cartas para os Galizia é rompida com a introdução de imagens de uma parada gay realizada nas ruas de Califórnia. O calor do sol refletido nas gravações saturadas de Super 8 e o ritmo dançante da música que embala as imagens soa como uma explosão no esconderijo de Luiz. As imagens vibram e imagino que ele, naquele momento, também. Mas logo o ambiente perde a saturação, trazendo seu apartamento em preto e branco e vazio. E Luiz volta a falar sobre receitas tipicamente americanas que havia acabado de cozinhar, do quão movimentadas eram as ruas, fala o mínimo, o casual, mas deixa de lado o que provavelmente foi um dos momentos mais marcantes de sua vivência por ali. Traços que se perdiam em suas omissões. Em uma carta, um amigo de Luiz relata que as coisas já não mais as mesmas: “Toda semana fico sabendo de alguém que não resistiu”. Os relatos, mesmo que breves, sobre a epidemia da AIDS que ocorria naquela década acentua o tom de altos e baixos da narrativa e o jogo entre as imagens que perdem suas cores na mesma velocidade em que as ganha.

O contraste das imagens de arquivo com a narração em off nos mostra que o filme é mais do que um folhear de um álbum de família, mas um caminhar passo a passo ao lado de Luiz em momentos que permaneceram apenas com ele até o fim, atados por um grande nó e perdidos em seu universo particular. Essa construção contrastada entre voz e imagem se traduz no fato de que mesmo que enquanto ouvimos a solidão narrada nas cartas a família surjam imagens dos homens com os quais Luiz se relacionava na tela, persiste ali a solidão do segredo que se guarda em seus registros. Se destrincha na tela um embate entre os momentos calorosos e a solidão do não compartilhar desses mesmos momentos no âmbito familiar. Apesar dos tons amarelados e lilás das ruas preenchidas pelos espíritos libertos e aquecidos pelo doce sol da Califórnia, as imagens dos amantes de Luiz têm os tons de azul quase acinzentado que envolvem a máquina de escrever na qual ele datilografava, sozinho, as cartas para a família. Ana presenteia seu tio com uma explosão tardia de memórias as quais o feria ter que guardar.

Deparando-me com os traços constantes da narrativa, tal como sua trajetória de altos e baixos, o jogo das cores e o contraste entre o que se mostra e o que se fala fui revivendo fatos dos quais tentei me desligar sobre ao sentar para ver o filme. Nos reunimos numa sala de cinema com pessoas que em sua maioria compartilham visões parecidas com as nossas e de repente tudo parece vivo e saturado. As últimas fotografias de Luiz que surgem na tela são como explosão, liberdade. As mais coloridas, apesar da falta de cor. Parecemos ter uma aceitação quase que instantânea com relação a quem somos. Mas a gente sabe que quando saímos desse lugar as coisas podem perder a saturação. O medo volta, tudo fica preto e branco. Em certos ambientes explodimos nossas cores. Em outros falamos menos, nos escondemos. Os registros que ficam conosco são apenas nossos. Registros como os de Luiz, que carregavam confissões que permaneciam engasgadas na sua garganta, por mais que quisessem sair. Vi em Luiz muitos amigos. Vi em Luiz eu mesma, mulher lésbica. Vi em Luiz todos nós que hoje enfrentamos um tempo de omissões que nos são cada vez mais impostas. Uma necessidade de afeto que transpassa décadas, que carrega consigo diferentes contextos, que se vê cada vez mais necessária. Um afeto pelo qual clamamos em torno ao cinza dos dias atuais, que dominados por um governo de ideais fascistas e com ataques cada vez mais constantes já não sabemos até quando vamos poder explodir nossas cores, a não ser entre as quatro paredes cinzentas do nosso universo particular.