Por Dandara Cipriano

Um olhar cerrado acompanha o movimento da câmera como se observasse um bicho à espreita. Assim começa O Homem que Surpreendeu Todo Mundo. O filme que antecedeu a abertura oficial do XI Janela Internacional de Cinema tem um título arrastado, tal qual as cenas iniciais. Elas nos jogam para um quarto escuro em que não sabemos se é mais um filme sobre recorte temporal de uma família branca do subúrbio russo ou se é o labirinto de Creta.

Um tumor como tragédia em iminência, uma esposa grávida, um sogro como fardo e um filho a contrapeso – o que esperar dessa união de clichês cinematográficos? E é deste modo que chegamos a uma cena ritualística dentro de um casebre adornado por símbolos pagãos. O processo de benzedura abre frestas para transformar o que já está estabelecido. O caminho feito por Egor e Natasha na busca de uma cura aproxima Egor do seu Minotauro. E a pergunta que nos fazemos na platéia é: o que esperar desse Egor, à primeira vista incrédulo de tudo aquilo que não é normativamente racional, e que agora senta em um tronco e bebe vodka com uma figura mística em corpo de mulher idosa?

O caminhar do personagem de volta para casa segue pausado e seco. Os patos no quintal são como aves que habitam um céu de chumbo, e ao deitar seu corpo no fundo do terreiro em que vivem os patos da casa, Egor se dilui na escuridão do seu próprio ser desenganado. O que procura este homem dentro ou fora da cisgeneridade?

O filme da Natasha e Aleksey, nos transporta para uma realidade que mesmo contemporânea não cabe dentro da nossa visão urbana local. É em meio a um barracão dessa comunidade rural que Egor vai se afastando cada vez mais do guarda-florestal e mergulhando dentro de uma ambiguidade subversiva. Com um vestido vermelho justo e uma bota preta de salto, o personagem se revela ante ao que o consome iniciando uma dança de descoberta com seu próprio eu.

Fora dessa bolha de solidão libertadora, tudo se reduz a uma estranha ordem geométrica em que a ausência do ser é maior que a vida despertada na liberdade do poder ser. Neste momento, ressoou em minha mente uma frase dita no primeiro filme exibido durante o festival, em Abrigo Nuclear, de Roberto Pires: “nunca conseguiremos preservar a espécie, ocultando a verdade”. Natasha, que relutara em responder ao apelo angustiado do seu marido, agora banha, nina, alimenta e veste aquele Egor, em descoberta. A ordem pré determinadas das coisas não faz mais sentido. O cheiro de “estou em casa” acalenta os dois corpos que se abraçam mergulhando na viagem de Eros.

A sessão termina, e eu não consigo me levantar em direção à saída. É como se as pernas não sentissem o chão e a garganta quisesse balbuciar algo impossível de ser dito. E, na porta do lendário Cinema São Luís, olho para trás e me questiono: a liberdade é tão profunda, que às vezes, o caminho mais fácil seria renunciá-la? O que machuca mais o ego humano: abrir mão dos seus preconceitos para abraçar a diferença ou a falta de coragem de mostrar seus próprios demônios? Egor enganou a morte ou a morte enganara Egor? Por fim, a única certeza que levo da sessão é a mesma que alimenta minha paixão pelo cinema, o filme não acaba quando termina.