Por Gabriela Souto Maior

Muito se fala dos poderes da fé e as façanhas que ela pode fazer alcançar, mas temos registro suficiente de episódios onde o impacto de atividades ligadas à acumulação do capital beira a onipotência. Embora baseado num notável exercício de abstração para produção de valores e significados muitas vezes dissociados de necessidades práticas, a atuação do capitalismo em suas diferentes fases tem rebatimentos materiais e subjetivos no meio ambiente e nos territórios, ancorando no espaço e em populações inteiras os rastros de suas atividades. No caso da mineração, há um histórico de explorações “marcado por processos de desestruturação (destruição do ordenamento territorial preexistente, desorganizando a coerência regional interna) e reestruturação (quando faz emergir uma nova organização produtiva, geralmente uma organização industrial original, definida por grandes corporações)”¹.

É em um desses territórios onde o curta documentário Uppland, nascido da parceria entre o cineasta escocês Edward Lawreson e o arquiteto irlandês Killian Doherty se passa. Alternando entre imagens de arquivo e imagens de produção própria, nos apresenta a cidade de Yekepa, na Libéria – ou não propriamente a cidade, mas vestígios e indicações dos diferentes desdobramentos que uma suposta Yekepa teve no espaço-tempo. Por meio dessas imagens e da narração do diretor, presente em todo o filme, ficamos sabendo de delimitadores geográficos, como a cordilheira de Nimba, e de diversos atores sociais envolvidos na história desse espaço, entre eles, a LAMCO, empresa mineradora suíço-americana que atuou no local na década de 60, criando uma cidade planejada para atender aos trabalhadores da mina. “A América na Libéria”, é como era conhecida, “onde tudo era estrangeiro”.

Com o suporte de um mapa, os realizadores buscam junto aos moradores do local reconstituir a memória e a espacialidade de uma cidade que desapareceu assim como surgiu, tendo sido abandonada à própria sorte quando do fim da atividade a que servia: a extração do minério de ferro em uma montanha local, da qual restou apenas uma cratera. Como em muitas cidades surgidas na época em contextos semelhantes, como a Vila da Serra do Navio, implantada no interior do estado do Amapá para extração do manganês, vendia-se a noção de “modernidade”, “comodidade”, “lazer”, e uma arquitetura correspondente, com lajes de concreto pré-fabricadas, plantas baixas refletindo estruturas sociais de fora, como as cozinhas no modelo sueco implantadas em Yekepa, e os eletrodomésticos da vez. “Parecia que estávamos em um subúrbio de Estocolmo”, diz um dos entrevistados, estrangeiro que morou na cidade. Aliás, Uppland, ou “terras altas”, é uma província situada ao norte da capital sueca.

“A vida lá era legal, mas não era real”. As imagens de arquivo nos mostram corpos brancos em piscinas, como um sonho meio decadente, uma propaganda que precisa vender não apenas o produto, mas um estilo de vida onde aquilo faça sentido. Refletindo a cisão e a falta de continuidade no tecido social e urbano do local, o filme é dividido em quatro partes: Yekepa, a cidade da LAMCO; Old Ye’kepa, a cidade que havia antes da chegada da mineradora; New Yekepa, a tentativa de reestruturação da cidade após o fim das atividades de exploração, e Estocolmo. Da Old Ye’kepa temos um plano parado, mostrando uma planície encoberta pela vegetação, enquanto um dos habitantes locais nos descreve o que houve ali algum dia: cerca de 150 casas, e em frente a elas a casa do velho Yeke, espécie de liderança. Parecendo não reconhecer a si mesma, a cidade oscila entre identidades e a tentativa de ser o que não é, não sendo finalmente coisa alguma.

Das iniciativas posteriores de recuperação do local e atuação junto à população originária, nenhuma foi bem sucedida, deixando o legado de uma população que, desenraíiada de suas tradições e modos de vida, se viu dependente de um modelo para o qual não mais eram úteis. “É uma pena”, diz um dos entrevistados suecos, de sua casa confortável. Em uma das sequências da última parte, denominada “Estocolmo”, onde todo o maquinário que serviu à extração do ferro e da montanha é mostrado em estado de abandono, como ruínas de um sonho já nascido com rachaduras, Lawreson nos conta de um episódio quando filmavam dentro de uma propriedade privada e percebendo a aproximação de uma SUV, guardaram os equipamentos crendo se tratar de seguranças: eram na realidade moradores querendo saber se “a mineradora tinha voltado”, e, ao saberem que não, não escondem a decepção. Anseiam, de mãos e olhos vazios, a volta de um tempo que nunca foi deles, vindo de fora e desconsiderando seu passado e seu futuro, e o filme nos deixa neste mesmo limbo, quando nestas cenas finais somos informados pelo diretor de que gostariam de ter filmado mais, mas tinham que voltar para a Europa: o que conseguiram foi isso.

¹LAMOSO, L. P. Os territórios da mineração sob a lógica da acumulação financeira no capitalismo contemporâneo. Geousp – Espaço e Tempo (Online), v. 21, n. 3, p. 718-736, dez. 2017. ISSN 2179-0892. Disponível em: