Por Dandara Cipriano

Como falar para o meu melhor amigo branco, que ele também é meu opressor? Talvez seja essa a pergunta que liga todos nós negros. E é em meio a uma plateia majoritariamente branca que o Vinícius aponta a câmera como um dedo indicador e diz: “ei, tô falando com você aí!”

Quantos eram para tá?, assim como Deus – primeiro curta do diretor, fala sobre espaço do negro na sociedade. Porém, esse negro se apresenta crescido, sai do apartamento de Cohab e invade os espaços universitários. A partir daí, ele entende que para o branco é até legal cumprir a cota de ter um negro na mesma sala de aula ou ficar com uma preta, mas exigir que seja percebido um negro para além da sua condição de raça… aí é demais.

O real e o fictício se confundem nos quadros aqui. É como se a fotografia dançasse de mãos dadas com os atores e criassem juntos um grito agudo que ecoa “eu não aceito continuar sendo o animal de estimação da casa grande”. Na contracorrente do que vem sendo colocado em cena sobre vidas negras, Quantos eram para tá? não busca vender sofrimento negro ou reforçar o lugar de pena no qual sempre é colocado o povo preto. Ele se constrói a partir de situações reais ocorridas na vida pessoal do Vinícius, da Dandara e do Luís. Funciona para conversar com a classe média branca e fazê-la olhar para si mesma. Vinícius, através do riso irônico, acusa esse lugar cômodo de permanecer na tela de um Iphone apontando no Twitter os privilégios do vizinho, sem ousar refletir sobre esse posição de poder pensar sobre esse vizinho e ainda ter suas contas pagas no final do mês.

Ao falar sobre “palmitagem”, Dandara e Luiz tentam explicar os seus gostos. É só um gosto, ou será mais uma reprodução de uma estética racista que nos violenta e faz com que até nós negros, não enxerguemos corpos negros como opção? E mais uma vez, o filme abre para perguntas impossíveis de serem respondidas, entretanto necessárias a serem pensadas. A estética do filme tem um diálogo direto com a série Atlanta, e assim como a série, o rap é um importante instrumento pelo qual as ideias são conectadas. Mas não só, no decorrer da película, o Vinícius relaciona inúmeros elementos estéticos que o construíram, desde a cultura visual norte americana do mainstream musical até a necessidade de ressignificar quem nos coloniza .

Não é negado o tom humorístico no jogo cênico. Mas como não sentir um estranhamento que beira o incômodo ao ouvir risadas na platéia em cenas sobre o aprisionamento vivenciado pelo negro ao conseguir espaço, mas nunca igualdade? E a mesma plateia que ri, é aquela que aplaude ao final do curta. Todavia, compete a nós refletirmos: A risada vem de uma falta de reconhecimento no discurso apresentado, ou medo de ser desmascarado? Se tem uma coisa que fica claro ao final da exibição, é que a casa grande continua a optar por percorrer o caminho da hóstia, e assim, acham que assistir um filme roteirizado, dirigido e atuado por pessoas negras é o suficiente. O curta se encerra fora do quadro. Nesse momento, é como se Quantos eram pra tá? e Deus trocassem olhares enquanto as frases da música da Rihanna ressoam em um frame verde, ao mesmo tempo que Dandara, Luiz e Vinícius olham para tela e reiteram aos espectadores brancos: Parem de usar nossos corpos somente como objetos cênicos e nos paguem em dinheiro a dívida histórica que vocês tem conosco.

Quantos eram pra tá? é um filme que responde muito além do que estamos perguntando, sobretudo, por ser um filme que não busca responder nada. E principalmente, possui o necessário para uma obra de arte ser consolidada: revolução. Acredito que para ser político um filme não precisa responder a um questionamento de temáticas-chave, mas necessita por em prática algo que somatize em uma realidade para além dos muros da intelectualidade demarcada. É impossível totalizar em palavras a dimensão a qual Vinícius, Dandara e Luís nos levaram. Contudo, concluo: o cinema negro é sentido, o assista com olhos fechados.