Por William Oliveira

Não é à toa que o título do novo curta do diretor Vinícius Silva é uma pergunta. Não uma pergunta qualquer: “quantos eram pra tá?” – que serve como espécie de radical para outras perguntas. O título é reflexo direto dos inúmeros questionamentos que atravessam a juventude negra atual. Começa com um rap como trilha (“Eram pra Tá”, de Sant) enquanto vemos os três protagonistas – Dandara, aluna de Ciências Sociais, Luiz, de Teatro, e Vinícius, de Cinema – nas suas rotinas de acordar e ir pra aula na universidade. De origens claramente diferentes, os três têm em comum o fato de serem negros e estudantes da USP. De uma maneira muito sagaz, o filme já destaca os três personagens daquele ambiente universitário a partir da própria mise-en-scène: são sempre as únicas pessoas pretas em quadro, no meio de várias pessoas brancas.

Não demora muito a entrar no próprio enredo tal separação. Os diálogos entre os três evidenciam a questão de serem negros nesse ambiente universitário majoritariamente branco que os segrega a todo instante. Seja nos diálogos no banheiro com a amiga branca de classe média que estudou na melhor escola de São Paulo, seja institucionalmente, como na aula da professora branca que se gaba de ter interpretado uma pessoa pobre mesmo com cara de rica, o meio acadêmico se mostra em Quantos eram pra tá? como mais um ambiente que reflete as opressões a minorias existentes na sociedade que é estruturalmente racista, machista e homofóbica. Já aqui surge um questionamento a se fazer enquanto negro universitário: como passar por esse ambiente e manter sua essência, não usar uma “máscara branca” como estratégia de sobrevivência? O diálogo entre os três protagonistas sobre “palmitagem” é simbólico desse questionamento. Se Fanon diz em Pele Negra, Máscaras Brancas que o relacionamento interrracial para o negro ou negra é exemplo de uma busca por humanidade que reproduz o racismo estrutural, como não se relacionar com um branco quando já se foi rejeitada por vários homens negros, como Dandara diz? Quando a mesma Dandara conversa com uma amiga branca no banheiro e a última discorre sobre a mesquinhez dos riquinhos da USP que estudaram no melhor colégio de São Paulo, Dandara contrapõe dizendo que a amiga também estudou lá. No fim do diálogo a amiga branca devolve uma provocação: “Se tu tiver um filho tu vai colocar ele em que escola?”. A cena corta antes de uma resposta.

Em outro ponto do filme, os três estão conversando na mesa de um bar sobre a vida e o assunto é o racismo e a situação política do país naquele momento. Filmado antes do resultado das eleições de 2018, obviamente não é representativo da perspectiva do que estava por vir, mas a questão proposta ainda é válida hoje: como se engajar em uma luta de esquerda que não represente uma alforria verdadeira? Quando Vinícius reclama na cena que “foda-se Dilma” trata-se do símbolo de uma geração que se decepcionou com os governos da esquerda por estes não terem proporcionado um maior avanço em direção a uma sociedade menos racista. Mas ao mesmo tempo não basta ter uma visão de mundo como a dos três ali em cena se esta não catalisar uma luta concreta pela mudança do mundo. E esse é mais um questionamento com o qual a juventude negra tem que lidar: se a luta em conjunto com a “esquerda branca” já não é válida, como desenvolver uma resistência que não seja segregada, sem também abrir mão de pautas essenciais em nome disso?

Quantos Eram pra Tá? tem um público específico. Com várias cenas que se passam em ambiente acadêmico, e com três personagens principais que estudam na USP, o filme se comunica especialmente com quem tem familiaridade com esse universo. Em três cenas distintas vemos cada um em sua aula, lidando com o deslocamento provocado por ser negro numa instituição feita por brancos para brancos. Luiz saindo da aula quando a professora fala que mesmo sendo branca e bem nutrida conseguiu interpretar uma pessoa pobre; Dandara sendo a última a entrar na sala cheia de brancos; Essas cenas são de fácil identificação para quem vivencia isso todos os dias. As cenas inclusive são filmadas sempre em um plano único, a câmera no tripé enquanto a ação acontece. Essa estrutura, que poderia manter distante o espectador, parece não o fazê-lo aqui, dada a forma como o filme foi ovacionado em sua estreia no festival. Talvez porque grande parte do que está acontecendo ali é muito característico da vida universitária: as aulas, as conversas e as festinhas no campus, os bate-papos na mesa de bar. Mas como essas cenas se comunicam com pessoas que nunca tiveram contato com a vida universitária? É muito emocionante ver-se em tela, enquanto negro universitário (como muitos que estavam nas cadeiras do Cinema São Luiz na estreia do filme), mas isso provoca também mais conflitos: o de saber que estar ali e poder se reconhecer nesse filme são privilégios desfrutados por uma minoria negra, assim como o de saber que é preciso carregar nos ombros o peso de representar várias pessoas que não tem esses privilégios.

Esses vários questionamentos levantados ao longo do filme são conflitos que permeiam a vida de praticamente todo jovem negro universitário hoje, ao lado de todas as outras questões que são inerentes a qualquer juventude. O que o filme faz é apresentar um caminho: a união. Os três estão sozinhos na sala de aula, mas estão juntos nas festinhas, na mesa do bar, nas rodinhas de conversa no campus. A sequência de abertura apresenta os três acordando cada um em sua casa sozinho, enquanto na cena final vemos os três juntos dançando ao som de Bitch Better Have My Money de Rihanna. Quantos Eram pra Tá? deixa claro que, se estamos todos e todas no meio desse turbilhão de questões que transcendem até nossa própria individualidade, o caminho para obtermos essas respostas só pode ser a união, o abraço, o diálogo, o afeto.