Por Carol Lima

Respire… Inspire. Somos guiados em um tutorial de ioga por uma voz distante. A atmosfera do extenso verde do gramado rodeado por árvores é transcendental. A primeira imagem de nossa instrutora de ioga, captada com o aspecto antigo de uma gravação em filmadoras de mão, logo muda. Agora estamos vendo o mesmo tutorial numa perspectiva mais distante, captada numa câmera de resolução superior. E muda. As poses de ioga são agora captadas do alto por um drone que nos dá acesso a todo o ambiente. O flutuar pacífico das câmeras ao longo dos primeiros passos do tutorial sugere que a proposta de “My Expanded View” é deixar-nos imersos nessa atmosfera etérea e tranquila, no que soaria quase como uma meditação guiada dentro de uma sala de cinema. Eis que em certo ponto a voz pacífica da nossa guia se transmuta na agonia de seus próprios pensamentos enquanto executa uma das poses: “Meu pescoço dói. Me ajuda. Por favor. Alguém?”. Sua súplica ecoa no espaço que parece infinito no gramado.

Os diferentes tipos de câmera antes percebidos no início do filme apenas pela mudança na qualidade da imagem agora se mostram dentro na tela. A filmadora em HD filma de perto a filmadora de mão, que devolve o olhar. O drone observa ambas as câmeras por cima. Entre outras câmeras, surge uma que detecta o calor do ambiente. Nossa guia continua no centro dos múltiplos olhares que se cruzam com o mesmo objetivo: monitorá-la.  No filme, nota-se uma hierarquia entre os olhares que monitoram. Há a instrutora, há câmeras no solo, há o drone no alto, monitorando-os. Não pude deixar de pensar numa analogia com o uso das mídias e redes sociais, onde os usuários estão cada vez mais expostos aos olhares externos, às críticas, aos julgamentos dos outros usuários, e também nos casos vistos recentemente sobre a utilização dos dados privados dos usuários por algoritmos de computador por empresas com interesses políticos e econômicos.

“Alguém?”. Nossa instrutora continua a gritar por ajuda em seus próprios pensamentos. Nós não podemos fazer nada. Somos um dos olhares que se cruzam a lhe observar. As pessoas que estão a filmar não se movem para tentar ajudar e não percebem as súplicas no rosto dela. Presos em nossa zona de conforto, assumimos uma distância em que o observar é mais preferível do que o agir. Corey tece uma crítica à sociedade que se encontra extremamente monitorada por seus avanços tecnológicos. Não só a isso, mas a uma sociedade onde por vezes assumimos uma posição unicamente passiva diante das coisas, sem ao menos tentarmos mudar certos contextos da realidade em que vivemos, mesmo que não estejamos de acordo. Enquanto muitos usuários permanecem na superfície das redes sociais a monitorar outros usuários e se prendem mais em observar do que agir, como as filmadoras que não saem do seu lugar comum no gramado e não percebem as súplicas no rosto da nossa guia, outros ainda mais acima monitoram todos nós, como o drone que sobrevoa o ambiente. E conseguem informações que nem imaginávamos ser capazes de se conseguir, como faz a câmera que detecta o calor. Não há limites para a monitoração.

Em torno desse frenesi de olhares cruzados nos falta fôlego, pois a instrutora de ioga continua a pedir por ajuda. Se não tivéssemos acesso aos seus pensamentos narrados em off, seríamos mais um desses olhares que mesmo monitorando permanecem alheios. Somamos a esses diferentes tipos de câmera mais uma visão. A dor dos ecos não escutados na voz da nossa guia rompe de vez com o breve clima transcendental.

É interessante pensar em como o jogo com a monitoração e a atenção exacerbada que passamos a possuir aos olhares externos enquanto assistimos o filme se constrói tendo como ponto central sua antítese: uma sessão de ioga que instigaria justamente o olhar para dentro de si e não para fora. É aí que My Expanded View nos surpreende. Acabamos a sessão com a visão expandida, realmente, mas não do jeito que deduzimos expandir com base em seus primeiros instantes. A condução experimental do curta poderia ter sido usada em seu lugar comum: os diferentes ângulos e texturas das imagens poderiam soar como a travessia interna que se conquista em uma sessão de ioga ou meditação, simulando um flutuar pelo ambiente mesmo que permanecêssemos estáticos. Mas a metalinguagem rompeu o lugar comum quando a visão se expandiu para fora. De repente nos atentamos ao fato de que nossos olhos eram uma das lentes que atacavam nossa guia por todos os lados. E que são atacados também.