Por William Oliveira

A primeira sessão exibida no XI Janela Internacional de Cinema do Recife foi um filme da Mostra Brasil Distópico, Abrigo Nuclear. Ambientado num Brasil pós-desastre nuclear que inviabilizou a vida na superfície, ele conta a história da sobrevivência da humanidade em um abrigo subterrâneo. A sequência de abertura é uma espécie de plano de estabelecimento desse abrigo, onde já vemos os sobreviventes ali circulando todos com o mesmo uniforme branco, cinto prateado, que traz a identificação de cada um – três letras e uma sequência de números – até mesmo as crianças. Essa composição denota a negação da individualidade das pessoas que vivem sob aquele regime. Uma voz ressoa no abrigo inteiro ditando instruções sobre várias coisas do dia-a-dia ali, evidenciado o controle de massa daquela sociedade. A líder daquelas pessoas é tratada por comandante, apresentando um certo viés militar também, numa alusão à ditadura militar em vigor na época do filme no Brasil.

Quando o personagem principal do filme, o operador Lat, interpretado pelo também diretor e roteirista Roberto Pires, volta de uma missão na superfície com a informação de que as capacidades de estoque de lixo nuclear estão acabando, a comandante Avo (Conceição Senna) reage de forma agressiva, dizendo que Lat quer apenas “perturbar o sistema com notícias alarmantes”, recusando o relatório de Lat e ameaçando até prendê-lo. Essa situação ilustra muito bem essa característica do fascismo que é a negação da verdade. A razão é substituída por teorias da conspiração, a hierarquia é mais importante que os fatos. Com o decorrer do filme descobrimos que Lat faz parte de um grupo de resistência dentro do abrigo que planeja uma revolução. E o principal plano deles é obter acesso às imagens do passado e transmiti-las para todos, já que elas são proibidas de circular no abrigo. Também é uma das características do fascismo uma idealização do passado, ou, nesse caso, um apagamento do mesmo. É interessante o uso desse artifício em um filme brasileiro feito durante a ditadura, num período que supostamente o cinema brasileiro foi composto majoritariamente pelas pornochanchadas. E é muito relevante vermos esse filme no momento atual, onde o fascismo à brasileira triunfou nas eleições, para espanto de parte do país e do resto do mundo.

Após uma discussão sobre a relevância da superfície entre a comandante Avo e Lat, ela dá voz de prisão ao operador e termina mandando um aviso aos outros: “Minha missão é mantê-los todos vivos e saudáveis. O passado não existe. A imaginação é uma doença fatal.”. A narrativa aceita como verdadeira no abrigo é a de que a vida na superfície é impossível e que qualquer tentativa de se provar o contrário é loucura e um risco à ordem do sistema. É latente a aplicabilidade que isso tem hoje. Com o inconsciente coletivo do país dominado por ideias que negam o passado do tipo “escravidão nunca existiu” ou “prefiro chamar o golpe de 1964 de ‘movimento’ ”, o que há é uma tentativa de revisionismo histórico que busca apagar a nossa visão sobre o passado para afirmar mais facilmente um governo autocrático que passe por cima de vários direitos. As censuras prévias que já estão sendo feitas também são parte disso. Mas esse apagamento não é um projeto recente. Muitos anos de descaso com o Museu Nacional levaram o mesmo a um incêndio que destruiu boa parte do acervo esse ano, grave indício de uma situação decadente pela qual passa a memória material pelo país. Vários filmes como este aqui em questão, que são relevantes politicamente, estão ainda por serem redescobertos, dado o descaso com que sempre se tratou a preservação dos filmes nacionais.

Em Abrigo Nuclear, o operador Lat acaba conseguindo acessar as imagens do passado e depois as transmitir para todos do abrigo. Depois de verem as imagens que revelam que na verdade a humanidade vivia na superfície, mas acabou destruindo a atmosfera através de um sistema capitalista que valorizava mais o lucro e a ideia de progresso do que a vida humana, os sobreviventes do abrigo passam a desrespeitar as ordens da comandante. Assim como na cena em que os sobreviventes assistem juntos a esse vídeo documental, rever filmes do nosso passado é uma ótima forma de compreender nossa história para melhor nos instrumentalizarmos para o presente. Sem a venda sobre a história, dotados de informação suficiente, cada sobrevivente de Abrigo Nuclear conseguiu quebrar suas próprias correntes e se libertarem daquela ditadura que continuava deixando a vida humana em segundo plano. Alguns começam a se livrar dos cintos de identificação, como prova de que a vida humana é mais do que um código em um documento que serve mais como instrumento de controle do que outra coisa. Uma personagem diz que “Agora temos um motivo para viver: recuperar a superfície”.

Abrigo Nuclear é uma ficção científica brasileira no sentido clássico: uma perspectiva de futuro que faz comentários sobre a sociedade do presente. Ver uma cópia restaurada desse filme 37 anos depois do lançamento é poder refletir sobre passado, presente e futuro, e como a memória é fundamental para garantir a liberdade de escolhas no presente.