Por Lorenna Rocha

No ar: Kaniama Show!

Luzes e cores extravagantes formam a vinheta que está acompanhada por som de trompetes. Inicia-se a atração televisiva estatal de um país africano, o qual não identificamos facilmente. Entrevistas e grupos musicais compõem o programa de auditório comandado por dois apresentadores e por uma boa quantidade de câmeras. A plateia acalorada demonstra ânsia pelo entretenimento. Mas o que as pessoas não contavam é que algo de inesperado iria acontecer no estúdio de gravações.

Assinado por Baloji, Kaniama Show é o primeiro filme do rapper congolês-belga. Os quadros que compõem a película lembram a estética de videoclipes como Hey Ya! (OutKast) e Treasure (Bruno Mars). Por ser músico, é possível inferir que a construção estética do curta-metragem sofreu influência direta do seu repertório e gosto musical. Apesar do clima retrô da película, a escolha por músicas inspiradas no funk, rap e afro-beat, gêneros que comunicam-se com o trabalho musical do diretor, conferem ar de futurismo ao filme durante as atrações musicais. As roupas de caracterização dos personagens também reforçam um ambiente mesclado entre o antigo e o novo. A obra se edifica de forma rica e envolvente.

A informação de ser a TV estatal do país que veicula o Kaniama Show provoca questionamentos sobre escolhas de conteúdo, representatividade do governo frente à programação e ainda sobre liberdade de expressão. No filme, durante uma das entrevistas realizadas, o ministro do governo situacionista vai divulgar o novo quadro de concurso musical e o apresentador fala frases do tipo “Você veio aqui fazer a divulgação, mas não vai ficar falando dos seus feitos no governo, não é Sr. Ministro?”.

A entrevista de dois jovens africanos que viajam para outro país com objetivo de produzir conhecimento, também dá impressão que o programa se esforça para a construção da imagem de um governo presente e assistencialista.

Ao contar a história de “superação”, num tom dramático estilo o Hora do Faro da Rede Record, o garoto que viajou para o Canadá agradece ao presidente por tê-lo auxiliado, ao lembrar de como não conseguiu se adaptar ao outro país. Frustrado ao afirmar que não atendeu às expectativas dos contratantes, narrou também como sofreu anulamentos para tentar se adequar a um mundo que não o comporta, revelando o apagamento violento que nós nos submetemos, em função da busca por esse modelo imposto. Do mesmo modo, Baloji não abre mão do apontamento crítico ao produzir diálogos que revelam a lógica de exportação de conhecimento para países “desenvolvidos”, fazendo com que os cidadãos não contribuam para o fortalecimento do país através da produção científica e tecnológica.

As cores extravagantes do quadro se juntam aos tons sutis de sarcasmos e planos que resultam em um jogo cênico caricato, ajudando a manter o ambiente em estado permanente de estranha alegria, mesmo que estejam fazendo críticas a projetos neocoloniais e aos produtos culturais hegemônicos. Tudo é feito em exagero: desde a forma de falar dos apresentadores, suas roupas e a maneira persuasiva em que as atrações musicais são anunciadas. É possível inferir uma crítica ao “way of life” televisivo que acaba desviando a atenção e limitando o que se é consumido pela maioria das pessoas nos mais diversos países, produzindo um efeito de estado de normalidade e prazer.

Porém, para adentrar ainda mais à realidade de Kaniama Show parece ser necessário compreender a realidade do continente africano. Tendo em vista que a produção artística dialoga com o espaço-tempo, a referência do país de origem do diretor, República do Congo, pode fazer com que as perspectivas frente ao curta se ampliem.

A República Democrática do Congo presencia contínuo estado de guerra há anos, desde o processo de libertação nacional nos anos 1950. A conquista pela instauração do governo democrático foi algo que custou milhares de mortes ao país, sendo este marcado por guerras identitárias e conflitos de interesses políticos e econômicos.

O atual presidente, Joseph Kaliba, assumiu seu primeiro mandato após o assassinato do seu pai, ex-presidente do país, em 2001 e foi reeleito por três vezes. Em 2016, esperava-se novas eleições governamentais. Entretanto, Kaliba adiou a nova disputa, alegando problemas no recenseamento eleitoral. A decisão vem causando reações expressivas da população, que se posicionam firmemente contra as atitudes arbitrárias e autoritárias do governo. Ainda que Kaliba se mostre antidemocrático, reprimindo manifestações políticas e assassinando opositores, a resistência segue viva no povo congolês, mesmo que isso lhe custe mortes, prisões e exílios.

Pensando na realidade política do Brasil e na situação que estamos passando em relação à mídia brasileira, a qual arquitetou o golpe de 2016 e construiu o sentimento de anti-petismo de maneira sistemática, sem ao menos conseguir controlar os próprios monstros criados… Qual seria, então, o papel da mídia, frente ao governo despótico no Congo?

Seria então, a experiência forjada do Kaniama Show, algo que acontece no cotidiano da república congolesa?

Na cena de comemoração do aniversário da atriz, que anteriormente estava sendo entrevistada sobre o lançamento da nova temporada da série em que atua, o show da banda favorita dela é transmitida e o sinal é interrompido após a câmera focar em um rapaz vestido com uma máscara africana e que levava em punhos o objeto católico “jesus cristo crucificado”, cantando uma música que falava sobre a igreja. Será aleatória essa escolha, tendo em vista que nos três últimos anos o governo congolês vem perseguindo manifestações da Igreja Católica, pois reconhecem a força da Instituição enquanto oposição?

Fazendo juz ao “way of life”, em nenhum momento, o curta deixa evidente o rumo que o enredo vai tomar. Ao espectador, há sensação de surpresa e de dúvida frente aos desdobramentos possíveis, até o ponto crítico do filme. A invasão de um grupo armado na estatal que anuncia a tomada de poder deixa para lá qualquer ambiente festivo que foi embalado segundos antes por batidas de músicas potentes.

Esta é apenas uma possibilidade de leitura, considerando um curta-metragem como Kaniama Show que se mostra maior do que essas linhas aqui escritas podem dar conta. A acidez, ironia e sarcasmo constrói a narrativa que, sutilmente, vai destruindo a ideia de um simples show de luzes de um auditório entusiasmado.

Ter um filme como esse compondo a programação do XI Janela Internacional de Cinema do Recife é de grande acerto. Necessário, potente e surpreendente, o filme de Baloji é aviso sobre a necessidade de estar sempre atento. A luta pela democracia é maior do que um programa televisivo pode nos mostrar, em seu jogo de tentar esconder.

É preciso estar atento.