Por Letícia Batista

“Não perguntem nada: as razões são longas
Não perguntem nada: as razões são tristes
Não perguntem nada: nós estamos contra
E talvez perdidos.
E talvez perdidos.” (David Mourão-Ferreira)

Viajar: sair de um lugar que você está acostumada. Quase como uma pequena fuga, mas sempre necessária. Gosto também da sensação da partida. Sempre dá um aperto no coração e uma vontade de querer ficar – mas sabendo que é essencial voltar. Apesar de gostar de viver tudo isso, às vezes, não tenho dinheiro suficiente e só me restar viajar um pouquinho pelos lugares vendo imagens ou me aventurar pelo Google Earth.

O filme de Juliana Antunes nos traz essa vontade da personagem Marcela de viajar, de sair literalmente pelo mundo e até pelo tempo. No começo, vemos Marcela com um celular na mão, recebendo alguma mensagem da sua operadora de teletransporte. Estamos em 2016 e há essa tecnologia do celular, onde inclusive, a passagem de teletransporte fica mais barata do que pegar ônibus. Fiz algumas vezes de ônibus o trajeto São Paulo – Recife, com o programa do ID jovem, onde tenho grande desconto na passagem. O que ela tem de longe, tem de cara. Não é difícil pensar na vontade da fuga e o não poder ir.

Nossa personagem abre o aplicativo de teletransporte e escolhe seu destino: Nova Iorque. Chegando em seu destino, vemos que não é Nova Iorque dos Estados Unidos, mas um bairro urbano na grande Belo Horizonte. Percebemos que o plano de Marcela não cobre viagens internacionais. Mas ela não deixa de tentar sair à qualquer custo deste lugar que ela está, desse não lugar. A cada tentativa de se teletransportar, vemos algumas imagens de arquivo, algumas sobre problemas políticos, como Dilma na época do impeachment.

Marcela, em uma das várias chegadas em lugares errados, se vê em uma avenida e a procura de um sinal para poder ir para o próximo lugar. Andando, sozinha em uma avenida, no meio da tarde, vazia, sua cara é de preocupação. Aqui conseguimos ver o medo de qualquer coisa ali pode acontecer. Esse medo que atinge como um todo, nós mulheres. Aparece um carro com homens a chamando para entrar. Sentimos o medo, passamos o medo. Em uma nova tentativa de encontrar um lugar, ela aparece do lado de uma antena, depois em outro lugar e vemos mais imagens de arquivo, onde há uma moça atirando em um homem. Quando vemos estas imagens de arquivo e a forma como ela foi montada, conseguimos perceber do que Marcela foge. De uma sociedade completamente machista e de um golpe que desencadeou uma loucura política no Brasil, aliás, um golpe que além de tudo, foi machista. Sabemos que mesmo com toda uma loucura, se nosso presidente fosse um homem, mesmo do PT, talvez ele não teria sofrido um golpe. A narrativa “paralela” das imagens de arquivo nos consegue mostrar o porque a nossa personagem foge.

Quando Marcela chega em um bar, vemos estética do filme mudar. Parece uma gravação de VHS. Marcela chegou em outro lugar. Se serve de uma cachaça e encontra um homem gay. Na conversa, sabemos que estamos nos anos 90. Nosso novo amigo, também está perdido e fugindo. Os dois agora estão nesse não-lugar. Se juntam agora nessa jornada, talvez nunca se encontrem, mas pelo menos não estão sós. Nas conversas, eles falam o porquê da fuga e todas pelo mesmo motivo: cada um não se adequa ao tempo que vive.

A partir do encontro dos personagens, não só a estética que muda, mas a narrativa também. Não vemos mais uma mulher com medo, não há solidão nas viagens, temos agora dois amigos viajando entre espaço e tempo. Conversando, compartilhando experiências dos anos que cada um viveu. Nosso amigo é dos anos 80, Marcela de 2000. Cada um vive o tempo do outro de uma forma. No final, não sabemos pra onde nossos personagens vão, mas há uma leve sensação de esperança, não só para eles, como para nós também.

Depois da Derrota, nome da sessão em que o curta passou no Janela, mostra de várias formas um futuro incerto, mas com sementes de mudanças. Em tempos como esses, é bom saber que há várias possibilidades de futuro. Queria dizer pra Marcela que entendo sua fuga. Se eu tivesse esse aplicativo, tenha certeza que ia me aventurar nessa sua jornada. O não-lugar é o espaço em que não sabemos onde estamos, para onde vamos, onde nos perguntamos: quem somos? Neste momento do Brasil, pós eleições presidenciais, onde legitimou-se um fascismo, o não-lugar é algo que quase todos, após a derrota, estamos sentido. Mas é importante saber, que apesar disso, sabemos que não estamos sós. Há esperança.