Por Lorenna Rocha

A vivência universitária sempre foi branca no Brasil. Nos últimos anos, a entrada – e permanência – de jovens negros e negras na universidade, devido às políticas de ações afirmativas, ainda enfrenta dificuldades de ser reconhecida como algo relevante e modificador das estruturas sociais que edificam as desigualdades no Brasil. Em Quantos eram pra tá?, Vinícius Silva, diretor e também ator no curta-metragem, apresenta três jovens universitários – negros – encenados por ele, Dandara de Morais e Luiz Felipe Lucas, que dividem entre si a experiência de ocupar um espaço o qual não foi pensado para eles.

Um plano médio e uma câmera parada: na sala de aula, a professora branca ocupa o espaço dando aula para todos os alunos que também são brancos, até que entra Dandara sendo a única negra no espaço. Planos como esse nos lembram como a branquitude se manifesta com sutileza. Aos olhos de quem acredita na democracia racial defendida por Gilberto Freyre, episódios como esse não são violentos. Entretanto, o corpo preto o sente. E, compartilhar tais experiências, que podem ser classificadas por terceiros como corriqueiras e nenhum pouco traumáticas, com os amigos negros é também forma de resistência. Ou seja, o ato de dividir entre eles suas histórias acontece como forma de abrigo, frente a uma negritude que os une, independente das diferenças de gênero ou classe.

O curta-metragem se passa no campus da USP – que foi a última universidade do Brasil a aderir a Lei de Cotas. Dialogando as experiências vividas pelos próprios atores, perceber o ambiente universitário no filme perpassa por dimensionar o racismo expresso de múltiplas formas: seja na grade curricular, com a valorização de intelectuais brancos, em detrimento de negros, ou pelo corpo docente majoritariamente branco, o espaço do campus insiste em reforçar que os corpos negros não foram pensados para aquele lugar.

Enquanto espectadora negra, não foi preciso ativar o “olhar opositivo”, conceituado pela teórica e ativista Bell Hooks, para ver o filme. Lembrei dos relacionamentos que tive com jovens brancos, que também preferiam as mulheres brancas, como conversado por Dandara de Morais, ao tratar sobre a solidão da mulher negra no filme. A experiência de ser o único corpo preto no restaurante “caro”, como o de Luiz, também já foi a minha. Ao ver um único docente negro na película, não precisou de muitos segundos para eu recordar quantos professores de pele escura tive durante minha vida acadêmica.

Durante uma conversa de bar entre os personagens, algumas frases como “democracia é o caralho!” ou “entre esquerda e direita, eu sou mulher negra!” são ditas. Por um momento, pensei se aquilo não soaria hostil. No último mês, vivenciamos uma corrida eleitoral no Brasil que, justamente, o mundo todo nos avisava sobre como a democracia do Brasil poderia estar em ameaça. Será que o conceito de “democracia” comporta a negritude? Qual o poder exercido pelo povo negro no Brasil? Que esquerda é essa que ainda não consegue enxergar a questão de raça como estrutural, ao ponto de expurgar de si a branquitude que lhe rege, sob a premissa de “pensar diferente” de seus iguais?

Com estreia mundial realizada no XI Janela Internacional de Cinema do Recife, ao lado do filme Temporada de André Novais de Oliveira, o curta se faz dentro de uma pauta democrática, que é a discussão sobre o acesso de negros nas universidades públicas. Ao mesmo tempo, tenciona o quanto pode ser problemático, dentro de uma sistema de branquitude, o mascaramento de privilégios que não querem ser colocados em xeque em frente a discursos de ordem democrática. O curta-metragem de Vinícius Silva está menos para respostas do que para perguntas.

No final da obra cinematográfica, o som de “Bitch Better Have My Money” (Rihanna) junto aos takes que pareciam uma produção de um vídeo caseiro feito pelos três amigos tornaram o ambiente propício para que palmas e gritos ecoassem pela sala de cinema do São Luiz. O que não deve passar despercebido é a resposta ovacionada do público de um festival que ainda se faz na branquitude da classe alta e que, em maior ou menor proporção, reproduz racismo pela dificuldade de se ver como opressora. Em meio as sutilezas do cotidiano, o diretor abre caminho para a autocrítica branca, frente às experiências de jovens negros que sofrem por condições impostas de um sistema que persiste em não nos conter. O direito do erro é necessário. Mas até quando as pessoas brancas levarão as pautas ditas “progressistas” como escudo para não se exporem?