Por Lorenna Rocha

A primeira cena põe na tela mostra um casal trocando afetos. No próximo momento, o clima amoroso é cortado. O homem, que trocava carinhos anteriormente, aparece com uma arma em punho. De forma sorrateira, o personagem observa dois homens que estão planejando fazer caça no meio da mata. Se no primeiro ato é possível deduzir que o filme será sobre um relacionamento comum, o próximo fragmento dá clima de tensão que possibilita um novo olhar sobre a película. Não estamos falando de romance.

O homem que surpreendeu todo mundo, dirigido por Natasha Merkulova e Aleksey Chupov, foi inspirado no local onde a co-diretora nasceu e teve conhecimento da história de um russo que enganou a morte. A trama se passa num ambiente rural e pacato. As casas distribuídas no espaço se aglutinam na paisagem junto a floresta e neve. Mórbida e normatizada, os tons de branco e verde da pequena cidade são compartilhados com as pessoas que se mostram ordeiras. Atividades e costumes se mostram repetitivos e assentados. Ao observar as pessoas dessa cidade, até mesmo as roupas apontam para a normatividade: não há diferenciação entre suas vestimentas.

Os personagens principais da história, Egor (Evgeniy Tsyganov) e Natalia (Natalya Kudryashova), são um casal que correspondem aos padrões normativos: brancos, heterossexuais, casados e pais de dois filhos. Enquanto o marido trabalha como guarda-florestal, a mulher cuida da casa e do seu pai: a divisão de gênero do trabalho também se situa na norma. Centrado o enredo nesse casal “exemplar”, a paleta de cores frias da película anuncia um mistério que se apresenta aos espectadores após um diagnóstico: Egor sofre de câncer terminal. A estabilidade da família é, então, colocada em risco.

Ao descobrir a situação de saúde do marido, da alta medicina à métodos alternativos, Natalia busca pela cura de seu companheiro. Em uma dessas tentativas, Egor se encontra com uma curandeira xamânica que conta a ele a história de um ser que conseguiu enganar a morte. A fábula contada por ela reverbera durante todo o filme. Apreendendo o que fora contado pela senhora, Egor decide enganar a morte. O personagem passa a performar o gênero oposto. Mesmo inserido em um espaço onde as referências do “ser feminino” ou “ser masculino” não tem grandes distinções, Egor retira de algum lugar a referência da feminilidade exacerbada, dentro do que espera “ser mulher”, ao se montar com vestido e batom vermelhos, meia-calça e bota.

Frente a uma cidade estruturada no preto e no branco, a desestruturação das lógicas binárias expõe o corpo travestido de Egor à rejeição, humilhação, ridicularização e violência. O espaço não comporta a dissidência do personagem. A rejeição começa em casa, quando Natalia se põe ofensivamente contra ele e seu corpo estranho. Escondido com um monstro no quarto externo da casa, a câmera leva o espectador a experienciar o ambiente de pouca luz e o olhos que só vê a paisagem do mundo exterior por pequenas janelas. A sensação de enclausuramento se forma através das imagens. Afastando-o de todos, Natalia justifica a ausência de Egor nos cafés-da-manhã da família alegando que ele está doente e precisa ficar sozinho. Como disse um dos vizinhos, na tentativa de invadir a casa para reconhecer aquele corpo não-convencional, se fosse para morrer, que ele morresse normal.

Como num ato de liberdade, Egor sai às ruas. A escolha por planos abertos mostra o contexto daquele corpo “errado” em meio à paisagem repetitiva. Até sair dos limites da cidade, o conjunto de olhos sob o corpo dele reforçam o desconforto daquela imagem, como forma de exclusão, regulação e destruição. O desejo de regularizar os corpos se mostra de forma violenta, quando um grupo de homens decidem atacar o personagem entre socos e chutes em frente de sua casa. A cena é interrompida pela pessoa menos provável: o seu sogro com quem ele não tem boas relações.

A partir desse momento, o personagem passa a não falar. O silêncio do filme faz com que nossos olhos fiquem cada vez mais atentos. Os sons da cidade e da floresta que gritam normatividade funcionam como tentativa de controle do corpo errático de Egor na paisagem que ameaça o status quo. A estrutura pura da cidade é colocada em crise. Ao se afastar de onde mora, Egor tenta se refugiar em uma cabana que encontra no meio da floresta. Mas a violência está em toda parte e, após ser descoberto enquanto “travesti” pelo homem que o assediava, Egor é levado para as matas e é estuprado por um dos amigos do forasteiro que perdeu uma aposta. A marginalização se faz na cena na pior condição possível: a violação do corpo do personagem.

A discussão sobre transgressão frente a normatividade é urgente. Como combater os olhos reguladores da sociedade e de suas instituições? A quem serve a constância da norma? Quanto custa a liberdade dos corpos? O uso da violência em cena é artifício para expor o quão doentio podemos ser, a troco da manutenção de um espaço imaginado em uniformidade. Contradições não são bem vindas. É preciso domar o inimigo para que ele não se multiplique. O homem que surpreendeu todo mundo escancara o modelo violento da normatividade, denunciando a prática violenta que estrutura o status quo.