Por Gabriela Souto Maior

É tarefa da ideologia dominante fazer-se passar por algo dado e natural, de forma a ocultar os mecanismos pelos quais atua e “as razões de ser de um sem número de problemas sociais”, como diria Paulo Freire. Dessa forma, há um esforço no sentido de fazer com que as classes subalternas se identifiquem com os ideais e valores da classe dominante, assimilando-os e reproduzindo-os como algo que também os pertence, e dessa forma conformando-se à estrutura vigente, aceitando jogar um jogo que, de partida, não pressupõe a sua vitória.

Ao mesmo tempo, é possível caracterizar uma nova espacialidade nos centros urbanos, surgida a partir da dinâmica da produção capitalista do espaço, que difere de experiências citadinas anteriores. Neste modelo, as cidades são “forçadas a mimetizarem a ordem capitalista e suas consequências”, gerando efeitos como a fragmentação e segmentação social e espacial; a hierarquização; a exclusão; a redução, amesquinhamento e privatização dos espaços.¹

É com a matéria desse contexto e das contradições que nascem dele, que Mesmo com tanta agonia, de Alice Andrade Drummond, trabalha. Dividido em três partes distintas e operando com uma noção ostensiva de descontinuidade narrativa, o filme acompanha a jornada diária de uma mulher negra nas esferas do trabalho, deslocamento na cidade e família. Temos, de largada, três momentos muito diferentes e aparentemente desconexos entre si, reproduzindo a fragmentação do espaço urbano e a passagem dos indivíduos de um espaço fechado a outro, atuando em bolhas de isolamento que dão a impressão de não estarem relacionadas entre si, esboçando um individualismo que atua não apenas no campo das ações, escolhas e pensamentos, mas na própria sensação espaço-corporal de sujeito distinto e separado dos demais.

No primeiro momento, a protagonista Maria aparece em seu local de trabalho, um restaurante, onde o tempo é cronometrado para a entrega dos produtos (refeições) com precisão robótica. “30 segundos!”, “40 segundos!”, anuncia o chef, juntamente com a descrição do prato a ser entregue. O ambiente é branco, limpo, asséptico, com iluminação uniforme: impessoal. O expediente encerra e, em um breve momento de filmagem em espaço aberto, a personagem caminha pelas ruas até o metrô. Novamente dentro de um espaço fechado, com closes nos rostos cansados dos trabalhadores, a viagem é interrompida por tempo indefinido em função de um corpo nos trilhos, “um usuário na via”. Logo depois, o anúncio de que o trem passaria por cima mesmo do corpo, já atropelado. Cabe notar a estratégia de reordenamento de subjetividade que se impõe numa sociedade capitalista no sentido de moldar todo o contexto social sob seu domínio. Não se refere a cidadãos, mas a consumidores, usuários, clientes: ele evidencia, para quem estiver atento, como realmente nos vê e a que servimos.

O fluxo segue. É possível entender a apatia nas grandes cidades como resultado também de uma insensibilização/filtro para a quantidade infinita de estímulos e anônimos que nos interpelam o tempo todo. Juntamente com jornadas exaustivas de trabalho e condições precárias de moradia e transporte, isso nos levaria, caso não houvesse essa anestesia dos sentidos,  à conclusão de que se trata de uma situação insuportável, um modo de vida insustentável e triturador demais para ser experimentado. A produção da apatia torna-se  “necessária” para tornar suportável o trabalho repetitivo e a vida sem espaço para surpresas ou encontros na cidade capitalista. Forma-se um ciclo vicioso de achatamento das subjetividades e perda das nuances de significados possíveis de mundo, que se reflete de forma importante inclusive na linguagem e na relação com as palavras e formas de articular sentimentos e impressões sobre a realidade.

Maria chega ao terceiro momento de sua empreitada em três atos: o aniversário de sua filha, Júlia. A comemoração consiste no aluguel de uma limousine, onde, com algumas poucas amigas de sua idade – que não deve passar dos treze anos -, roda-se pela cidade sem sair de seu mundo particular. Luzes coloridas, música, e um celular com uma câmera e haste para selfies, todo o aparato dessa comemoração vem para o usufruto por alguns instantes de algo a qual poucos têm acesso, mas que se coloca como objetivo: o luxo, a ostentação, e a popularidade baseada simplesmente na imagem dessas posses – e poderes – decorrentes do acúmulo da riqueza. “Curtam a gente”, “Queremos chegar nos mil likes”, são algumas das falas enunciadas no aniversário infantil. As crianças aparecem aqui como antenas dos valores difundidos no meio social – encenando, com seus interlocutores invisíveis, algum tipo de conexão que já nasce de uma dissociação, a oposição entre um eu, indivíduo a ser cultuado versus a massa indistinguível da qual não me vejo como parte: as multidões das grandes cidades.

Na cena final, o ponto alto do filme, Maria volta para casa de carro, sua filha dorme no banco de trás. Reflexos da cidade passam no vidro de sua janela, até que a câmera foca por fim seu rosto, no espaço da bolha fechada dos automóveis particulares, luzes artificiais iluminam sua expressão cansada com cores que lembram o neon das publicidades da Times Square, e começa a tocar a música Woman (Mulher), da compositora sueca Neneh Cherry – escrita em resposta à música It’s a man’s man’s man’s world (É um mundo de homens, homens, homens) do americano James Brown. Surge um vigor que coloca em perspectiva toda a suposta conformidade que perpassava as cenas anteriores do filme: há uma ebulição ali, a subjetividade dessa personagem não foi apagada ou assimilada completamente, apesar dos esforços. Como se ouve na letra música: “They tried erasing me, they couldn’t wipe out my past” (“eles tentaram me apagar, mas não puderam destruir meu passado”).

O mundo não é,
o mundo está sendo
Paulo Freire

¹ CANETTIERI, Thiago. A cidade capitalista na produção dos excluídos e os excluídos na produção da cidade capitalista: o paradoxo da exclusão urbana. Geoingá: Revista do Programa de Pós-Graduação em Geografia Maringá, v. 8, n. 1, p. 64-83, 2016. Disponível em: <http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Geoinga/article/viewFile/34217/18822>.