Por William Oliveira

O ambiente no qual Inferninho se passa quase que inteiramente, o bar de Deusimar (Yuri Yamamoto), se apresenta ao som de uma música cantada por Luizianne (Samya de Lavor) chamada “Anjo de Guarda”, da compositora cearense Rita de Cássia. Os planos se alternam mostrando cada uma das personagens que frequentam o bar. Todos são corpos fora do padrão, pessoas vestidas com fantasias, alguém com o corpo todo prateado, entre outros. A direção de arte passa uma sensação de precariedade ao local, com paredes mal pintadas e caixas de cervejas empilhadas em lugares aleatórios. As personagens como Coelho (Rafael Martins), um homem vestido de coelho que é o atendente do bar, dão um estilo kitsch que inspira a comédia, que é presente também em vários diálogos e situações ao longo do filme. A chegada de Jarbas (Demick Lopes), logo no início, chama a atenção de todos. Mais próximo de um padrão normativo, ele destoa do ambiente ao entrar no bar. Jarbas se envolve num romance com Deusimar e passa a morar no bar: começa a vestir-se como marinheiro e passa a cultivar um vasto bigode.

“Sou alguém que você olha e não vê”

Inferninho tem vários elementos de um melodrama, mas engana-se quem toma esse filme como apenas um melodrama com elementos queer. Os anseios vividos pelas personagens são completamente universais e o filme não parece ter a intenção de definir as personagens em termos como trans, lésbica ou gay, denominações que são artifícios da nossa sociedade que servem para uma autoafirmação e como identificação, mas que existem por que não somos capazes de aceitar o outro inteiramente como quer que ele seja. Tal condição não existe no bar de Deusimar. Lá não há a necessidade de definir o que o outro é, até porque palavra alguma consegue dar conta da complexidade de alguém. O respeito total às liberdades do indivíduo transcende a própria ideia de classificação. E esse é o grande poder do filme. Como se passa em um único ambiente, é possível perceber esse bar como uma espécie de realidade alternativa que acolhe quem precisar dela. Inclusive o público. A proximidade da câmera com os personagens pode passar certa claustrofobia no início, mas com o tempo isso se transforma num acolhimento do próprio espectador no ambiente. Em algum momento estamos todos ali em Inferninho, vivendo esse vislumbre de como a vida poderia se dar em harmonia nessa espécie de refúgio.

“Nada a temer, eu vou te proteger”

Em um ponto do filme, Luizianne resolve se demitir do bar por não receber pagamento. Mais tarde ela retorna cheia de ferimentos, resgatada por ter sofrido uma agressão. O ambiente exterior ao bar é hostil àqueles corpos marginalizados. Mas no bar todos acolhem Luizianne novamente, reforçando a ideia de que ali realmente é um refúgio onde não há julgamento algum. O ambiente externo também aparece no bar com a visita de dois personagens da vida de Jarbas. Dispostos a extorqui-lo em troca de não denunciarem onde ele está, os dois passam a frequentar o bar para ameaçar Jarbas. Numa cena onde os dois assediam Luizianne enquanto ela canta, percebemos que uma cena como essa, que infelizmente é lugar-comum na sociedade em que vivemos, não tem espaço no inferninho. Ali o respeito é fundamental. Outro personagem de fora que aparece no Inferninho é um corretor de imóveis, talvez o personagem que mais se enquadre num padrão normativo. Sua intenção é comprar o Inferninho para construir um empreendimento no lugar. É o símbolo da sociedade capitalista que tenta normatizar os corpos, apagando qualquer traço de expressividade ao colocar dinheiro e progresso acima dos indivíduos.

“Sou caminho que só o amor pisou”

A memorável cena do discurso humanista do Coelho onde ele diz que é preciso “fazer carinho na vida” não poderia ser mais forte em tempos em que o ódio parece prevalecer. O final do filme tem tons de magia, transformando o Inferninho num local onde tudo é possível: os rejeitados serem amados, os perdidos se encontrarem, os marginalizados serem respeitados. Inferninho é um filme urgente para hoje, um aviso de que a resistência pode se dar através do afeto, e que se o mundo oferece hostilidade, havemos de criar nossos inferninhos: lugares onde podemos nos encontrar no outro e existirmos plenamente.