Por Dandara Cipriano

A loucura é a porta de integração ou da prisão de várias almas? Um atendente vestido de coelho, um cliente super-homem, outro prateado, partilham do mesmo espaço, mas não se olham, nem se tocam. Cada um imerso em  seu universo particular, se assemelham a fantasmas presos nos seus pecados, nas suas mentiras e na solidão de ser quem se é. O filme de Guto Parente e Pedro Diógenes, nos leva até o sublime e encerra a segunda noite do Janela . Inferninho nos convida a mergulhar no mundo como da Alice de Lewis Carrol, todavia ao invés do Mestre Gato, somos recebidos por um coelho rosa e gago. Assisti-lo é ser teletransportado para um bar de beira de estrada dos anos 90  onde bailam, ao som de uma cantora desafinada, corujas e pirilampos.

É através de Jarbas (Demick Lopes) – um marinheiro desconhecido – que a liberdade chega, assim como o amor, para Deusimar (Yuri Yamamoto) . Numa busca de humanizar e normalizar aquilo que transgride a norma, o longa é uma espécie de melodrama tradicional dentro de um mundo queer. E, no decorrer das cenas, reverbera o que fora dito ao final da sessão pelos seus realizadores: Inferninho é um filme de amor. Afinal, como conseguir não falar de amor, quando o seu existir já é uma forma de resistência política?

A “família inferninho” se constrói a partir de Deusimar – a patroa exploradora – a qual assume a função de mãe controladora. Onde seus funcionários compõem os filhos. Mesmo discordando e odiando em vários momentos aquela espécie de “mãe tóxica”, ao findar do dia a abraçam, choram e torcem por ela. Assim como toda família tradicional, é pelo amor – mas também pelo ódio – que este grupo de pessoas se estrutura. Em determinado momento, Deusimar é obrigada pelo governo a vender sua propriedade por um preço abaixo do mercado. A especulação imobiliária e a crise financeira servem para falar sobre refúgio e do perigo iminente que todo lugar de acolhimento ao que se difere da norma passa – sobretudo, quando o fascismo é quem grita do lado de fora.

Unhas vermelhas, sapato de salto agulha, corda no pescoço de uma mulher sem vulva: qual medo tu aprisiona a ponto de acreditar que só a morte pode ser sua melhor opção? Na cena em que Luizianne (Samya de Lavor) é espancada, realidade e ficção se encontraram pra mim. Todas as histórias de amigos perseguidos, violentados, vão passando como rápidas projeções. O medo do que já é se instaura, enquanto o nó na garganta aperta. Até que, paralelamente, responde o coelho: “Não maltrata a vida. Faz carinho na vida.”. Frente a essa fala, minha Deusimar interior é abraçada e acolhida, não olho para os lados, mas sinto que todos sentados naquela sala de exibição partilham do mesmo sentimento: a força de saber que existimos e a consciência de continuarmos a ter coragem para permanecermos unidos.

Inferninho se constrói muito antes do roteiro existir, assim colocaram seus realizadores no debate que finalizou a sessão no São Luiz. O filme nos apresenta esse novo cinema que cada vez mais vem ganhando forma: aquele que caminha de todos os lados em direção a um único centro. E esse centro é o poder que a arte dá de nos perceber enquanto resistência a tudo aquilo que violenta e criminaliza o prazer de olhar a bandeira verde e amarela sem temer pelas nossas vidas. O longa não busca se encaixar em um espaço temporal determinado, é construído a partir de vivências. Durante todo o mergulho fílmico não pude deixar de correlacionar com Tatuagem (Hilton Lacerda, 2013), Deusimar e Jarbas, Paulete e Fininha… O que os unificam além do amor como refúgio e ponto de retorno para casa? Acredito que todas coloriram seus purgatórios, transformando em refúgio seus medos. E enquanto do lado de fora ecoava cálice, do lado de dentro elas continuavam a multiplicar falas. Inferninho existe para desbravar nossos preconceitos velados, nossos papéis de gênero determinados e nossa forma de amor ultrapassada; como aceitar que uma mulher trans seja púdica e clássica, desejando viver uma história de Romeu e Julieta. Em tempos de certezas absolutas, Guto e Pedro nos convidam para nos desapropriarmos das regras pré estabelecidas e colorirmos nossos purgatórios.