Por Gabriela Souto Maior

Esse texto poderia ter vários começos, mas vai começar assim: Waltraud Lehner, Waltraud Höllinger, Valie Export, nesta ordem. O ato de nomear é também um ato de dar a ver, direcionar, magnetizar em torno de algo ou alguém um determinado campo de significados. Nesse sentido, o processo de renomeação de si mesma, levado a cabo pela artista austríaca que dirigiu o longa Oponentes Invisíveis, atua sobre a relação dialética entre indivíduo e sociedade, e como essa, a partir de determinadas estruturas vê o indivíduo e como ele, no caso ela, reage a essas expectativas e tendências, também interferindo na estrutura. Renunciando ao sobrenome paterno e ao posterior sobrenome do marido, a artista assume a alcunha de VALIE EXPORT em referência à uma marca de cigarros da Áustria, fazendo uma provocação sobre a mulher como mais um bem a ser consumido e ao mesmo tempo sobre uma necessidade de expressão, segundo a própria: exportar e transportar suas ideias para o exterior.

Trazendo como protagonista uma fotógrafa chamada Anna, Oponentes Invisíveis expõe a materialidade do processo criativo. Desde cenas que se passam em salas de revelação, onde sob a luz vermelha e diante de nossos olhos se forma a imagem de uma vulva, ou cenas que trazem a imagem da mulher com uma câmera, a diretora assume a posição do cinema como reapresentação do real, evidenciando a montagem como fruto de escolhas – sendo por isso mesmo arbitrária -, e a decorrente artificialidade do objeto “filme”. Expõe-se como o processo de formulação dessa linguagem não é neutro, mostrando, literalmente, que há por trás deles sujeitos que carregam em si visões de mundo. Aliando a isso o uso de sons inusitados a seus contextos, como quando um homem deitado no chão lambe o asfalto com sua língua mole e o que se tem é o som próximo a papéis sendo amassados, ou pedras encostando umas nas outras (não se sabe com exatidão), rompe-se a aparente naturalidade do que é mostrado na tela, rompendo também a aparente naturalidade de nossas ações e formas de portar nossos corpos nos automatismos do dia a dia.

Logo nos primeiros minutos do filme, temos uma cena que alude a um de seus principais argumentos: o corpo da mulher como sendo uma construção, bem como a imagem deste. De frente para o espelho, Anna segue parada, enquanto sua imagem refletida se maquia. De sutiã, primeiro passa um batom vermelho, depois um pouco de pó no queixo e maçãs do rosto, unidos a sons de objetos se raspando – um graveto no cimento? Um lápis na parede? A Anna fora do espelho observa sua imagem cumprindo um dos rituais da feminilidade: tem-se aqui o desvelamento da feminilidade enquanto performance, executada de modo a representar uma ideia do que seria (do que deve ser) a mulher, e forjada como um dos meios para garantir sua diferenciação do homem e justificar sua posição de subalternidade dentro de um contexto de dominação masculina. Evidenciar como construção o que se pretende como natural é tarefa que VALIE EXPORT assume e cumpre com primor.

Em outra sequência, síntese deste argumento, um peixe nada numa banheira – imagem que se alterna com a figura de Anna, de costas na mesma banheira. Em seguida, mãos seguram o pedaço mutilado de um peixe sobre uma tábua, corta para mãos segurando um sabonete. Mãos tiram as escamas do peixe e logo em seguida a axila de Anna é depilada pelas lâminas de uma gilete. O peixe segue sendo tratado – Anna escova os dentes. Abre-se o peixe, Anna corta as unhas do pé, raspa os pelos da perna. Tira-se os órgãos internos do peixe, e Anna passa creme em seu rosto. O peixe é temperado e empanado – Anna passa o creme pelo resto de seu corpo, mostrado de forma mutilada no quadro: um ombro, um braço. O peixe é finalmente frito – Anna passa rímel nos olhos. O peixe é servido a um homem. Ele o come. As mãos de Anna lavam o prato.

VALIE EXPORT não nega seu apreço pela associação de imagens e a potência das conexões que podem surgir daí, quando por diversos momentos a personagem une lado a lado, em uma prática investigativa, figuras renascentistas e de contextos diversos com fotografias de sua autoria, onde se repetem os gestos – uma possível “fórmula de pathos” warburguiana. “A posição do corpo foi idealizada para uma expressão”, ela diz enquanto analisa a figura representada no quadro “O Nascimento da Vênus”, de Sandro Botticelli, com seus cabelos esvoaçantes numa provável tentativa de imprimir a noção de movimento na personagem pintada, estática mas querendo mover-se. Estática mas recebendo vento no rosto. Estática mas indo em direção a algo.

“Meu trabalho visual é para mim um monólogo” nos diz a boca de Anna. “Monólogo”, repete a boca da atriz com quem Anna está trabalhando. “Eu digo a mim mesma do que estou sofrendo, como um diálogo com um parceiro invisível, porque eu não acredito na realidade do meu ambiente”. O filme de VALIE EXPORT age no sentido de desmanchar a solidez ilusória de nossas visões de mundo, unindo nessa empreitada forma e conteúdo num arranjo bem sucedido entre imagens em movimento, imagens estáticas, imagens de arquivo, sons, e metalinguagem perspicaz. Tudo isso sem pretender desligar-se das imagens que, como nuvens, formam o imaginário coletivo e que parecem tão certas de sua solidez, sem o ser, podendo por isso mesmo desmancharem-se no ar – ou em água – a qualquer momento.

Em meio a essa constelação de imagens e significados, são lançadas perguntas-chave como “Quando um ser humano é mulher?” ou “Você toma nota sobre o que observa nas pessoas?”. Através de um vídeo exibido no estúdio de trabalho da protagonista, numa televisão de imagem azulada, uma realizadora chamada Helke Sander fala sobre como o resultado de algumas reflexões suas só se dão desse modo por serem atravessadas por sua condição de mulher, bem como de seu trabalho com o movimento de mulheres, e a história desses seres humanos. Tangencia-se a questão da divisão do trabalho, o aborto, e outras pautas feministas que seguem atuais.

Demolições, destroços, vestígios de uma história coletiva sendo capturados em plena destruição pelas lentes da personagem, capazes também de produzir memória sobre um contexto que se apresenta estranho ao que antes era familiar. “Eu gostaria de observar objetivamente e com a objetiva, se alguma coisa está mudando lá fora, ou se sou só eu”, narra a voz de Anna enquanto fotos em preto e branco da personagem são exibidas alternadamente na tela, retratando a si mesma em unusuais posições na cidade vienense – deitada em arco seguindo a curva do meio-fio, ou de ponta-cabeça apoiando suas pernas em edifícios históricos, ou em pose semelhante a quem vai dar uma cambalhota numa escadaria imponente. Há uma angústia na tentativa de expressar algo que os outros parecem não ver, de tentar dizer algo que os outros não levam a sério, de evidenciar algo que para si é claro mas que para os outros não passa de esquizofrenia – como para o psiquiatra da fotógrafa, que assim a diagnostica. Esse elemento da narrativa ganha ainda mais camadas quando se sabe que diagnósticos por desvios da norma ou motivos políticos, seguidos de internamentos compulsórios, foram comuns em muitos contextos durante o século XX, inclusive no Brasil. Algo está mudando lá fora, e um estranho poder está agindo sobre as pessoas sem que estas se deem conta: Anna vê, Anna fotografa, Anna revela e amplia, Anna mostra – mas parece ser em vão.

O fato de podermos assistir a este filme 41 anos depois de seu lançamento e reconhecer como atuais temas tão diversos e necessários quanto normatização do uso dos espaços públicos; movimento feminista; movimento antimanicomial; função do corpo e da imagem na mediação social; influência de movimentos econômicos e geopolíticos na subjetividade dos indivíduos; relacionamentos de casal enquanto construção a dois e como lidar com isso; leis ocultas que regem a vida ou abandono total à própria sorte; pode o subalterno falar, ou melhor ainda: como fazê-lo ser ouvido? – é uma mostra da potência do trabalho de VALIE EXPORT e da necessidade de falarmos sobre ele. Mesmo com começo e fim bem definidos e executados, o filme não se fecha realmente e reverbera como as ondas do rádio e os ruídos alienígenas que ele deixa escapar nas sequências de seu início e de seu fim (mas esse texto, por outro lado, tem que acabar de alguma forma).