Por Dandara Cipriano e William Oliveira

O XI Janela Internacional de Cinema ocorre em um momento crítico para política nacional. Possivelmente, a grande maioria do público do festival nasceu no momento de instauração da democracia e não sabe, nem deseja saber, o que é viver em uma ditadura fascista. Sendo assim, só por resistir ao ano de 2018, o festival já demonstra sua postura de enfrentamento ao que virá. Destacamos aqui o trabalho da curadoria. Sobretudo, por grande parte dos realizadores serem negros e principalmente por entre eles estarem mulheres negras. Entrevistamos Dandara de Morais – diretora de Bup e atriz de Quantos eram pra tá?, e Vinícius Silva – diretor e roteirista de Quantos eram pra tá? e Liberdade. Juntos eles falaram sobre suas construções enquanto artistas, realizadores e negros.

Uma das grandes promessas do cinema independente brasileiro, Vinicius, é paulista e recebeu duas menções honrosas no XI Janela Internacional de Cinema pelo seu novo curta-metragem Quantos eram pra tá?. Com voz suave e jeito doce, deixa claro que o problema não é com Lula ou Dilma – comentados numa cena de seu curta – mas com todo esse “fã clube” da esquerda branca.

As principais referências do realizador são o poeta francês Alexandre Dumas e o fotógrafo americano Gordon Parks, em especial o trabalho Segregation Story (1956) – o qual aborda a segregação racial norte-americana. Sobre o escritor francês, Vinícius afirma que “Meu livro preferido sempre foi “O Conde de Monte Cristo”. Aí quando mais tarde descobri que o autor era negro fiquei pensando nessa coisa de esconderem a negritude dessas referências. Aqui no Brasil também, com o Machado de Assis. Não desejar que saibamos que o maior escritor brasileiro e francês são negros é uma tentativa de esconder nossa força.”, coloca o cineasta. Vinícius diz que quis colocar no filme uma espécie de “os três mosqueteiros” com os três personagens principais.

Gordon Parks foi fotógrafo da revista Life americana e em vários trabalhos expôs a discriminação racial aos americanos de classe média alta leitores da revista. Vinícius, inspirado no trabalho dele, transmite através de uma sua construção a segregação velada que existe no ambiente universitário brasileiro, expondo a hipocrisia de se acreditar que não existe discriminação no país, de não se perceber o tamanho e extensão do problema racial no Brasil.O rap também é um importante elemento na sua construção artística, de forma que Vinícius chega a dizer que o novo curta tem um pouco da atitude de uma diss track – canção feita pra afrontar algo ou alguém. Quando perguntado sobre a cena que leva o termo “palmitagem” para debate, o realizador diz que nunca buscou trazer conclusões sobre gostos, apenas achou necessário serem apresentadas questões para o debate.

Paralelamente, Dandara de Morais – premiada como melhor atriz no 47° Festival de Brasília –  se aproxima com suas tranças rosas e sorriso largo, acrescentando que “poder ser palmiteiro é um direito apenas concedido ao homem negro, enquanto nós, mulheres negras, ficamos a mercê da hipersexualização e de ser em algum momento escolhidas por alguém”, completa.

A atriz dos filmes Ventos de Agosto(2012), Açúcar(2017), Super Pina (2018), Bup (2018), ela também é protagonista do filme do Vinícius Silva, Quantos eram pra ta? e falou um pouco sobre sua experiência de trabalhar em uma produção majoritariamente negra. “Foi diferente por que construímos juntos e tudo que foi à tela era partes de nossas vidas e dos nossos amigos”, diz. “Na cena que em rola uma festinha na USP, onde só tem gente branca, aquilo era uma festa de verdade lá”, acrescenta. Na cena que Dandara liga pra mãe no filme, ela realmente ligou pra mãe  e quando Vinícius contracena com a mãe dele no filme, o diálogo também é a partir de uma situação real. E as outras falas foram todas inspirados em situações reais que a gente tem na universidade ou entre amigos, segundo a artista. Bup – eleito melhor curta do XI Janela pela ABD – partiu da ideia de reutilizar algum dos testes de elenco que possuía, para construir um trabalho seu. No processo de montagem, foi adicionando várias camadas de sons, despretensiosamente. Estava passando por um momento difícil na sua carreira de atriz, devido ao tipo de papel que sempre é cabido as mulheres pretas: a escrava, a empregada ou o mero corpo nu que compõe alguma cena fetichizante. Então, Bup parte dessa insatisfação e também narra o que se passa na cabeça de uma pessoa com ansiedade.

Os olhos que sobressaem a tela apontam a tristeza de estar presente sem ser vista como igual, os sons que nos confundem expressam a pressão de nunca ser cabido o direito do erro. “E os patos?”, perguntamos. Dandara responde “Ah… os patos foi uma tentativa de rir de mim mesma. A amante do solo de balé chamado Le cygne, da peça Carnaval dos Animais, ela tinha como “único cisne” os patos do Parque 13 de Maio. Assim foi.

Um vendedor ambulante de CD’s adentra a Praça do Sebo (Centro de Recife) e para ao nosso lado. Nesse momento, Vinícius se enverga em nossa direção e fala sobre a música que encerra o filme, Bitch Better Have my Money, de Rihanna:  “a música compõe uma cena que expressa que é chegada a hora dos negros e negras exigirmos, juntos, o que é nosso por direito.  No caso do cinema, é saber que já conseguimos demonstrar que nosso trabalho tem valor e que por isso merecemos o devido reconhecimento. Se as instituições que servem de validação ao cinema brasileiro ainda são brancas demais para nos validarem, que abram os olhos e vejam que a nova onda de artistas negros e negras veio pra ficar.”. Dandara, que está ao lado, complementa: “É importante sabermos usar nossas conexões. Só furamos a bolha de dentro para fora. Com isso quero dizer que só furamos a bolha nos cuidando, nos acolhendo, nos fortalecendo… Mas também não rola de nos permitirmos cair no lugar branco e ficar esperando que nossas conexões nos favoreçam sempre, porque isso também é manutenção de privilégios. E não é isso que devemos buscar perpetuar.”.

Como homem hétero, Vinícius construiu junto com Dandara a personagem do curta-metragem que abriu o XI Janela Internacional de Cinema. Inspirado na sua companheira de trabalho e diretora de fotografia do filme, Nuna,  Vinícius conseguiu construir uma personagem sólida e profunda. É necessário que falemos o que ambos reiteraram durante toda a entrevista: foi um trabalho em conjunto com Bruno Ribeiro, diretor e roteirista de BR3, Dandara e Luiz, em que quatro jovens negros decidiram unir suas vozes e fazer ressoar um grito em comum: “Respeitem nossa existência”. Por ter ocorrido dois dias antes da premiação, na entrevista não sabíamos quem levaria algum prêmio para casa, mas em primeira mão fomos notificados que o cinema preto brasileiro já confirmou presença em alguns próximos festivais internacionais que estão por vir.

Por fim, nós – Dandara Cipriano e William Oliveira, compomos essa entrevista com o intuito de não somente fortalecer a fala negra, mas de encorajar a todos que estão além da costumeira elite branca que compõe as artes brasileiras.  Esse foi um dos Janelas em que mais vimos a cor preta ocupando o espaço, seja na plateia, seja nos nomes em exibição. Todavia, ainda há muito para percorrer: é preciso criar novas formas de colocar os diferentes tipos de realidades em cena, sem miserabilização, principalmente, sem utilização de um discurso politicamente correto que sobrevive apenas na tela do cinema. Concluímos com um poema de Giu, artista e cineasta paulista chamado Ebulição:

 

É que eu to cansada

dessa história

 de que a história

é complicada

 Eu não vi nada

Há sentimentos dos dois lados

Ai! Essas pessoas que ficam ao redor

Sem dó

 de quem tá desse lado

Não estávamos na Era da Identidade? Assumam!

 Status do facebook Status do whatsapp

Profissão: passação

E passação de pano

 E auxiliar em orientar como processar por dano Moral!

Feito deus chifrudo

 Você foi fundo

 Cavou sua própria cova

 Mas em outra espécie de mundo

Onde a dor sempre se renova

Eu apago você da existência

 Porque você é um apagador de existências

 E ainda dizem: Cual es tu pro blema? Cual es tu pro blema?

Quem sou eu? Quem sou eu?

 Quando tu souber meu nome, Hómi Tu já vai ter esquecido o teu

Confie no seu clã

 Saiba quem é tua irmã

 Vocês vão despontar em toda e cada manhã

E lembre-se: Não desvirtue o fogo respondido