Por Dandara Cipriano

É sobre maracatu, mas também é sobre o poder de se ver na tela. Foi com a sala do Cinema São Luiz lotada pelo povo da Cambinda Brasileira que demos boas-vindas a Azougue Nazaré, filme de Tiago Melo, exibido pela primeira vez na sua terra natal. Sendo ambientado na cidade de Nazaré da Mata, Zona da Mata do estado de Pernambuco, o filme utiliza do próprio espaço urbano e rural para construir seus personagens. Em uma espécie de “docuficção”, somos embebedados pela atuação de Valmir do Côco no papel de Catita. Tiago Melo leva ao roteiro traços comuns do cotidiano, e consegue trazer à tela pérolas em forma de gírias e emboladas, devido a naturalidade e entrega do seu corpo de elenco.

É como se a câmera desenvolvesse seus enquadramentos no ritmo do maracatu, permitindo que o espectador dance olhando no olho de cada personagem. Azougue Nazaré nos faz entrar na casa de Catita e da Irmã Darlene (Joana Gatis), na igreja da cidade, na mesa de jantar do Pastor, entre outros. Mas quem pensa que Azougue Nazaré fala de frivolidades, engana-se. O longa pernambucano aborda, por exemplo, perseguição religiosa, uso da fé para alienação de fiéis, a sensação agridoce que a espera para que o outro mude traz nos relacionamentos, insatisfação sexual feminina, prisão e liberdade.

Cômico em seu início, o longa nos surpreende ao retratar um povo enfurecido que caminha a passos rápidos em direção a casa de um pai de aanto da região. Numa espécie de alegoria aos quadros de Antônio Parreiras sobre a catequização indígena, somos apresentados a uma fé que continua a demonizar tudo aquilo que soa diferente as suas regras.  Enquanto o pai de santo foge pelos canaviais, o mito da democracia religiosa vai sendo desmistificado. Do outro lado, o povo incitado por uma pregação cristã arbitrária, aceita sem questionamento um pastor que mesmo casado, pratica “relações sexuais” com suas fiéis. Seria esse o nome dado a um sexo que existe através da coerção psicológica, que faz com que a Irmã Darlenne acredite que sua missão é servir sexualmente o missionário para que assim possa gestar uma criança santa? Denuncia-se a precariedade na educação e a utilização dessa deficiência social para o fortalecimento das igrejas cristãs como centros de alienação e poder.

A falta de perspectiva dentro de um casamento sem diálogo, o distanciamento emocional e sexual entre Catita e seu parceiro, são preâmbulos da visita noturna do missionário a casa dela. É como se os dois performassem um casamento fatigado e principalmente atingido pela diferença religiosa. Embalados pelos gestos despojados de Catita, rimos enquanto somos apresentados a fé como covil e aprisionamento.

No outro espaço dramático, Tita (Mohana Uchôa) – a esposa do chaveiro da cidade – o trai com Ítalo (Edilson Silva), seu amante e companheiro de maracatu. Dando vida a uma mulher que não aceita o papel de subserviência no matrimônio, Mohana Uchôa vem para questionar tanto os papéis de gênero impostos quando a liberdade que se perde dentro de um modelo matrimonial fadado ao fracasso. Somos apresentados a uma dicotomia em que o casamento representa  prisão e o affair personifica liberdade. Entretanto, suas cenas se perdem dentro do corpo do filme. A personagem fica solta na trama e só lembramos dela devido ao instante em que aparece transando no carro com seu amante. É como se Tita fosse resumida a esse corpo feminino negro que serve para dar uma apimentada erótica ao filme e logo é esquecida frente às demais histórias.

Azougue Nazaré, ao abordar uma visão normativa do casamento fala sobre prisão. E pela mesma alegoria – homem e mulher envoltos em uma relação sexual – tenta nos apresentar uma forma falsa de liberdade. Além disso, é levado à tela um missionário caricato e um povo que assume muito bem o lugar social de bobos da corte. Estaria Tiago buscando um diálogo, aliando humor  e denúncia, com Mazzaropi? Talvez. Por outro lado, o longa-metragem cumpre muito bem seu papel de apresentar a cultura nordestina, especialmente, o maracatu. Tanto que, antes da exibição, vimos, emocionados, o Maracatu da Cambinda Brasileira ocupando a sala do cinema São Luís. Através de Azougue Nazaré mergulhamos em uma ciranda cênica, na qual o maracatu, sem pudor ou medo, ao som dos caboclinhos, se liberta mostrando suas cores e seus santos. Viva Zé de Carro! Viva a Barrachinha! E parabéns ao elenco, a grande alma desse filme.