Por Carol Lima

Nasci e cresci em Alagoas, onde passei a maior parte da minha infância e adolescência tendo contato com as praias. Elas sempre me trazem um tom de nostalgia. A praia de Guaxuma foi uma das que fizeram parte das minhas vivências e descobertas antes de eu me mudar para Recife, carregando a vontade de estudar cinema aos meus dezenove anos de idade. A atmosfera de Guaxuma, curta-metragem dirigido por Nara Normande, me traz gosto de memória e um cheiro de mormaço, que me faz aqui, sentada numa das poltronas do Cinema São Luiz, lembrar de casa. Guaxuma tem sua narrativa traçada em uma animação em stop motion, cuja a matéria-prima é a areia. O filme se conduz a partir das lembranças de Nara, tendo em foco sua vivência com a amiga Tayra. Os grãos de areia que constituem tanto as personagens quanto os cenários dão aos relatos narrados por Nara uma noção de temporalidade, onde a areia surge como uma avalanche de memórias que vão e voltam, trazidas pelo vento das praias e absorvidas pelas ondas do mar.

Com um toque bem humorado nos diálogos entre as personagens e na narração, visitamos momentos de Nara, desde sua infância, na praia de Guaxuma. Ela nos conta que nasceu na praia e do quanto adorava o clima das festas de hippie que seus pais faziam em casa. A fumaça de um beck que é acendido por um dos convidados da festa surge num desenho feito de areia como uma das muitas transições que sugerem o empurrar dos grãos pelo vento. É também enquanto relata a experiência de uma das festas que Nara flerta com naturalidade com questões em torno a sua sexualidade: “eu já era doida por peitudas”, diz. Quando mais tarde conhecemos a personagem de Tayra, Guaxuma se propõe a falar de amizade e de amor com o tom de sutileza que rege a infância. A praia é o vínculo que une as duas amigas. É lá que, embalados pelos desenhos feitos com areia e aos sons das ondas do mar e do vento que bate nos coqueiros, acompanhamos as personagens nesse cenário que abriga suas brincadeiras, mergulhos no mar, os segredos e o crescer de ambas. E posteriormente, suas memórias. Breves cenas de transição entre as sequências de stop motion trazem fotografias reais de Nara e Tayra fincadas na areia da praia, remetendo ao aconchegante autorretrato realizado por Agnes Varda em seu documentário As praias de Agnes (2008), onde suas memórias em forma de fotografias também são trazidas ao cenário que abrigou muitas delas: a areia das praias. O crescer das personagens de Guaxuma, retratado por conchas e espinhos de ouriço que brotam nos seus corpos, simbolizando o crescimento dos seios e dos pelos no corpo é mais uma delicadeza gerada entre todas as situações que vão enchendo de vida esses corpos animados feitos de areia e outros elementos vindos das praias.

Guaxuma tem em sua construção efeitos sonoros que nos inserem por completo no ambiente da praia. Escutamos cada fragmento do cenário: o vento, as ondas do mar e os passos na areia. A partir da junção desses efeitos com as imagens reais da praia de Guaxuma e a vida constante que corre dentro dessas personagens animadas em stop motion, o curta-metragem vai se tornando um jogo de sentidos. Somos empurrados para dentro do ambiente por nos conectarmos ao que poderia ser o sentir do cheiro do mar ao vermos sua imagem e o toque do vento que bate no cabelo e no rosto quando pisamos numa praia ao escutar o som de suas rajadas. Para além disso, despertamo-nos a saudade de amizades e amores que deixamos para trás a partir da conexão que sentimos com as duas personagens.

No momento em que pais de Nara se separam e ela se muda da praia para a cidade, uma fotografia real da praia de Guaxuma é progressivamente cortada em pedaços. Mais uma vez, a transição entre as sequências sugere um deixar para trás de suas memórias. Os grãos de areia da animação, antes mais espessos, ganham uma camada mais grossa e se tornam quase como o concreto do prédio no qual Nara passa a morar. A partir de então, Guaxuma se torna lembrança: “Aprendi a ter o mar dentro de mim”. Entre Nara e Tayra ficam mantidas por um tempo a amizade e os segredos, independentemente da distância. Mas pouco a pouco, como grãos de areia que são soprados pelo vento, o contato entre elas começa a se dissipar. A volta de Nara para visitar a praia nos traz imagens envoltas em certa escuridão, em contraponto com os tons ensolarados que regiam as imagens e os relatos de sua infância. O anúncio da doença de Tayra que precede sua partida é trazido por Nara como algo que lhe foi inesperado. Para nós, que assistimos, também acaba sendo. Nara diz que na tradição japonesa, quando alguém está doente se faz mil origamis para reverter a situação. Ela não consegue fazer o suficiente. Seu luto se desenha numa explosão de cores como o vermelho, preto e amarelo que consomem a tela, em contraste aos tons suaves e luminosos da areia da praia que conduzia o filme desde o início nos gerando uma certa agonia e estranhamento. Seu corpo de areia é inserido na praia do mundo real. Os sons ambientes não são do mar, mas de lágrimas, de chuva. Foi inusitado ver a praia de Guaxuma tão escura.

Depois da partida de Tayra, Nara a reecontra num sonho. A praia de Guaxuma está ensolarada diante de nossos olhos outra vez. O som do vento surge suave, mais como um sopro do que uma rajada. Embaladas pelo voar dos origamis feitos por Nara e rodeadas pelo mar, elas se abraçam. Os grãos da animação endurecem e escurecem como que molhados pelo mar, deixando o abraço cravado na areia, na memória. Guaxuma é um filme que fala sobre amor e que, nesse momento em que externar esse sentimento é cada vez mais necessário, surge nas telas de cinema com uma nova perspectiva. Uma produção trazida após um processo longo e persistente, guiado pela vontade de Nara de nos contar essa história. Ele se torna o conselho de que devemos aproveitar os momentos antes que eles se dissipem ao vento, um afago que nos lembra de deixar vivos e cravados no nosso corpo o mar de memórias boas que mora dentro de nós. Um lembrete pra falar de amor.