Por Gabriela Souto Maior

Soy América Latina
Un pueblo sin piernas, pero que camina
Calle 13

 

O passado que temos pela frente não é pouco. Desaparecidos e mortos políticos formam um campo delicado de memória que precisa ser protegida e que ao mesmo tempo permite a continuidade de suas vidas em outros corpos, nos atos e palavras dos vivos. Como dar paz àqueles que se foram em conflito? Como dar paz aos que ficam? É com sensibilidade à complexidade dessas questões que Beatriz Seigner, no longa Los Silencios, se debruça sobre as cicatrizes instaladas no seio de famílias e populações, resultantes das disputas político-econômicas que assolam a América Latina e da profunda precariedade dos direitos e garantias que os povos indígenas têm sobre suas vidas e seus territórios, diante do avanço de multinacionais e outros empreendimentos exógenos em relação a suas organizações e modos de vida.

Pontos coloridos na tela iniciam o filme. Vão ganhando definição e viram lamparinas, iluminando os barcos que navegam na noite. Baseado em relatos ouvidos de moradores da Ilha da Fantasia, comunidade ribeirinha que se localiza entre as fronteiras de Brasil, Peru e Colômbia, o filme acompanha a trajetória de Amparo, interpretada por Marleyda Soto, fugindo da Colômbia com seu filho mais novo após o desaparecimento do marido, Adão, brasileiro – que, ficamos sabendo no decorrer do filme, fazia parte da resistência armada em oposição às ações de uma petroleira e a destruição do povoado onde viviam -, e de sua filha, Nuria, que o acompanhava. Sobrevivente, ela fora ameaçada de morte e buscava refúgio no Brasil, bem como indenização por parte da petroleira, o que só se daria caso os corpos fossem encontrados.

Auxiliada pela figura da Abuela, moradora da ilha, Amparo consegue permissão do Presidente (liderança local) para se instalar, apesar dos conhecidos riscos em se receber refugiados envolvidos nos conflitos de terra. Com o filho matriculado numa escola pública e contando dinheiro para o uniforme, merenda, e outras necessidades, Amparo procura emprego num estabelecimento de pesca e distribuição de peixes, enquanto aguarda os trâmites burocráticos e investigação dos desaparecimentos.

Em detalhes do dia a dia e falas aparentemente despretensiosas, o filme evidencia as brechas entre estar vivendo num mundo capitalista e mesmo assim preservar valores outros que fogem a essa ordem, como quando Amparo se recusa a participar da pesca por ter medo da água, “eu respeito o rio”. “Mas pagamos bem pelos peixes”, é a resposta de sua empregadora, que não surte efeito algum na decisão da personagem principal. Ou quando seu filho, ainda criança e já ansioso por trabalhar, afirma que o que precisa mesmo é de dinheiro, ao que ela responde que sim, mas que dinheiro não é tudo na vida, “você sabe quantas vezes saber costurar já salvou essa família?”, numa sutil realocação da importância das coisas – não o dinheiro por si, mas o trabalho que é realizado e as trocas que se dão a partir dele.

Em outro momento atravessado por essas questões, que perpassam territórios do mundo todo (como o da própria cidade do Recife e suas favelas e áreas históricas), os moradores se reúnem para discutir a proposta de venda de suas terras para a realização de um empreendimento de grande porte envolvendo um resort, cassino e bangalôs. As opiniões se dividem: alguns querem a venda, considerando que a situação lá não está boa, enquanto outros se recusam, reafirmando suas conexões com o lugar e as atividades que desenvolvem nele. “O que acontece se recusarmos a oferta?” alguém questiona, obtendo como resposta que em caso de recusa eles podem ser retirados à força. É essa a liberdade de escolha que o capitalismo nos propõe: a de aceitar o seu avanço independente do que se interponha em seu caminho, através de coações veladas ou explícitas.

Gravado na própria ilha com os habitantes locais atuando juntamente com o elenco, o filme trabalha progressivamente a relação entre mortos e vivos, memória e esquecimento, ausência e presença. Primeiro se dão aparições mudas, onde os mortos (Adão e Nuria) nada diferem dos vivos se não pelo silêncio, dando a primeira impressão de não estarem sendo visto pelos outros personagens. Aos poucos eles vão ganhando voz na intimidade quando Adão chega a travar um diálogo com Amparo, come da comida, ajuda nos afazeres. E por fim eles totalizam sua presença na Assembleia dos Fantasmas, juntamente com outros mortos – que se diferenciam dos vivos agora pela luz neon de suas roupas, clareando a ambiguidade que perpassava a narrativa -, é o momento em que a vila se reúne para discutir o “acordo de paz com os mortos”, e onde expõem uma série de impressões sobre os conflitos armados.

Questiona-se: como é possível que os mortos tenham paz enquanto continuarem, entre os vivos, as injustiças contra as quais lutaram? Numa das falas na assembleia, pontua-se que tanto os guerrilheiros quanto os paramilitares são filhos dos pobres: os filhos dos ricos não combatem, não são suas vidas que são ceifadas. Nas forças armadas e na resistência, são os filhos dos pobres que são postos para matarem uns aos outros enquanto os reais causadores do conflito permanecem fora de cena, intactos, num mecanismo perverso de interesses e manutenção da desigualdade social. São falas dos próprios moradores, suas dores e dúvidas que aparecem ali. É possível perdoar? Como restaurar algo que foi rompido pela violência e conviver com a morte e a perda? “Digam a mamãe que estamos bem e que ela não teve culpa”, é o que pede Niura na assembleia. Após esta reunião para reconciliação interna e reconexão coletiva, Amparo (que não compareceu) é informada pela Abuela de que foram encontrados os restos mortais de seu marido e filha, e recebe-os numa caixa. É noite e a cheia do rio faz com que os cômodos estejam inundados a uma altura próxima dos joelhos; tudo está à meia luz. Num ritual terno e colorido como as luzes do início, diversas famílias em seus barcos com lamparinas carregam caixas semelhantes a que recebeu Amparo, e se encaminham, através da água, para uma pilha onde depositam os restos mortais de seus familiares, antes de incinerá-los, em silêncio.

De forma lúdica e sutil, como no curta boliviano Abuela Grillo (Denis Chapon, 2009), é conduzida uma jornada sobre os efeitos nefastos de um paradigma econômico que no lugar de pessoas, bens naturais e cultura, enxerga apenas recursos a serem utilizados da maneira mais lucrativa possível, consequentemente não levando em conta as particularidades humanas e culturais. Ambos nos reafirmam a necessidade de buscar um modelo que priorize verdadeiramente a vida e não o enriquecimento de uns poucos sendo vendido como benéfico, ou, como chamam, “progresso”.

“A todos que lutaram antes de nós, e aos que lutarão depois”, é como Los Silencios dá seu recado final, de modo semelhante ao fim de Abuela Grillo: “Dedicado a todos que lutaram e seguem lutando pela água”.