Por Dandara Cipriano

Noir blue se apresenta através de uma voz emergida da tela escura onde luzes se assemelham a proteção de ecrã de um monitor dos anos 2000. Um tecido azul voa, cobrindo um corpo preto retinto que logo nos revelará mais sobre si. A voz melodiosa, que abre aquela sessão, vai se mesclando em frases que rasgam sem sangrar.

O filme, através da sua videodança, nos faz pensar sobre o poder do corpo como forma de fala. Ana Pi nos leva a uma viagem por camadas fotográficas que nos mobilizam perante um quadro aberto e estático em que seu tecido azul dança ao som de verdades pessoais. É como se o azul vibrante viesse nos abrigar e pouco a pouco nos fizesse dançar ao lado daquele corpo preto, feminino e humano.

A partir de um único plano, a África subsariana nos é apresentada com suas ruas de barro, bancas de feiras, tecidos vibrantes e sorrisos largos. É como se encontrássemos na outra margem do Atlântico um novo Brasil. Nesse momento, o curta nos faz perceber que não é preciso falar iorubá para sabermos que também somos filhos daquela terra.

Em algum grau, o curta-metragem de Ana Pi, me lembra Temporada (André Novais, 2018). Sou levada novamente ao filme do André, quando Hélio e Juliana se sentam à beira de um laguinho sujo da periferia que moram. Eles falam sobre suas vidas repetitivas, enquanto questionam sobre o cheiro ruim da água: “Isso aqui, é esgoto, não é?”, pergunta Juliana, ao que Hélio responde: “Mas também é paisagem”. E é a partir da mesma ressignificação, que Ana Pi se apropria da expressão “tão preta que parece azul” e extravasa ao lado daqueles que  conhece a alegria de ser tão preto que a pele brilha.

O amarelo-bege das areias africanas dizem bem-vinda filha roubada. Noir blue através das cores  fala de amor, união e resistência silenciosa, sem idealização. É um filme preto retinto feito para ser sentido, ouvido, acolhido, dançado. A sua leitura é independente tanto quanto a liberdade daquela gente que ocupa as ruas de Ruanda, Angola, Benin, Congo. Se procuro definir o porquê de amar Noir Blue, não consigo. Eu o amo justamente por essa indefinição: é filme ou é videodança? É sobre cores ou sobre ausência destas? Por fim, o que não pode ser contestado, é que é um filme sobre chegada.