Por Letícia Batista

Uma vez conversando com uma amiga sobre séries, perguntei do que se tratava a série Atlanta (FX) e ela me respondeu “sabe a série Insecure (HBO)? É a vida delas. E Atlanta, é a vida deles”. “A vida deles” é o que mostra o novo filme de Vinicius Silva, que nos faz conhecer e acompanhar a vida desses três estudantes negros dentro  da USP – uma das faculdades mais elitistas do Brasil.

Temos três personagens, Dandara (Dandara de Morais), Vinicius (Vinicius Silva) e Luiz (Luiz Felipe Lucas), estudantes da USP. Ela dorme no alojamento, veio do Nordeste. Vinícius, saindo de uma casa que percebemos ser longe da faculdade. Luiz sai de casa de táxi. Quebra-se um grande mito, de que todos os negros seriam iguais. Vemos diferentes pessoas, de diferentes lugares, que sofrem o racismo de forma diferente, mas há um cerne comum, a cor da pele. Quantos eram pra tá? não deixa essas coisas explícitas, mas nós negros conseguimos ver e compreender –  talvez muito mais que a grande parte do público do Janela.

Há uma cena, onde os três personagens conversam sentados no gramado da faculdade, conversas inicialmente bobas, até um “peguete” de Dandara chegar, percebemos que ele é branco. Após esse breve momento dos dois, entramos na conversa sobre “palmitagem” e como isso se dá. Ela fala, quase como um desabafo, sobre os relacionamentos que ela teve com brancos e como era interessante para os homens, “pegar” e nunca assumir. Para as mulheres negras, “pega na mão e assume Como diz a cantora Ludmilla (na música Tá com ciúme?), é muito mais difícil do que parece.

Quando falamos da solidão da mulher negra, passa muito coisa por mim. Vejo essa sensação de diversas formas. No filme, vemos a solitude dessa mulher na juventude, afinal de contas, quem quer “segurar na mão e assumir”, são os pretos ou os brancos? As mulheres negras são “palmiteiras”, já que muitos dos homens negros só querem as brancas? Mas também me  lembro da solidão das mulheres mais velhas, como minha mãe. Em um  filme que fala tanto da juventude, ela não sai da minha cabeça. Como a personagem de Dandara, de uma forma invertida geograficamente, saí cedo de casa para estudar no Nordeste. Não estou mais sozinha no lugar onde estou. Tenho um grupo de amigos, muito parecidos com os do filmes. Saímos juntos, vemos filmes, discutimos sobre política e em vários momentos, falamos mal de brancos. Mas penso na minha mãe, que deixei sozinha, onde ela diz não ver mais necessidade de sentir amor, com amigos tão ocupados como ela. É diferente, complicado e mais solitário.

Ao longo do filme, vamos conhecendo cada vez mais nossos personagens e nos aproximando mais. Sabemos seus cursos e suas amizades. Os vemos em um bar, conversando e ligeiramente bêbados. Diria que essa é uma das cenas mais marcantes dentro do cinema brasileiro hoje, muito pela sua naturalidade. Vemos aqui jovens falando um por cima do outro, muito diferente do que costumamos a ver dentro de uma narrativa clássica, onde um terminaria de falar para outro começar.

Os personagens falam da ascensão do governo PT em suas vidas, de como “Lula foi foda”, mas também fazendo críticas a eles. Mesmo na situação política em que nos encontramos agora, onde a extrema direita ganhou as eleições, a fala de Dandara na mesa é muito potente: “entre direita e esquerda, eu sou uma mulher negra”, ecoando Sueli Carneiro. Porque os negros sempre foram os que mais morreram e os que mais foram presos. Não foram perfeitos estes últimos anos, muitos ainda ficaram pelo caminho. A esquerda, não como um todo, também nos deixou de lado, não tanto quanto a direita, mais deixou. O discurso do Mano Brown no palanque da campanha presidencial do Fernando Haddad, nos deixou bem claro isso. Cadê o trabalho de base? Posso sim ser de esquerda, mas antes disso sei que sou uma mulher negra.

Naquelas conversas pós filmes na frente do São Luiz, a sensação era a mesma. Um filme que nos traz narrativas reais, onde os negros não são representados de uma forma estereotipada como vemos sempre no cinema. Lembro de conversar com meu amigo, talvez já bêbada, de nós negros da geração dois mil, era pós lula, de uma democratização das universidades, onde conseguimos ver uma faculdade um pouco mais diferente, pois agora há alguma cor nestes espaços. Tenho quase certeza que minha mãe, logo que me teve no final dos anos 90, não pensou que sua filha iria entrar em uma faculdade pública, principalmente em um dos cursos que ela diz que é “curso para rico”. A narrativa é importante porque podemos nos ver, sabemos que estes espaços são difíceis de estar, mas a entrada a gente conseguiu, mas se manter é cada vez mais difícil. É importante para nós, sabermos que não estamos sozinhos. Não estudo na USP, mas as agonias, críticas e formas de ver a academia, são as mesmas.

Aqui conseguimos conhecer os nossos personagens e nos identificar com eles, viver seus embates, e, mais importante, conseguimos ver que eles estão junto. Eles querem o que sempre foi negado, o dinheiro. Queremos a ganância que nunca tivemos. Queremos o dinheiro para fazermos nossos longas. E o mais importante, queremos ele dentro do nosso bolso.

Quantos Eram pra Tá? Passou na sessão de abertura do XI Janela internacional de Cinema do Recife e isto foi um fato muito interessante. A noite de abertura em um festival é especial e este filme estar ali, não só é importante como fundamental. Foi lindo de ver as pessoas reagindo com o filme. Sentei do lado dos meus amigos, onde percebo muito deles durante o curta inteiro. Demos risadas juntos com o São Luiz e batemos palmas com muita felicidade do que tínhamos acabado de ver. Dançamos e cantamos na cadeira “Bitch Better Have My Money” junto com os atores. Ovacionamos com três salvas de palma o filme. Mas venho me perguntando desde então sobre o público presente. Como em quase todos os festivais, ele é majoritariamente branco. As minhas reações durante o filme foram por conta de uma representatividade que me fazia falta nas telas. Mas e do grande público, qual era? Queria ter essa resposta. Não sei se o público branco/classe média pára para refletir que aquilo é endereçado para eles, que talvez a risada deles não caiba,  por quê do que estamos rindo é exatamente deles. Não basta ver o filme e gostar, mas precisamos também refletir que lugares de privilégio são esses, quem os ocupa e como.