Linger on Some Pale Blue Dot/
Resista num Pálido Ponto Azul
(Dir. Alexander Koberidze. Alemanha/Israel, 2019)

“Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais amáveis uns com os outros e para perseverarmos e protegermos o ‘pálido ponto azul’, o único lar que conhecemos até hoje”. Este é parte do discurso de Carl Sagan sobre a famosa fotografia tirada em 1990 pela sonda Voyager 1, onde o tamanho aparente da Terra é menor do que um pixel, aparecendo como um pequeno ponto na imensidão do Universo. Sagan reflete sobre a insignificância da Terra no Universo e a prepotência do ser humano, colocado como um amontoado de macromoléculas que habita um ponto perdido no infinito, em se autodestruir e destruir seu lugar no espaço. O cineasta Alexander Koberidze faz referência à famosa fotografia astronômica para intitular seu curta-metragem, onde reflete sobre como resistir aos paradigmas resultantes das ações humanas neste pálido ponto azul.

O que Koberidze usa como fator a se ter resistência é o cotidiano laboral entediante e não-prazeroso. Acompanhando personagens de maneira impessoal – rostos nunca são mostrados nos planos – o diretor busca beleza naquela rotina diária, utilizando-se tanto de beleza auditiva, substituindo o som ambiente por uma trilha sonora com sequência de diferentes faixas musicais, e beleza visual, valorizando detalhes de imagem que podem ser encontrados em meio a máquinas, sujeira, piso, fogo. Assim, o espectador acompanha um dia de trabalho numa fábrica de gesso embalado por sonoridades instigantes e percepções visuais que deslumbram.

Isso traz à tona, por exemplo, a discussão sobre como o acesso à arte pode ser usado como uma maneira de resistir à sufocante rotina imposta pelo sistema. Rotina que desgasta, adoece, enlouquece e que não deixa brecha para escapismos. Que coloca a arte como futilidade em meio à prioridade que é trabalhar e comer, como se o ser humano fosse apenas um mero peão na Terra.

Desta forma, Resista num pálido ponto azul funciona como um grito em busca de beleza na tentativa de sobreviver ao esgotamento cotidiano numa pequena Terra mergulhada num infinito espaço sideral.